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CAPITULO VI

O pobre moço não soube o quanto tempo ficou, mas, quando parecia que a morte estava perto, e a dor diminuia devagarito, ele viu surgir, no meio do capão, um homenzinho. Um homenzinho pequeno, mas de rosto muito bonito, pele morena como a de um mouro, e cabelos cacheados. Diz-se também que vinha muito bem vestido e mancava de um pé. Veio sorrindo, e chamou a atenção de Francisco.
-Boa noite, Chico Tropeiro – disse o homenzinho, com uma voz bonita – que maldade fizeram contigo, hem? Se tu me pedires, te tiro daí. Mas só se me pedires.
-Quem é tu? Porque não me tira daqui logo?
-Porque, por leis mais antigas que a tua vida, eu só posso fazer um favor a um homem se ele me pedir ou me deixar. Devo te tirar daí ou não?
Francisco ficou desconfiado daquela resposta estranha e, mesmo perto da morte, suspeitou que aquilo não era boa coisa. Então respondeu:
-Me diz teu nome antes… não sei se quero ser tirado daqui por ti…
O homenzinho deu uma risada. Tirou do bolso um cachimbo que acendeu com o dedo, e respondeu, depois de uma baforada:
-Eu tenho tantos nomes quanto são as línguas nesta terra. Tu me chamarias de diabo. Quer que eu te tire daí ou não?
-Vai-te embora, satanás – respondeu Francisco – prefiro morrer sem tua ajuda a viver com ela. Deixa o sangue do meu corpo acabar, que logo minha alma vai estar no céu. Se existe o diabo, então também existe Deus, e ele verá eu passar por mais essa provação…
-Egoísta. Pensa na tua própria salvação e em mais nada. Achas que vais pro céu e nem tens pena dos que ficam, como Eulália que, ao raiar do dia, estará se casando com o homem que mandou te matar, e que, esta noite mesmo, vai tomar à força o que ela queria entregar a ti de livre vontade.
-O diabo é o pai de todas as mentiras…
-Tu duvidas, então? Me deixa te mostrar…
E o diabo soprou nos olhos dele e ele viu, como se tivesse estado presente em cada momento, tudo o que tinha acontecido nesta triste história. Gritou de raiva e de uma dor pior do que a dos talhos que havia em sua pele.
-Agora me vou – disse o diabo – já disseste que não queres minha ajuda…
-Espera…
-Mudaste de idéia?
-Não… mas…
-Olha, eu adoro uma boa prosa também, mas eu não tenho a noite toda. Nunca falta trabalho pro diabo neste mundo. Portanto, tu tens que decidir, queres que eu te tire daí?
-E o que é que tu queres de mim em troca?
-Nada, a não ser a permissão pra te servir. Se está com medo de perder tua alma, não a peço em troca. E, além de te tirar daí, te dou asas mais rápidas que o vento e fecho teu corpo pra qualquer bala, facada ou outra coisa que possa ferir um homem. E, com isto, podes ir pra fazenda de Augustinho Moreira Neves e salvar tua prenda. Queres ou não queres? Decide-te logo, que não perguntarei de novo.
-Deus me perdoe por me valer do diabo! Se não vais levar minha alma em troca, eu quero. Me tira daqui.
O diabo riu e trepou na árvore. Nem parecia que mancava antes. Aí cortou a corda com uma unha e Francisco caiu no meio da terra. A dor das feridas desapareceu e ele sentiu que agora tinha duas asas grandes nas costas. Viu também que já era outro dia, e começou a voar no caminho da fazenda, que era longe. E rezava pra que desse tempo.

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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