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CAPITULO V

A campainha soou no apartamento de cobertura do pequeno e elegante edifício e, um instante depois, o residente atendeu.
Zeni olhou para o sujeito à sua frente.
Estava agasalhado num roupão e com os pés calçados em pantufas, apoiava-se a muito custo numa bengala e arrastava ao seu lado um suporte com soro conectado ao braço. Seus cabelos eram grisalhos nas temporas e o bigode já se acinzentava também. E o rosto parecia ainda mais velho, mas de um tipo precoce e estranho de velhice. Ele sentiu o calor que irradiava do apartamento climatizado e pensou que seria melhor para ambos que o homem o convidasse a entrar logo.
-Pois não? – disse o homem do apartamento num fio de voz.
-Boa tarde. Sou o delegado Zeni – disse, exibindo a identificação – O senhor é Paulo Figueira?
-Sim, eu mesmo. Do que se trata?
-Posso entrar pra conversar um pouco com o senhor, Sr. Figureira? É sobre o seu carro.
-Vocês o encontraram? Quer dizer… pode, pode entrar, sim. Só um instante.
Em câmera lenta, o dono do apartamento recuou até a sala e se acomodou numa poltrona. O delegado o seguiu e se sentou diante dele.
-O senhor me desculpe, seu delegado, se eu não lhe sirvo nada. Dei folga para a enfermeira esta tarde, pois fazia dias que ela não via a própria família, e estou sozinho, e me custa sair dessa poltrona. Até um penico eu já tenho perto de mim pra não me desgastar…
-Tudo bem, não quero incomodá-lo. Mas o que o senhor tem?
Figueira riu baixinho um riso rouco.
-Câncer. Ainda bem que meu médico não escondeu nada de mim. Assim vou estar preparado pra quando o inevitável acontecer. É uma sorte achar um doutor tão sincero nesses dias. Normalmente, para os velhos como eu, se costuma mentir.
Desconcertado, o delegado falou, ansiando para mudar de assunto, enquanto remexia em uma pasta que trouxera consigo:
-Sinto muito. Estimo melhoras… mas estava aqui pra falar sobre o seu carro. Você…
-Vocês encontraram meu carro?
-Encontramos?
-Ele foi roubado faz umas duas semanas.
Foi como se o mundo do delegado ruísse.
-Mas… isso não está registrado…
-Me desculpe, seu delegado, se lhe causei algum problema. Eu realmente não dei queixa. Sabe…eu não saio desse apartamento faz uns dois meses, na minha condição. Quando me contaram que ele havia sido levado, eu não dei importância, pois eu não creio que eu vá dirigir de novo nesta vida… e não tenho herdeiros pro automóvel. Mas o que tem ele? Vocês o acharam ou não?
Zeni ficou alguns segundos em silêncio, tentando concatenar as idéias:
-Bem… se você não está de posse do carro, nem sabe onde ele está – falou enfim – então é assunto da polícia e é melhor eu não revelar mais nada. Mas gostaria que você me dissesse em que condições ele foi roubado e que reconhecesse se um determinado veículo numa fotografia é o seu carro.
-Sem problema. Bem… esse prédio não tem garagem, como o senhor viu. Eu deixo, quer dizer, deixava, o meu carro numa casa há três quadras daqui. Não gosto de garagens coletivas. Essa casa em que eu deixava o meu carro pertencia a um moço chamado Jonas, que estava desempregado e não tinha automóvel. Então eu pagava um aluguel pelo espaço dele e um dinheiro a mais para que ele trouxesse e levasse meu carro sempre que eu telefonasse pra ele, caso quisesse ir a algum lugar. Mas, há duas semanas, ele me ligou dizendo que a garagem foi arrombada e que levaram o veículo. O que não fazia muita diferença pra mim, mas era uma pena pra ele, porque mesmo sem utilizar, eu continuava pagando o aluguel. Eu estava até pensando em deixar para ele, pois ele vinha cuidando bem, nesses últimos dois anos em que tínhamos nosso trato.
As esperanças do delegado se acenderam novamente.
-Então vou querer saber o endereço da casa deste Jonas, e o seu nome completo, por favor.

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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