I

O homem andou pelo corredor escuro. Era protocolo ali apagar as luzes assim que fosse a hora de dormir. E esse horário era bem tarde.

Abriu a porta do quarto dos fundos e percorreu os catres no chão com a lanterna.

Ela já o esperava. Acordada. Olhos de gazela hipnotizada pelo súbito surgimento de um farol.

Ele sorriu. Ela não podia ver na escuridão.

Mas mesmo assim ela se levantou e o seguiu.

Uma outra apenas acordou. Não deu importância e voltou a dormir. Era normal. Às vezes uma delas fazia favores especiais aos leões de chácara por algum pequeno benefício. Especialmente as mais novas. Até perceberem que era tão fútil quanto toda a forma de resistência.

O homem e a mulher – que idade tinha? Tão jovem, rosto de menina ainda – foram até a salinha onde ele tinha uma luz acesa. Era onde ele ficava. Queria luz. Queria vê-la. Aquele corpo jovem e bonito.

Ela começou a despir-se, sem ele ordenar. Já estava apenas com a calça que usava para dormir naquele tecido frio. Ele estava sentado.

Ela se aproximou. Montou em seu colo. Esfregou suavemente os seios pequenos e firmes no seu rosto.

A mão veio veio rápido, com a faca que ela roubara do refeitório, e atravessou o pescoço dele. Ainda era um guarda inexperiente. E não viveria para ganhar experiência.

Ele a empurrou, ainda consciente, mas ela não parou de manejar a lâmina. Barriga, barriga, barriga, braços que tentaram se defender, rosto, de raspão, ele vacilou um pouco, zonzo, e ela acertou mais uma no pescoço.

Ele agora era só um monte de carne sangrenta no chão da salinha. Ela não parou pra contemplar. Nada de gozo da vitória. De poses triunfantes. Nada disso. Vasculhou o cadáver rapidamente a achou o que queria. A expressão agoniada.

Controle remoto. Molho de chaves. Apanhou-os, saiu da salinha e desatou a correr pelo corredor. Descalça, usando apenas uma calça de tecido leve, do pescoço até a cintura pintada de vermelho. Ainda tinha a faca, mas dificilmente ela a salvaria de novo. Agora era questão de velocidade.

Hora de ir.

De fugir do Inferno.

Texto de: Luiz Hasse

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