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CAPITULO VIII – FIM

-Dizem que ainda anda por aí, ajudando o próximo e fazendo penitência, na esperança de que, no fim de sua longa vida, possa escapar da servidão no inferno, que o diabo disse que aguardava ele. Mas vejo que o amigo está cansado. Vou buscar uma manta de lã e tu vais poder descansar.
Ele saiu e eu fiquei ali. Subitamente, me surgiu na cabeça a imagem que eu tinha visto sobre o telhado, e comecei a ficar inquieto. Quando já me preparava para ir embora, ele voltou com a manta e me estendeu, dizendo:
-Durma. A chuva passa pela manhã.
Me encolhi num canto enquanto ele ia embora e fiquei acordado ainda uma boa parte da noite. Mas o ruído da chuva ouvido de dentro de uma casa tem um efeito sonífero, e eu acabei por adormecer.
Acordei no dia seguinte, com um homem de uniforme me cutucando. Logo vi que era um policial rodoviário, e que o sol já brilhava, devia ser perto de meio-dia.
-Bom-dia… – resmuguei eu.
-Mais ou menos – respondeu o policial – o que o senhor está fazendo aqui, nesta casa?
-Meu carro quebrou na estrada, e eu vim buscar abrigo. O dono da casa me acolheu.
-Dono? Isso aqui é uma casa abandonada e condenada, ninguém mora aqui. O seu carro é aquele que está parado na entrada da propriedade?
-Sim… é sim… algum problema?
-Olha, não era pro senhor ter entrado aqui, mas eu deixo passar se me mostrar os documentos do carro e me explicar direito que história é essa de ter alguém aqui.
-Bom… tinha alguém aqui… não sabia que não era morador do lugar. Me deu pouso e conversou comigo. Se eu soubesse que não era, não tinha aceitado.
-Como é que ele era?
-Usava um poncho de lã e um chapéu enterrado nos olhos. Sabe que nem vi o rosto dele?
Mostrei-lhe os documentos e contei o motivo da viagem. Depois dele e outros policiais, que aguardavam lá fora, examinarem o meu carro e chegarem à conclusão de que eu não era contrabandista e de que tudo o que eu dizia era verdade, fui guinchado até o posto, onde pude telefonar para o auto-socorro. Não estava mais a fim de tentar eu próprio consertar o estrago, me sentia abatido. Antes de ir embora no segundo guincho até a oficina mais próxima, o policial que me acordara disse:
-A gente ficou desconfiado que alguém estivesse usando aquela casa como esconderijo pr’alguma bandidagem. Sabe como é, o local é bom pra isso. Ninguém chega perto, aqui na região.
-Por quê?
-Dizem que o demônio aparece por ali de noite, vermelho, com chifres, patas de bode e asas parecidas com as de morcego. Conversa fiada, mas tem gente que se aproveita.
Despedimo-nos.
No caminho para a oficina, passei de novo diante do sobrado. Velho, caindo aos pedaços e perigoso. Mas estranhamente sem pichações ou sinais de vandalismo. Parecia que todas as suas mazelas tinham vindo exclusivamente do tempo. Pensei no meu anfitrião de rosto escondido, embrulhado no meio do poncho, e cheguei a conclusão de que ninguém viveria num lugar daqueles.
Ninguém que fosse completamente humano, pelo menos.

Texto de: Luiz Hasse 

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