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CAPITULO IV

O delegado Zeni suspirou. A pior coisa a respeito do Dr. Daniel Cipreste é que ele tinha razão. O assassino tinha matado de novo. E a família da estudante não o deixava em paz mesmo.
Zeni era um homem prático. Não tinha vocação para super-herói e nem tinha essa pretensão. Isso não significava que não fosse um homem dotado de bons princípios e alguma inteligência. Seu trabalho era difícil, e levá-lo com honestidade e sem recorrer a métodos desumanos era mais difícil ainda. Algo digno de nota, com certeza.
Mas ele era realista. Não era um gênio da investigação criminal e a parafernália supertecnológica dos seriados policiais não estava disponível. Ele fazia o que podia.
Diante dele estava o corpo de Jacir Um-Sobrenome-Qualquer. Jacir era pedreiro, solteiro, vinte e poucos anos, morava com a mãe, inválida, que sustentava. Isso fazia da morte uma dupla tragédia. Círculo de relações? Amigos da comunidade evangélica que frequentava e colegas de profissão. Namorada? Não. Inimigos? Não. Um pacato zé-ninguém.
Bem diferente era Fernanda Um-Sobrenome-Que-Valia-Alguma-Coisa. Estudante universitária. Filha de família abastada. Cursando educação física para, provavelmente, ter a própria academia tão logo se formasse, com o dinheiro dos pais. Círculo de relações? Colegas da faculdade. Namorado? Um rapaz que chorara como uma criança ao receber a notícia e estava em outra cidade na noite do crime. Inimigos? Nenhum, exceto, talvez, por algumas colegas fofoqueiras.
Qual a relação entre os dois, fora o fato de Jacir ter sido achado num edifício inacabado de cinco andares, uma obra paralisada há dez anos, longe de seu bairro e de ter sido imobilizado com fita isolante, ter tido a garganta cortada e as roupas, e vários pedaços do corpo, principalmente músculos e a maior parte do fígado retirados?
Aparentemente, nenhuma.
Ele iria ficar dando voltas e quebrando a cabeça com aquele caso, e torcendo pra ninguém da imprensa local ou algum curioso estabelecer a relação entre as mortes pra sempre, provavelmente.
Isso, é claro, se não tivesse dado sorte.
Alguém vira o carro estacionado na frente da construção. Uns garotos do prédio em frente, acordados até as três da manhã jogando algum tipo de jogo maluco com dados e gritaria, no salão de festas, e um deles vira um homem de chapéu e terno, com jeito de senhor de idade, carregando um saco para dentro do edifício. Um saco grande, do tamanho de uma pessoa.
Observaram aquilo curiosos, por algum tempo. Foi só quando viram o velho voltar com o saco vazio e joga-lo no porta-malas que um deles teve o insight de apanhar um celular com a devida câmera digital e registrar aquilo. Daquela vez, a imaginação fértil dos jovens estava certa.
Não tinham conseguido fotografar o motorista nem ver seu rosto muito bem, diziam que além do chapéu, usava um cachecol sobre a boca, mas tinham fotografado com surpreendente nitidez a traseira do carro.
Agora ele tinha uma placa e um modelo.
Isso se chamava sorte.

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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