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CAPITULO VII

Privado de seu veículo, o monstro tinha que improvisar.
Caminhou pela rua por algumas horas até achar a pessoa certa. Teria sido difícil, se ele não soubesse farejar tão bem.
Ele a encontrou na saída de uma academia de ginástica. O suor ainda podia ser sentido sobre a pele que se esticava lisa sobre os músculos flexíveis e as formas graciosas e femininas dela. Ter pego os dois rapazes também fora bom, mas por alguns motivos apenas adivinháveis, não tão fáceis de serem verbalizados ou mesmo elaborados mentalmente, com as moças fora melhor.
Ela caminhou por duas quadras sozinha, confiante e firme. Não distraída e boba, mas como alguém que, acreditava, saberia se defender.
Ele a alcançou na terceira quadra. Ela não o ouviu se aproximar por trás e mal teve tempo de se debater quando ele enroscou um de seus braços nela e apertou o lenço com a mão do outro braço contra seu rosto. O corpo flexível e bonito se afrouxou em seu abraço e ele começou a carregá-la.
Encontrou o táxi dali a mais duas quadras.
-Por favor, depressa – disse ele, ao motorista que o olhou com um misto de espanto e preocupação – Minha filha desmaiou. Está passando muito mal, eu acho.
Enquanto se acomodava com ela no banco de trás, o motorista perguntou:
-Pro hospital?
-Não precisa. Eu sei o que ela tem. É doença de família. Toca pra minha casa que eu preciso dar uma injeção nela.
-Qual o endereço?
Ele hesitou um pouco:
-Eu vou te guiando. Segue por aquela rua.
O motorista dirigiu por um bom tempo, dobrando em esquinas improváveis e fazendo mudanças de percurso. O passageiro parecia estar nervoso e dava uma orientação confusa, tremia.
-Me dá o endereço, amigo. Eu ponho no GPS e assim a gente poupa tempo.
-Não precisa, já chegamos – disse subitamente, ao passarem por um terreno cercado por um tapume de madeira – Quanto lhe devo?
Saltou para fora do carro e remexia nos bolsos, em pé, na calçada.
O motorista olhou brevemente para o taxímetro e abriu a boca para dizer algo que nunca teve a chance de dizer. A mão do monstro emergiu rápida do bolso do sobretudo que ele usava e fez um movimento relâmpago até a têmpora do motorista. O corpo dele convulsionou brevemente, e o sangue que esguichou foi comparativamente pouco. A coisa toda, na verdade, foi silenciosa. E o fato do táxi ter vidros escurecidos para aumentar a segurança impediu que qualquer pessoa do lado de fora tivesse consciência do que se passara.
Todo o nervosismo aparente do monstro sumiu. Ele retirou calmamente a jovem inconsciente do banco de trás. Carregando como se carregasse uma amante adormecida. Olhou para o tapume de madeira, arqueou as pernas e saltou.
Seu corpo se projetou no espaço e seu pé direito calcou o topo da cerca de dois metros, lançando-o por cima da mesma e para a frente. Ele aterrissou em meio a grama do que estava sendo preparado para ser um canteiro de obras e depositou a carga no chão. Ajoelhou-se ao lado.
Sorriu para si mesmo no escuro. Estava cada dia melhor. Talvez dentro de pouco tempo não precisasse mais fazer aquilo. Era irônico, porque…
Bem… porque talvez tivesse começado a gostar.
Tirou do bolso o rolo de fita e executou o trabalho mecanicamente. Tirou a faca do bolso e se preparou para cortar.
Parou de súbito e olhou para o que tinha feito. Sem se aperceber, tinha passado a fita ao redor da boca dela também. Por que fizera aquilo? Nunca fora necessário se precaver contra gritos… ele sempre golpeava a garganta antes, e de surpresa…
Mas… por que não? Em breve ela estaria morta, de qualquer maneira. Que diferença fazia? Seus últimos momentos eram tão importantes assim?
Qual seria a sensação de cortar alguém consciente?
Havia toda a insistência no frescor do material, de qualquer maneira… então, de certa forma, não seria só por diversão.
Nervoso de verdade agora, com verdadeira excitação, ele desviou a faca que estivera apontada para o pescoço e começou a abrir a blusa e a camisa que havia embaixo, cortado debaixo pra cima. Os retalhos das mesmas penderam para os lados, junto com as metades do sutiã, revelando carne jovem, rosada e vibrante.
Ela remexeu-se e resmungou. Começava a acordar. Será que ele teria coragem? Qual seria a sensação? Seria certo misturar algo que fazia por necessidade com… diversão? Diversão era o nome daquilo?
-Larga a faca! – berrou uma voz no escuro – Larga a faca e levanta!
O monstro levantou-se, atônito, esquecendo-se da presa por um instante. Viu as lanternas apontadas para ele. Não viu os rostos por trás das mesmas, mas reconheceu a voz que dera a ordem.
Sentiu raiva.
-Esperto… Esperto demais… – rosnou no escuro.
Alguém mais frio e experiente teria tomado a jovem como refém, mas a fúria o enlouqueceu, ele urrou e correu com a faca erguida, na direção da voz. Um estâmpido soou, e ele continou correndo, apesar do sangue que começou a espalhar. Outros estâmpidos soaram. Óbvio! Eles deviam estar apavorados! Que o temessem! Ele não iria parar!
O outro estava bem à sua frente. O espertinho. O que lhe mandara parar. Ele estava com medo. Dava pra sentir o cheiro do medo dele. No entanto, ele não tentou correr. Ficou onde estava. Segurou a arma com as duas mãos e disparou mais uma vez.
A bala pegou na cabeça. Quase de raspão, mas o suficiente para arrancar um pedaço do crânio e rasgar as camadas exteriores dos seus miolos. Ele perdeu velocidade, girou sobre os próprios pés, tonto e caiu.
-Covardia… – foi a última coisa que disse
Paulo Figueira estava caído sobre o próprio sangue. Já havia sido transformado numa verdadeira peneira humana muito antes de tombar, mas continuara correndo na direção de Zeni até receber um tiro na cabeça. E mesmo assim, caíra devagar, como uma pessoa acometida por uma vertigem, e não como alguém que fora fuzilado daquela maneira.
Trêmulo, Zeni percebeu que sua bexiga havia se soltado. Deu graças pela escuridão do terreno. Tentando recuperar o autocontrole, olhou a ambiente ao redor. Dois policiais estavam socorrendo a moça presa com a fita, que dava pulos de desespero àquela altura, sem entender direito o que estava acontecendo. Se ele estava com medo, imaginou como ela estava.
-Você viu o tamanho do pulo que ele deu lá fora? – um outro comentou, atrás dele.
-Devia estar com a cabeça cheia de alguma coisa bem forte. Olha quantos tiros levou até cair.
Drogado? Seria essa a resposta?
Zeni abaixou-se ao lado do corpo. Agora, ele parecia bem menos com uma pobre vítima do câncer. O braço que emergia da manga que se arregaçara na queda, cuja mão ainda crispava-se ao redor da faca, era um braço musculoso e corado. Os olhos ainda pareciam vivos. Apenas as linhas gerais do rosto, as rugas e os fios brancos eram os de um ancião.
-Vamos ver o que você me diz desse, Dr. Daniel.

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php 

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