Acordou cedo, cedo demais…
Tomou um banho morno, vestiu roupas velhas
Acendeu seu cigarro de filtro amarelo e serviu-se meia xícara
Preto sem açúcar

Tinha idade para ter tudo, mas como a maioria
Não tinha nada

Caminhou até o ponto, sentindo o frio da manhã
Sentou no banco de metal, abraçou-se a si,
Bocejou, tossiu e esperou o ônibus

A fábrica sempre estaria a sua espera
como sua mulher
ou a morte

Ele fumava seus cigarros
E a rotina, o fumava
até o filtro

Seu bife gordo e seu copo de cerveja
Piadas sujas e relatos de traições
Faziam-no sentir-se um pouco melhor

A volta, era tão melancólica quanto a vinda
Sentia-se destruído, choraria se tivesse lágrimas
Sorriria se fosse louco
Morreria, se tivesse coragem

Um garoto com parte do rosto queimado
Mais feio que o próprio diabo
Aproximou-se e abriu seu estilete

‘’Perdeu tio, perdeu.’’

Ele olhou fundo, nos olhos do garoto
Olhos de um marrom opaco
Assustados, mas também destemidos
Olhos que a pouco, perderam a inocência

Calmamente, sem dizer nenhuma palavra
Rápido como o apagar da lâmpada
Acertou um soco, no meio do rosto do garoto
Que caiu apagado, sem ter tempo de sentir a dor

Era um dia atípico, talvez melhor do que a maioria
Seguiu até o ponto e esperou o ônibus

A recepção era a melhor parte do seu dia
Um beijo molhado e uma dose de uísque
Ele beliscou as coxas de sua mulher
Tomou a dose e foi para o banho

Vestindo cuecas rasgadas, um calção velho
E uma camiseta manchada de vinho
Sentou-se no sofá, acendeu um cigarro
Serviu-se de mais uma dose de uísque
Baforou, bebeu, e pensou:

‘’Eu poderia ser Rimbaud, se fosse bicha, ou talvez Whitman, se tivesse uma barba de meio metro’’

E ele se pôs a rir, sozinho, enquanto a fumaça do cigarro dançava no ar e o uísque, dançava na sua cabeça

Sua mulher sentou em seu colo
E perguntou como foi o seu dia

‘’A mesma merda, só que na volta, bati num garoto.’’
‘’Oh! Por quê?’’
‘’ O filho da puta tentou me roubar.’’
‘’ Ah! Nossa… Ainda bem que você é forte como um touro!’’
‘’Isso ai benzinho… O que tem pra janta?’’
‘’Um ensopado de batata.’’
‘’De novo?’’
‘’A grana tá curta benzinho…’’
‘’Bom, pelo menos temos o que comer.’’

Ele a beijou e apertou-lhe a bunda
Comeu duas servidas do ensopado
Bebeu, fumou, escreveu dois poemas
E um conto sobre um homem que se apaixonou por uma cabra
Provando para o mundo e para si, que qualquer miserável
Poderia ser um escritor ruim
Era o suficiente…

Enfiou no rabo de sua mulher, que gemeu alto
E entre uma estocada e outra
Pensava na filha do seu chefe
Gozou
Caiu pro lado
Admirou as rachaduras do teto
Não acreditava em deus, mas gostava de pensar que:

A luz da lua que entrava pela janela do quarto à noite, curava, aos poucos,
todos os dias, de tudo, ao seu tempo…

Logo dormiu…

No outro dia…

Acordou cedo, cedo demais…
Mas dessa vez, olhou no espelho e percebeu que,
era tarde demais…

Então, decidiu não ir trabalhar naquele dia, nem no outro, nem o resto da semana…

Poema de: Vinícius Prestes

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