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VI

No alto de uma fábrica comum, ao lado dos cadáveres de um vigia e da garota que ele convencera a se encontrar com ele naquela madrugada, Julio estava posicionado.

À sua frente, rifle sniper com silenciador, mira telescópica e visão noturna. No chão, a mochila de Aline com o equipamento restante. Na sua mão, o controle remoto do aparelho. Apertou o botão pela terceira vez.

Nada.

            Essa instalação tem mais truques do que eu pensava. Felizmente um bom profissional como eu sabe improvisar. Um detetive realmente competente vai ao fundo de tudo.

Disparou com o rifle, destruindo todas as câmeras que havia de frente para a fábrica.

Apanhou a mochila e desceu pelos corredores escuros da instalação. Pegaria o rifle mais tarde.

Ao passar pela entrada, o outro vigia que ele derrubara primeiro deu um gemido.

            Ainda estava vivo? Nossa, tô ficando descuidado. Mas não há risco. Ele tinha o Sinal. Seria morto por mim de qualquer maneira.

Tirou a pistola com silenciador do bolso e disparou em sua direção. Duas vezes. Seus olhos viram a Marca de Abel apagar-se da testa do cadáver.

Chegando até a instalação onde Aline entrara, cuja guarita estava vazia, disparou com a mesma pistola na fechadura por cuja porta o guardinha entrava e saia. E andou pelo pátio.

Um outro guarda veio pelo lado do edifício. Deveria ter ouvido o barulho dele, ou vinha verificar as câmeras que haviam subitamente ficado sem emitir sinal. Júlio disparou em sua direção três vezes. Na terceira, o Sinal em sua testa se apagou.

Diante da portinha por onde vira sua cliente entrar, Julio refletiu enquanto pegava um pacote de dentro da mochila.

            Ela tem alguma chance de sobreviver a isso. Mas nenhuma se continuar sozinha lá dentro. Estou fazendo o melhor pela minha cliente.

 

.       .       .

 

            Estou fodida, pensou Alice.

Uma mesa de aço fora empurrada até a entrada do local onde estava. A pistola que ela tinha não era pesada o suficiente para perfurá-la. E pelo vão que ficou, o guarda que estava atrás dela enfiou o cano de uma arma.

Metralhadora.

Ela podia tentar atingir a mão dele. Um tiro difícil. Uma chance.

E ela não tinha mais que um instante.

Então veio a explosão.

O ar deslocado derrubou o guarda, e fez as balas da metralhadora atingirem o teto. A mesa caiu. Ela viu fogo e fumaça pelo corredor. Ouviu os guardas correndo. Se afastando dali. Uma outra metralhadora fazia sua música.

E então, diante da porta, surgiu uma figura medonha que, quase num delírio, pareceu um gigantesco inseto humanoide. Um inseto letal. Armado, atirando e caminhando num passo lento, mas firme.

– Espera, sou eu! – exclamou Julio, por trás da máscara de gás erguendo as mãos, antes que ela atirasse.

– Por que não acionou a porra do seu aparelho?! – gritou ela.

– As paredes aqui são revestidas com chumbo. Meu controle remoto não funcionou. Se você tivesse apertado o botão, teria funcionado.

Jogou a mochila na direção dela.

– As armas são suas. O colete e a máscara que tem aí são meus. Coloca e vem.

 

.        .        .

 

Passaram pelos cadáveres dos guardas na curva do corredor. E então Alice viu.

O espectro de seu pai diante de uma porta trancada. Apontando a com a mão.

– É aqui.

Fechava por fora. Tinha um cadeado. Ela golpeou com a coronha de sua própria arma. Uma, duas, três vezes. A tranca saltou.

As portas se abriram e ela piscaram os olhos, desnorteadas pela luz. Deviam ser, talvez, uma centena ou mais. Camas rústicas junto ao chão, com cobertores delgados, espalhadas por um piso industrial, em confusão. Uma pia e um sanitário ao fundo. Elas estavam encolhidas num canto, com medo. Haviam escutado os ruídos de explosão e tiros. E ver aquelas duas figuras mascaradas surgindo de repente foi como ver dois marcianos chegando.

– Ela não está aqui… – murmurou Alice.

– Vamos fechar a porta e continua procurando? – perguntou Julio.

– Não. Precisamos tirar elas daqui também.

Julio caminhou até a que parecia mais forte e colocou a própria metralhadora nas mãos dela.

– Tinha um pouco de fogo na saída, mas já deve ter apagado. Esse lugar é quase todo de pedra, concreto e aço. Atira em qualquer pessoa que aparecer no caminho. O resto vai atrás de ti.

Ela pareceu confusa.

Alice completou:

– Corre.

E ela correu. A multidão a seguiu.

No corredor novamente, pairava um silêncio medonho, os dois se puseram a caminhar, seguindo o único caminho que existia.

– Quero achar quem dirige isso aqui. – falou Aline, mais para quebrar aquela quietude que por qualquer coisa.

