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CAPITULO II

-Eu sabia que ela tinha sido degolada antes de qualquer outra coisa. Era só ver a quantidade de sangue que havia naquelas roupas. Essa é a parte que me preocupa… o sujeito cortou a garganta dela, e só depois tirou as roupas e fez o resto do trabalho no corpo. Ou seja: durante a maior parte da violência, se é que ainda dá pra chamar de violência depois disso, ela estava morta. E agora você me diz que os pedaços estão faltando.
-É isso mesmo – respondeu o legista – Estão faltando. O corpo não foi só estraçalhado. Levaram várias partes embora. Principalmente músculos, mas também o fígado quase inteiro.
-E não só isso… – suspirou Zeni – Não houve violência sexual.
-Você preferiria que houvesse? – respondeu o legista com um sorriso.
O delegado não gostava do médico normalmente. Considerava ele um ser humano gelado e desagradável. E ouvira falar de histórias não comprovadas sobre o mesmo que o fazia gostar ainda menos. Mas quando ele sorria ou demonstrava qualquer reação emocional, aí então o policial realmente o detestava. Suas piadas eram normalmente grotescas, mas felizmente eram raras.
No entanto, a sua pavorosa falta de empatia e sensibilidade o tornava a pessoa perfeita com a qual comentar certos assuntos.
-O problema é o seguinte: eu vi as fotos na bolsa da moça, que estava debaixo das roupas. Era bonita, tinha um corpo bonito. Estudava educação física na faculdade, praticava esportes. Alguém a sequestrou, levou para uma casa abandonada e prendeu seus pulsos e tornozelos. É algo que leva a gente a pensar num sádico, em alguém que gosta de ver os outros sofrerem. Esse tipo de pessoa não é tão raro, a gente sabe. Tem dúzias de filhos da puta nessa cidade que adoram ver alguém gemer e se retorcer indefeso. Eu trabalho com alguns deles, inclusive, que tenho que manter na linha. Então porque essa pessoa não a estuprou? E porque não a feriu ou causou dor enquanto ela estava viva?
O médico não disse nada. Mas seus olhos disseram ao delegado que continuasse.
-Entende o meu problema? Eu já estaria procurando algum ex-namorado violento obcecado a essa altura, ou então alguém que frequentasse os mesmos círculos e tivesse essas tendências, como um traficante para o qual ela devesse dinheiro. Mas a moça não usava drogas, era um exemplo de saúde e, pelo que eu levantei da ficha dela, um exemplo de vida honesta também. E não se envolvia com tipos perigosos. E ela também não foi roubada. A bolsa tinha dinheiro e todos os objetos pessoais, entre eles um celular bem caro. Então o cara não matou por dinheiro e nem por sexo. Sobra o que?
-Loucura, obviamente.
-Mais um problema. Tu sabes tão bem quanto eu que o psicopata, no mundo real, não é aquela figura fantástica do cinema que a gente vê por aí. Um ou dois podem ser parecidos com aquilo, mas eles são a exceção. A maioria não tem codi-nomes, não usa máscaras, nem manda cartas pra polícia, nem mata de forma ritualizada. A maioria dos malucos que a gente conhece são uns sujeitos sem eira nem beira que matam por qualquer bobagem e sem pensar direito no que estão fazendo, até que dão azar e alguém pega elas de jeito. Aqui eu tenho um cara que não deixou digitais, que ninguém viu e que não esqueceu nada… ou seja: um cara inteligente, que sabia o que estava fazendo e provavelmente planejou. E tudo que ganhou foi uns pedaços de gente. Eu não queria ter que lidar com um doente desses.
-Ah, sim… agora sei do que você está com medo.
-Como assim?
-A família está incomodando, não está? A família da moça. É gente de bem. E vai ser pior quando ele matar de novo, porque esse tipo de doido não para numa pessoa só já que você não vai pegar ele antes disso.
O delegado ficou ainda mais sério do que antes.
-Você paga a conta hoje, doutor.
Levantou-se da mesa do bar e saiu pisando duro, enquanto o médico ria baixinho e levava a não ao seu copo de cerveja.

 

Texto de: Luiz Hasse – https://www.facebook.com/profile.php?id=100005796466805&fref=ts