Então eu sento, no meio de tudo

eu moro sozinho, mas não gosto de me sentir só

homens e mulheres me cercam, bebem do meu vinho,

do meu uísque, nos meus copos

eles dançam a luz da lua e das luzes coloridas

que trouxeram

a música sem canto

ecoa pelos cantos,

e seus corpos tremem, se desfazem,

aos meus olhos embriagados

tudo está como tinha de estar, vou para o banheiro,

um casal de adolescentes fode na pia

eu apenas dou um tapa nas costas do garoto e digo:

‘’Pode usar o quarto, no fim do corredor’’

‘’Ó sim me desculpe.’’

ele responde assustado, com os olhos arregalados,

colocando o pau dentro das calças

a garota ri e sorri pra mim, de maneira obscena, me engoliu com os olhos

certamente me engoliria com outras partes, por inteiro

eles saem de mãos dadas e entram no corredor

eu tranco a porta e limpo o espelho embaçado de sexo,

as olheiras acusam as noites em claro e o cansaço,

a tristeza irradia dos meus olhos que até hoje nunca brilharam,

a barba por fazer e os cabelos mal cortados

acusam o descaso de um ser cansado de se esforçar

para manter a sanidade…

Eu sento no chão do banheiro, ouço-os rindo, gritando, fodendo,

cantando, dançando, bebendo, cheirando, dou um gole na garrafa de vinho

acendo um cigarro, e espero o tempo passar, a morte não flerta comigo há tempos,

sinto falta dela…

 

A noite termina e só o que sobra são os restos

garrafas e pessoas espalhadas pelo chão

longe de casa, longe de tudo que poderia lhes fazer

algum bem ou significar alguma coisa.

eu acordo-os,

seus rostos inchados transpiram, uísque e tristeza

não poderia ser diferente, ninguém pode, nem deve, se sentir bem

de ressaca

eles vão, um por um, mas voltam, sempre os mesmos…

 

As quatro da tarde, eu me acordo, batidas e batidas

na porta

o sol entra ilumina o apartamento e queima minha retina

o dono com cara de bolacha, parece não ter gostado

provavelmente é minha última noite aqui…

 

Minha última noite, não há muito o que fazer,

enfileirei os 20 cigarros

abri meus melhores vinhos

lavei a última taça que restou, apaguei as luzes

e me pus a beber

minha poltrona quebrada me confortava

meu cinzeiro era o tapete, isso é perigoso, ouvi falar, ou vi num filme

eu não me importo, bebi, fumei, nas duas únicas ordens possíveis,

pensei, pensei em tudo que me valia pensar,

poesia, talvez algumas mulheres, talvez suicídio,

acabei dormindo…

 

Acordei no inferno, pelo menos pensei que fosse,

o apartamento estava em chamas

as chamas me cercavam,

e eu me sentia bem

como nunca antes

uma sensação estranha tudo que me frustrava

tudo o que me atormentava, queimava ao meu redor

eu ainda estava com sono,

fechei os olhos e aproveitei o calor infernal

que me aquecia dos pés a alma

pedi para deus, para que tudo fosse um sonho

e voltei a dormir.