E de repente, tudo ficou escuro,

menos a lua, que era minúscula naquela noite,

mas ainda brilhava

eu bebia vinho e esperava  a poesia vir

os carros passavam e iluminavam a minha janela

eu nunca tinha percebido que passavam tantos carros

na rua, as 3 da manhã

acendi uma vela,

li 50 poemas

e escrevi um, apenas um

a luz de velas, poético,

romântico, rimas, sentido,

o melhor dos últimos dias,

talvez, dos últimos anos,

talvez o melhor que eu já tivera escrito

e

então

o mundo, ou só o meu bairro,

talvez só a minha rua

se acendeu de novo

e nada mais fazia sentido,

e eu preferia  a escuridão

e a poesia a luz de velas

e o vinho barato que naquela escuridão,

tinha o seu valor…

Dei um longo gole na garrafa de vinho,

e o gosto não era o mesmo

tudo tivera perdido o aspecto confortante

poético e escuro e único…

respirei fundo

escutei a cantoria do vento,

que não estava inspirado, nem afinado, naquela noite,

desliguei as luzes da casa

fechei todas as janelas

apaguei a vela

não funcionou, nada funcionaria…

Escutei os grilos por alguns minutos,

olhando para o nada, enxergando o nada

risquei um fósforo,

admirei a vida curta daquela chama insignificante,

vi sua morte, senti por ela,

acendi outro

e

pus fogo no poema…