Então, como vim parar aqui?
Escorado nessa parede úmida de concreto e areia,
enxergando poucos palmos de luz…
Luzes alaranjadas, luzes dos postes, que dançam, aos meus olhos ébrios…

Um cigarro na boca e seis na carteira, meu corpo não responde,
posso estar morto,
há muito tempo,
devo estar…

Tudo acontece, entre uma hora e outra,
o começo e o fim, sempre bem definidos…
O meio é sempre uma incógnita, para os bêbados…

Vagamente lembro de estar bebendo cachaça, sentado na sacada
E vagamente, me esqueço de tudo, não há como forçar,
as memórias saem no mijo, junto da cerveja…

Há sangue em minha mão esquerda…
Posso ter matado alguém,
ou me cortado de uma maneira estúpida,
o que é mais provável,
mas eu nunca vou saber…

Consigo ver um rato saindo de um buraco 3 vezes menor do que ele,
ele para por um instante…
Olha-me nos olhos, parece me julgar, parece sentir pena…
Eu o ofereço um cigarro…
Ele ignora, se vira e se põe a fuçar o lixo…

Ratos não fumam, como eu pude esquecer disso?

Eu deito no chão e começo a sorrir, rir, dos ratos e da vida…

Chorar tornaria tudo isso
apenas,  mais uma noite difícil…

O céu é coberto pelo branco da névoa,
Nevoa que se impôs fora de época, no céu e em mim…

Enxergo apenas pelos buracos,
pedaços de um céu sem estrelas,
a lua não parece querer se mostrar,
não é sua noite de brilhar…

Tento cobrir os buracos com a fumaça do cigarro,
tento esconder o céu e a lua:

‘’FAÇO ISSO POR VOCÊS!’’ – eu gritei.

‘’SAI DA FRENTE DA MINHA CASA! SEU BÊBADO DE MERDA!’’ – alguém responde.

Depois de alguns cigarros, e um pouco de silêncio,
finalmente,
consigo cobrir um dos buracos…
Já posso dormir em paz, já posso morrer se já não estou, morto…

Me sinto satisfeito, ouço os anjos me aplaudirem, soa como Stravinsky.

Já fiz minha boa ação do dia,
para o céu e para a lua…

Agora, só preciso de mais um cigarro…

Poema de: Vinícius Prestes – facebook.com/profile.php

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