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CAPITULO VIII – FIM

Ocorre em certas regiões do Brasil a lenda do Papa-Figo. Um homem acometido por um mal incurável, algumas vezes referido como lepra, que, para manter-se saudável, recorre à ingestão de fígados de crianças pequenas. Em algumas narrativas o próprio homem se encarrega de capturar as crianças. Em outras, ele tem agentes espalhados pela cidade. Relacionada a esta lenda, existem os relatos sobre os canibais Iagorate, culto que praticava uma forma ritual de antropofagia através da qual alegava ser capaz de prolongar anti-naturalmente sua existência, enganando a morte através do consumo de certas partes do corpo humano, contanto que acompanhadas ou precedidas da ingestão de um composto vegetal, provavelmente um alucinógeno que

A página acabava ali. Parecia ter sido arrancada de uma enciclopédia ou algum livro acadêmico muito antigo, e no verso da mesma havia uma ilustração bastante cruel, representando uma cena indigesta da lenda. No entanto, não tinha qualquer referência que permitisse imaginar qual fosse seu autor ou de que livro viera.
A folha fora encontrada no armário do quarto do Sr. Paulo Figueira, no interior de uma caixa de madeira, juntamente com um pote de vidro com uma tampa de cortiça cheio até a metade com uma mistura de pós castanho, verde e vermelho, em grânulos fininhos. Na mesma caixa havia uma seringa hipodérmica, um frasco de vidro vazio e um outro frasco do que parecia ser álcool, pelo cheiro. Nenhum desses objetos tinha qualquer identificação ou sinal de sua procedência.
Zeni fizera telefonemas. O diagnóstico de câncer era verdadeiro, em estágio terminal. Paulo Figueira tinha sido um homem solitário, mas bem sucedido, cuja fortuna viera principalmente da locação de salas comerciais. Não tinha amigos íntimos ou parentes próximos conhecidos. Os dois tinham isso em comum, o que era uma amarga ironia. E ele realmente havia contratado uma enfermeira para acompanhá-lo em seus últimos dias.
Só que ela não fora localizada até o momento. E provavelmente não seria nunca, pensou Zeni.
Câncer terminal.
E, no entanto, o ex-delegado, que se exonerara naquela tarde do seu cargo na polícia, lembrava-se do pulo que ele dera sobre o cerca de madeira daquele terreno, bem como de quantos tiros levara antes de finalmente cair. E também de um detalhe que, agora, voltava à sua memória. Com que rapidez a porta de seu apartamento fora aberta naquela breve entrevista, apesar do arrastar de pés, do soro e das expressões de dor, cansaço e abatimento.
Era tarde da noite.
Zeni estava sozinho no seu apartamento, sentado à mesa da cozinha, de frente para a porta da frente, contemplando o pequeno pote de vidro transparente com a mistura de pós, que retirara discretamente da sala de provas.
Levantou-se e caminhou até o banheiro. Despejou o conteúdo no vaso sanitário e deu a descarga. Pela manha, levaria o pote até algum terreno baldio, faria uma fogueira, e o jogaria em cima.
Mas não aquela noite. Aquela noite ele tinha que vigiar. Sabe-se lá por quantas outras.
Sentou-se onde estivera antes novamente, repousando a mão direita fechada em torno do cabo do revólver sobre a mesa.
Sobre a mesma mesa, o jornal dizia, em letras garrafais:

MÉDICO LEGISTA ASSASSINADO
CORPO DE ASSASSINO DESAPARECE

Da maneira que podia, o Dr. Daniel Cipreste fora um bom amigo.
Ele imaginava o que teria acontecido com seu cinismo quando…
Não. Ele não queria imaginar.
Ele vira o corpo do médico, retalhado pelo seu próprio bisturi, embora nenhuma parte tivesse sido levada. Afinal, eram as carnes jovens e saudáveis que ele preferia, não é? Precisava, talvez. Precisava para…
Ele se recusava a imaginar. Jogara fora aquela mistura misteriosa do que parecia ser ervas e cascas de árvores moídas não apenas para que aquela coisa que havia sido um homem tivesse acesso a ela de novo, mas também para impedir a si mesmo de, no desespero, barganhar pela vida. Mas mesmo assim era bom não pensar nele abrindo os olhos, saltando da mesa sobre o médico, furioso e compelido pela sua necessidade urgente.
Ele devia ficar alerta, com certeza, mas se pensasse demais naquilo, enlouqueceria.
Ele o derrubara uma vez, poderia derruba-lo de novo. Aí então faria picadinho do corpo e queimaria o que sobrasse, mesmo que fosse para a cadeia depois. Isso, é claro, assumindo-se que já não tivesse ficado louco.
O tempo diria.
Por enquanto, ele esperava.

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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