Minha cidade me deixa doente
eu volto sem nenhuma esperança
e bebo pra ter o que fazer
as vezes quando você começa a beber cedo demais
você começa a se acostumar com todos aqueles mesmos rostos
redondos e sem os olhos, com os cus no lugar da boca
as pessoas te chamam por uma abreviação do seu nome
e você aceita, porque não quer ser desrespeitoso, mas nunca se lembra do nome de ninguém

 

Mas vamos deixar gratuitamente claro que,

 

eu to cagando para os hippies, porque eles tem carros coloridos e vendem artesanatos feitos de arame e merda, nas ruas
também não me importo com os homossexuais, porque eles são sensíveis demais e não riem das minhas piadas
e as lésbicas, os carecas, viciados, religiosos, as professoras gostosas que abusam dos alunos e a politica
o meio ambiente
nada disso me interessa, muito menos me causa empatia, e se eu pudesse eu fugiria de todos os assuntos
que esse tipo de pessoa gosta de falar
mas quando eu fico bêbado, socializar é minha maldição

 

Eu escuto muitas histórias tristes de adolescentes que nunca bebem mais do que uma garrafa de catuaba de açaí
não consigo sentir nada por eles, nem pena, nem raiva, muito menos tesão

Eu só procuro sair dali e conversar com alguém que valha a pena
uma mulher louca de ácido e maconha me contou uma história interessante:

‘’Eu ganhei esse violão, porque tirei um cabaço’’

Ela disse, com um sorriso sádico no rosto, seu rosto flutuava, segurando por telecinese
aqueles óculos desproporcionais,
ela deitou no chão e tocou alguma música dos anos 90
todos nós cantamos, e naquele dia eu decidi sair da cidade.

 

Mas agora eu volto, e mesmo sabendo que ficarei só por alguns dias,
eu me sinto muito deprimido

isso pode ser porque eu tentei me relacionar com uma mulher muito mais louca e tão problemática quanto eu
mas eu não entendo essa merda de geração que, banaliza as relações de maneira
doentia
ela quis me provar um ponto, beijando um perdedor profissional
na minha frente

merda, eu pensei, mas só pensei e dei um longo gole na garrafa de cerveja

um cara que vestia uma jaqueta de couro e um boné vermelho, um sujeito durão, que segurou minha garrafa de vinho quando precisei mijar, chegou perto e disse:

‘’Caralho, que porra é essa? Você quer que eu quebre esse merda pra você?’’

‘’Não cara, eu mal conheço ela.’’

‘’Eu conheço ele, mas se você quiser, eu quebro…’’

‘Não, obrigado, toma um trago ai.’’

 

Estiquei a garrafa de vinho pra ele. Ele bebeu.

 

‘’ Você tem um cigarro ai?’’

‘’Pior que não.’’

 

Ele foi embora e ela voltou, sentou do meu lado e disse:

 

‘’Viu?’’

‘’Sim.’’

‘’Eu beijo todos os meus amigos.’’

‘’Essa noite só vai valer a pena, se eu te comer.’’

‘’Por que, você só quer me comer? Nós não somos amigos?’’

‘’Somos, eu acho, mas eu continuo querendo te comer.’’

 

Então um filho da puta sem mãe, chegou do lado dela e disse:

‘’Então, você beija todos os seus amigos?’’

‘’Sim’’ – ela respondeu.

Os dois se beijaram, e eu cansei daquela orgia lingual
e tomei meu rumo
os dois pediram pra eu esperar, e tentaram me segurar
eles queriam ir junto
mas pra onde?

pra ela eu não disse nada que eu consiga lembrar
pra ele, eu disse:

‘’Se você me encostar, eu vou te estirar no chão a soco.’’

‘’Você vai me bater?’’

‘’Se você me encostar, sim.’’

Ele se manteve longe, com um sorriso desgraçado no rosto, era só o que restara para ele
entrando no taxi, eu ouvi ela se perguntar: ‘’o que eu fiz de errado?’’

Eu nunca respondi
mais tarde voltei no bar,
e mandei algumas mensagens pra ela, das quais apaguei e não consigo lembrar o teor
procurei ela por uns minutos, mas desisti e comecei a beber de novo
talvez os dois tenham filhos futuramente, ou talvez ele estupre ela

Conheci uma outra mulher que tinha a língua presa, ela me convidou pra jogar sinuca em outro bar, mas isso nunca aconteceu, porque a bebida e a outra, já tinham fodido com a minha noite

Eu voltei pra casa, deitei na grama e não consegui pensar em nada,
subi as escadas, deitei na cama do lado da minha mãe e disse:

‘’Mãe, eu queria falar com o pai…’’

‘’O pai morreu meu filho.’’

‘’Mãe, porque o pai bebia?’’

‘’O pai bebia por vicio.’’

 

Eu tentei chorar, mas não consegui…

 

‘’Mãe, eu acho que não vou durar muito.’’

 

Ela não me respondeu

Então, eu resolvi dormir…

 

Texto de: Vinícius Prestes Antipoeta )

Curta a Pulp Stories e não perca nenhum texto!