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CAPITULO III

Noite de lua.
Jacir marchava para a casa.
Estava cansado, mas feliz. As idas à igreja sempre o deixavam feliz.
O cansaço que sentia durante uma semana estafante, a distância que mantinha do álcool a duras penas, quando todos os seus amigos iam para o bar após o trabalho na construção, o jejum que fazia pelo menos um dia por semana…
Tudo era recompensado nos momentos de glória, louvor e cantos na igreja.
O esforço para deixar para trás a juventude desregrada, os exercícios que praticava mesmo quando não estava no trabalho, que lhe deram um corpo forte e saudável de novo, tudo era recompensado naquela alegria das noites de domingo.
E havia o medo, também, excelente estímulo.
Afinal, ele já vira o diabo.
Há sete anos completos, numa noite de desregramento e abusos, em que a quantidade de álcool, entre outras coisas, que havia no seu organismo quase o havia matado.
Ele não conseguia se recordar de suas feições, e nem queria, mas o vira frente à frente, rindo faceiro, com olhos frenéticos e mãos que eram como garras de ferro cravadas na sua carne, tentando arrastá-lo para a fenda escura e fétida que se abria atrás dele, o poço sem fundo, o inferno…
Ele lutara contra o inimigo durante o que lhe pareceram era inteiras, usando as mãos para se agarrar e os pés para se firmar no chão, para evitar ser arrastado. O diabo não falava, só ria e urrava, tentando puxá-lo. Quando lhe pareceu que ia perder as forças, lembrou-se de rezar.
Acordara no hospital. Os médicos com que conversava haviam chamado a sua luta espiritual de “delírio provocado por tóxicos”. Mas ele buscara a igreja, se afastara dos vícios e agora estava no bom caminho.
Qualquer coisa, qualquer coisa para se livrar de ser agarrado de novo.
Era bom que fosse noite de lua, pois no bairro humilde que residia várias ruas tinham postes com lâmpadas queimadas ou quebradas, que a prefeitura não se incomodava em consertar, assim, alguma coisa ele conseguia ver do ambiente ao redor, justamente agora que passava por um daqueles intervalos de escuridão entre duas quadras.
-Meu amigo, pode me ajudar, por favor? – chamou a voz no escuro.
Um carro, parado ali, justamente na parte mais escura da rua, que ele só vira no último instante. E a voz educada, mas poderosa, de um homem. Jacir prestou atenção e viu o dono da voz, do outro lado do veículo.
Não parecia ser bandido, nem nada do tipo. Aliás, parecia-se com alguém bem distinto. Pelo carro, diria que era um dos jovens de classes abastadas que volta e meia vinham ao bairro fazer compras de certas coisas que não se achava no centro ou nos bairros mais nobres… mas o dono da voz não era jovem, e nem parecia viciado em qualquer tipo de droga.
-Pois não? – disse Jacir, desacelerando o passo.
-O pneu estourou quando eu cortava caminho. Não conheço ninguém aqui nas redondezas. Estou com o braço machucado, não posso trocar. Pode me fazer esse favor? Eu pago pelo seu tempo.
Exibiu o braço esquerdo pendendo numa tipóia.
Jacir abriu um sorriso:
-Precisa pagar não, doutor. Que Jesus te abençoe. Vou aí te ajudar.
Deu a volta no carro e se abaixou ao lado pneu dianteiro que o outro indicou com a mão.
Apenas tarde demais viu que ele estava completamente cheio e inteiro. Neste momento, seus olhos pularam para o espelho retrovisor à sua frente, e ele viu as duas mãos do velho projetarem-se atrás de si.
Chegou a erguer-se, decidindo entre lutar e correr, mas as mãos fecharam-se ao redor de seu pescoço, com uma força que ele não conseguia medir e nem suspeitaria.
Ele conhecia aquele aperto.
O velho o fez se ajoelhar de novo, ficando oculto entre o carro com vidros escuros estacionado no meio de dois postes cujas lâmpadas não funcionavam e o muro cercando o terreno do outro lado. Foi apertando continuamente, poderia ter partido seu pescoço com facilidade, mas apenas o segurava e o impedia de falar, respirar e de se levantar. Tentar se soltar, se debater ou atingir seus braços era como tentar mover uma rocha com três vezes o seu tamanho.
Bem diante do retrovisor, ele começou a enxergar o seu rosto de novo… da maneira que realmente era e não sob o disfarce de velho distinto… e agora ele não lhe deixava voz para que pudesse rezar de novo.

 

Texto de: Luiz Hasse – https://www.facebook.com/profile.php?id=100005796466805&fref=ts

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