Link do capítulo anterior – pulpstories.com.br/…/o-demonio-do-sobrado-6

CAPITULO VII

No caminho de volta, passou pelos sete que tinham lhe pendurado na árvore, e viu, lá do alto, que eles se benzeram e correram de medo, gritando. Lembrou da dor que tinha sentido e desceu até a terra. Correu atrás de um por um, mais rápido que os cavalos deles, e derrubou um por um da sela. Depois deixou os cavalos correrem, que morriam de medo dele. Pegou a adaga e degolou os sete, que só choraram e se encolheram apavorados. Depois abriu as asas de novo e voltou a voar, vendo que o dia estava passando mais rápido do que esperava.

Voou e chegou na fazenda dos Moreira Neves, nesta casa aqui mesmo, quando já tinha anoitecido. O velho Augusto, quando viu aquela coisa voando nos céus, buscou sua espingarda e atirou, e mandou cada empregado acordar e atirar também, com qualquer arma que tivesse. As balas não machucavam Francisco, mas ele estava louco de furioso, e matou todos com as mãos, já sem precisar da adaga. Entrou na casa correndo, depois de quebrar o pescoço do velho, que ficou a defender a propriedade e o filho. Subiu as escadas, porque os quartos ficam lá em cima, e foi arrebentando as portas. Numa delas, encontrou os recém-casados.

Augustinho estava sentado junto da porta, com uma cara de bobo e de estúpido, olhando pra Eulália, que jazia na cama no meio dos lençóis empapados de sangue. Ela estava morta, com os pulsos abertos e um punhal atravessado no peito, em cujo cabo ela apertava as duas mãos. Tinha se matado antes que o casamento se consumasse, e o marido olhava pra ela sem saber o que pensar ou o que sentir. Não tinha ouvido os gritos nem os tiros do lado de fora. Só então se deu por conta de que, do lado dele, estava um estranho. E gritou, gritou como uma alma sabendo que o diabo vem lhe buscar, cobrando o preço por uma vida de perfídia.
Francisco gritou também. Um grito que saiu rouco, parecido com urro de bicho, e agarrou Augustinho pelos ombros, voou com ele pela janela até ficar tão alto que nem se enxergava a fazenda. O infeliz ficou louco de medo, e implorou pra viver, mas Francisco jogou ele lá do alto, de uma altura que homem nenhum ia sobreviver.
Depois voltou até a casa cheia de defuntos e pegou o corpo de Eulália. Chorando um choro que parecia ganido de cão, levou ela até a casa onde vivera com seu pai, onde encontrou o cadáver deste também, enterrou-os com as próprias mãos, e ficou pranteando os dois até amanhecer.
Quando amanheceu, ele viu que não estava mais sozinho, o diabo estava do lado dele, fingindo tristeza também. Mas Francisco sabia que era fingimento, e que o danado estava feliz da vida, mesmo quando disse:
-É uma pena mesmo, Chico Tropeiro. Eu não disse que tu iria conseguir, disse que te daria a chance de tentar. Pelo menos tu tiveste tua vingança.
Francisco não disse nada, ficou calado, e o diabo, sentindo que não era mais bem-vindo, deu as costas e começou a ir embora, dizendo:
-Um bom dia pra ti, Chico. Só vamos nos ver de novo no dia de tua morte, quando eu virei te buscar.
-Espera aí, tinhoso! – disse Francisco – Tu me disse que não ia tomar minha alma, e, que eu saiba, o diabo é mentiroso, mas sempre cumpre o acordo que faz.
-Eu não tomei nem vou te tomar nada, meu bom homem, e nem fiz acordo nenhum. Tu te entregaste a mim sozinho. Olha quanto sangue tu derramou, e nem todo esse sangue era de gente que te fez mal. Achas que vais pro céu depois de matar tanta gente com tanto ódio no coração? Nada é certo nessa vida, mas eu aposto que, no fim de tudo, vais é vir comigo e me servir. Um bom dia pra ti, Chico. E cuidado pra que ninguém veja teu rosto.
E desapareceu, deixando um cheiro de queimado no lugar. Francisco correu para dentro de casa e se olhou no espelho diante do qual Eulália se arrumava. E viu que tinha ficado feio, chifrudo, com a pele vermelha e patas de bode. Tinha asas e o corpo fechado, mas, junto com isso, o homenzinho tinha lhe dado uma imagem de demônio que ele iria carregar pro resto da vida.”
O relato terminara. Fiquei olhando o meu anfitrião embasbacado. E arrisquei uma pergunta, tão impressionado com o entusiasmo com que ele contara aquela história, quase ao ponto de eu considerá-la verdadeira:
-E o que aconteceu com ele depois?

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

CURTA NOSSA PÁGINA E NÃO PERCA NENHUM POST! 🙂 facebook.com/pulpstoriesbr