Tudo o que me resta fazer
É decorar a árvore com mais um cigarro
E acender outro
Encher o copo com o sangue de Jesus
Direto de um garrafão de 5 litros

Só mais um dia, como qualquer outro
Eu poderia ser deus, ou qualquer merda, talvez a lâmpada do poste
Ou uma telha quebrada, ou o vento que ergue as folhas
Mas nunca o para raio, porque prefiro a escuridão
Talvez a aranha ou a abelha, ou um coelho fodedor
mas nunca a barata, porque prefiro não fazer parte do chão

Você sabe, todos nós sabemos, que poderíamos ser qualquer coisa
Tudo o que todos os idiotas dizem que deveríamos ser
Mas você é só o seu arrependimento, e seus sonhos, e as suas mentiras

E eu sou só o poeta
Que bebe demais e enxerga vultos no meio da tarde
Aquele que do mundo sente o puro ódio e o amor que morre no tempo
Aquele que poderia escrever sonetos e poemas lindos
Para serem recitados nas escolas por professoras solteiras e loiras
De peitos grandes, bundas pequenas e mãos velhas
Mas desde cedo, sei que tudo deveria ser algo a mais do que é, ou melhor
Ou outra coisa

Então prefiro escrever sobre o inferno, sobre o suicídio e a solidão
E especialmente
Sobre as bocetas e suas cores, e seus cheiros e gostos
Que ficaram na minha boca, na minha cama e na minha alma
Significaram muito mais do que a simples beleza relativa
Das paisagens e dos dias de sol, do mar, da lua cheia
E do cair da chuva
Todas elas, algum momento, algum dia, foram amor
E ninguém pode dizer o contrário

Pois se disser… estará mentindo
Ou implorando…
por uma vida menos miserável que a minha

Poema de: Vinícius Prestes

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