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VII – FIM

Parecia uma sala de cirurgia. E, de fato, era tão limpa e bem equipada que poderia pertencer a um bom hospital. Um homem de meia idade e barba por fazer, segurando um bisturi, acuado num canto, trêmulo, a esperava. Mas não ousou avançar para ela.

Sílvia estava sobre a maca. Ainda viva.

Mas haviam feito coisas com ela.

Suas pernas agora terminavam logo abaixo dos joelhos, envolvidos em ataduras. Ela não tinha mais antebraços, e os tocos recém-operados também estavam enfaixados. Seus dentes haviam sido removidos e havia uma dentadura ao lado, com dentes de silicone, pronta para ser inserida. Suas pálpebras estavam inchadas e os olhos um pouco vesgos. Ela estava acordando. Gemeu sem olhar para nada.

Alice esqueceu-se de tudo. Correu até ela, abraçou-a e chorou.

O médico teria tentado escapar, mas Julio entrou pela porta, recomposto e com o braço enfaixado num trapo de  roupa. A apontou a pistola, erguendo a outra mão com o dedo erguido, como quem pede atenção e silêncio.

– Eu vou cuidar de ti – disse Alice – eu prometo

– Ela não te entende –  disse Julio – Eu conheço esses olhos. Eles foderam o cérebro dela também. Se ela um dia reaprender a falar com o mínimo de coerência já vai ser um grande avanço. Eu vi essas coisas no manicômio.

– Você já esteve num manicômio? – pergunto o médico com uma voz tímida – Talvez eu possa te ajudar se você deixar.

– Eu? Nunca. De onde você tirou essa ideia?

Alice apanhou a pistola e disparou. Os poucos movimentos que o corpo de Sílvia faziam pararam. Para sempre. E então parou de chorar.

– Olha, eu não sei o que vocês pretendem – recomeçou o médico – mas me matar não vai fazer bem nenhum pra ninguém. A gente pode negociar. Tem dinheiro aqui. Tenho informações sobre outras pessoas. Sobre o cara que fugiu. O chefe. O responsável por tudo isso. Eu só cumpria ordens.

– Imagino que tenha bastante coisa naquele escritório – disse Julio.

– Exatamente. Mas eu sei de coisas que não estão lá e, se vocês deixarem…

– Julio – disse Alice com uma voz gelada de ódio – Coloca o doutor na mesa.

 

.       .       .

 

Amanhecia.

Mas, no interior daquele lugar, nenhum raio de sol entrava. Julio recolhera o único cadáver que estava no pátio e o jogara com os outros. Lá fora tudo era silêncio e a única coisa de visivelmente estranha era uma pequena porta que desaparecera cujos umbrais estavam escurecidos pelo fogo. Eles estariam já longe quando chegasse alguém. O que provavelmente seria lá pelo meio dia. A polícia não viera perturbá-los ainda, apesar do barulho de madrugada. A propina comprara aquela paz há muito tempo.

Quando saíssem, levariam com eles as gravações e tudo o que haviam encontrado de útil no escritório.

Na outra sala, a profissional contratada para ensinar boas maneiras às meninas da casa danificara a garganta de tanto gritar. Seus gemidos baixinhos e roucos, no entanto, continuariam por muito tempo.

Alice olhou no rosto do doutor e disse:

– É uma pena que você tão tenha mais olhos pra ver a nossa obra e nem língua para emitir uma opinião. Claro, não temos toda a habilidade do senhor. Foi mais uma coisa de amador, sabe? Torniquete, serra e maçarico. Mas não é que ficou uma beleza? Desinfetamos tudo muito bem. E não danificamos seus ouvidos nem seu cérebro. Quero que você entenda bem sua situação. Tem bastante dinheiro aqui. Dá pra providenciar uma boa enfermeira e uma casa de repouso das melhores. Um ato de caridade por um desconhecido. Eu não vou te matar. Você vai viver, doutor. E no que depender de mim vai viver por muito tempo.

 

Texto de: Luiz Hasse

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