A inóspita senhorita abriu a porta e permaneceu muda

A morte se passou por mim, ou ao contrário

Terceira porta esquerda no corredor sem luz…

 

‘’Você veio…’’

‘’É’’

‘’Eu vou morrer’’

‘’Eu sei.’’

‘’Por que você veio?’’

‘’Pra te ver.’’

‘’Que diferença isso faz?’’

‘’Não sei.’’

‘’Eu nunca te amei.’’

‘’Eu sei.’’

‘’Então por que você veio?’’

Eu tirei o frasco do bolso e disse:

‘’Pra te trazer paz’’

‘’Isso vai me matar.’’

‘’Sim.’’

‘’Eu vou sentir dor?’’

‘’Não.’’

‘’Obrigado.’’

‘’Eu te amo.’’

‘’Eu sei.’’

Abri a janela e a entreguei o frasco…

A senhorita tivera perdido sua face, mesmo assim, me acompanhou até a porta

Abriu para que eu fosse-me para sempre.

O frasco estava vazio, quebrado na calçada, resquícios daquele veneno eram absorvidos pelas fendas das pedras da calçada rústica, juntei-o do chão, os cacos também, pus tudo em meu bolso, abri meu cantil metálico, dei um gole e despejei um pouco no chão em homenagem a ela.

Eu tinha acabado de matar minha ex-mulher, acendi um cigarro, pensei mais sobre isso no decorrer dos anos,  que me corroeram até uma morte lenta e dolorosa, sozinho num quarto sem janelas, numa manhã nublada de inverno.