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CAPITULO VI

A casa estava silenciosa. Luzes apagadas e um ar de tranquilidade, contrastando com o movimento constante da rua do centro em que estava localizada.
Era uma casa de dois andares, mas a casa, propriamente dita, se localizava no andar superior, de madeira. A garagem de alvenaria ocupava todo o andar inferior, e desembocava diretamente na rua, sem pátio ou cerca antes do portão eletrônico da mesma. O portão eletrônico provavelmente era a única coisa moderna na casa, que era antiga o suficiente para ali terem vivido umas três gerações, existindo ainda em meio a prédios mais novos e à agitação crescente da cidade. Uma escada lateral levava até a varanda, no andar superior.
Escurecia no fim da tarde, quando o delegado subiu as escadas e bateu à porta, com a mão no bolso segurando o revólver e dois colegas de profissão vigiando do outro lado da rua, caso fosse necessário agir. Mas, por ora, preferia a discrição. Podia ser que o tal Jonas não tivesse nada a ver com a história e, se tivesse, não queria assustar a presa.
Bateu a porta e esperou.
E, enquanto esperava, perguntava a si mesmo. O que estava acontecendo? Por que alguém estava matando gente e tirando pedaços das pessoas? Era só loucura, conforme dissera o Dr. Daniel? Alguma seita bizarra? Algum tipo de experimento médico ilegal? Ele já vira bastante coisa na vida, mas não imaginava o que podia ser aquilo.
Passou bastante tempo. Ninguém apareceu.
Teve a sensação de que estava sendo observado. Olhou ao redor e entendeu por que.
Devia tê-la visto de canto de olho. Uma mulher de meia idade debruçada numa janela, no prédio residencial ao lado, numa altura pouca coisa superior à dele. Sabe-se lá a quanto tempo estava olhando pra ele, carrancuda.
-Boa noite – cumprimentou o delegado, sem que a mulher respondesse, desconfiada – Pode me dizer se conhece o ocupante dessa casa?
-O que o senhor quer com ele, que mal pergunte? – respondeu, mal-humorada.
Zeni fechou a cara, meteu a mão no bolso da camisa e exibiu a identificação.
-O Jonas ainda mora por aqui?
A mulher pareceu assustada.
-Eu… eu não sei… eu não vejo ele faz umas duas semanas. Acho que viajou. Eu fico fora o dia inteiro. De vez em quando escuto barulho tarde da noite, acho que alguém mexe o carro… mas não vejo ele e nem vejo luz acesa na casa. Tá tudo bem com ele?
Zeni não respondeu. Voltou-se para a porta e agarrou a maçaneta, forçando a fechadura já desgastada com um golpe de ombro. Adentrou uma cozinha escura e pouco mobiliada, sendo a única coisa que impingia um pouco de pessoalidade no lugar era um porta-retratos sobre um micro-ondas de um jovem com uma mulher mais velha, talvez sua mãe ou sua avó, e tateou na escuridão pelo interruptor.
O lugar iluminou-se. Não havia ninguém ali.
Passou para um corredor pequeno, que conduzia a dois quartos também vazios e, no final do mesmo, um banheiro vazio e que cheirava mal. Deu meia-volta e foi á outra ponta do corredor, chegando numa salinha de visitas com poltronas e um sofá puído e um cheiro de mofo pungente, de um aposento que não via o sol há muito tempo. Nesta mesma salinha havia uma escada que conduzia à garagem, no piso inferior.
Desceu a escada na escuridão, mas apertando o revolver com a mão direita. Tateou até achar outro interruptor. As luzes se acenderam e, antes de chegar ao fim da escada, viu o carro em meio a caixas com bugigangas e tralhas velhas na garagem. Tudo acumulava poeira, menos o carro.
Parou e escutou. Silêncio total. Teve a certeza de que estava sozinho. Puxou o comunicador de outro bolso e falou com o escrivão, enquanto subia de volta.
-Moreira, quero dois rapazes pra me fazer companhia aqui dentro da casa e mais dois do lado de fora, junto com os que já estão lá. Tudo à paisana. E outra coisa: faz contato com o juiz e tenta me arranjar um mandado de prisão preventiva pra esse Jonas. Baseado em…
Estava na cozinha novamente, mas entrando por um ângulo diferente, notou a pequena nódoa pardacenta no chão, à frente da geladeira.
Caminhou até a mesma, respirou fundo a abriu a porta. O cheiro foi como um soco no rosto. Ele deu um passo pra trás e virou o rosto, enojado. Seus olhos foram cair sobre o porta-retratos. Era o mesmo rosto da cabeça decepada lá dentro, junto com os outros pedaços, já quase reduzidos a ossos.

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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