– Um chefe não é chefe sem motivo, moça. Quando você estava encurralada naquela sala, talvez ele ainda estivesse por aí. Mas assim que a confusão virou contra eles, pode apostar que ele foi o primeiro a puxar o carro. Se alguém ainda está aqui, é porque não conseguiu sair.

E, de fato, na próxima curva do corredor, havia duas portas. Uma delas dava para uma sala vazia com jeito de escritório.

A outra dava para a garagem do local. Havia dois carros e uma van preta. Mas o portão estava aberto. E portão do pátio também.

Mais adiante no corredor havia uma grade que o interrompia, com uma porta recordada no meio. Atrás da grade o corredor tinha mais três portas fechadas. E então acabava.

 

Diante da grade estava um homem morto. Um dos guardas que os haviam recebido antes. Estava ferido nas pernas. Morrera de sangramento. Havia uma chave na fechadura da porta. A fechadura estava inclinada e a chave quebrada. A outra parte dela estava nas mãos do cadáver.

– Ele é o cara que estava atrás da mesa de aço prestes a atirar em ti quando entrei – disse Julio – Era esperto. Se tentou vir pra cá é porque aqui tinha algo que o interessava.

– Eu acho que ele tentou entrar aqui ao mesmo tempo que alguém tentou sair – disse Alice – E então se bloquearam.

– Isso significa que do outro lado dessa grade tem alguém. E que não tem armas de fogo. Se tivesse, teria atirado na fechadura.

Alice atirou na fechadura.

Os dois passaram para o outro lado.

– Porta número um, porta número dois ou porta número três? – Julio sorria.

– Engraçadinho… – disse Alice, séria.

E chutou a primeira porta.

– Espera! Não atira! – gritou o homem do outro lado.

Era um jovem que não se parecia em nada com um guarda. E estava apavorado.

– Eu sou só um técnico. Vim olhar o equipamento hoje. Nem sei direito o que acontece aqui. Não sou problema pra vocês. Por favor, não me matem!

Havia monitores naquela sala, ligados a um painel de controle. Cada um mostrando o que cada câmera filmava. Uma mesa e café. Alguns monitores estavam escuros.

– E onde a gente acessa pra ver as imagens que essas câmeras gravaram? Qual o endereço? – perguntou Julio.

– Não dá pra acessar na internet.

– Como não? Hoje em dia essas coisas são sempre armazenadas num servidor ou num HD com conexão.

– Eu sei. Mas os donos  do lugar disseram que não queriam correr o risco de alguém hackear. E a única maneira de garantir isso é não usar uma conexão virtual. Tudo aqui é armazenado à moda antiga.

– Sério mesmo?

– Sim. Fui eu que sugeri isso pra eles, porque senão hoje em dia qualquer guri de quinze anos com uma boa compreensão de informática poderia…

Julio nem chegou a olhar para o rapaz. Continuou observando os monitores enquanto sacava sua pistola com silenciador do bolso e disparava duas vezes em sua direção.

– Por que você fez isso?! – gritou Alice, surpresa.

– Ele não pode mais nos identificar. Mesmo mascarados, dá pra alguém começar a procurar gente com os nossos tipos físicos. E esse cara ia dar uma descrição bem detalhada assim que apertassem ele. Agora a gente só precisa destruir essas filmagens. Sabe que a ideia dele foi realmente boa? Acho que é isso que querem dizer quando dizem que alguém é esperto demais para o próprio bem.

– Talvez a gente tivesse conseguido mover e esconder ele em outra cidade. Ele parecia ser realmente inocente, seu bosta!

– Entre as várias ordens que você me deu, pediu para eu cuidar da sua segurança. Elegi isso como uma de principais prioridades nesse trabalho. Desse jeito era mais seguro. Além disso ele tinha o Sinal.

– Que porra de Sinal tu tá falando?

A porta dois se abriu e a velha veio, com seu rosto enfurecido que a deixava semelhante a uma harpia e cabelos grisalhos esvoaçante, vestida como gostava, em couro, látex, correntes e tachinhas, com uma tesoura afiada na mão. Julio girou o corpo se colocou entre ela e Alice. Ela tentou atingir o peito primeiro. O colete não permitiu que o golpe entrasse, mas ela era rápida e um segundo golpe tirou sangue do braço de Julio. A arma caiu. Ele a socou com a outra mão fazendo sua prótese dentária saltar e a mulher cair para trás.

– Sua bruxa! Sua vaca velha! Meu braço bom! Você acertou meu braço bom! Meu braço bom!

Ela não era nenhuma criatura frágil e preparou-se para levantar e contra atacar sem nem gemer. Mas Julio apanhou a arma com a outra mão e disparou em sua perna, abaixo do joelho. Ela caiu novamente, uivando de dor.

– É divertido quando alguém danifica um membro seu? É? É?

Era a primeira vez que Alice o via com raiva. A pose de profissional frio e impassível fora embora. Ele estava vermelho, gritando e ligeiramente trêmulo. Mas isso não prejudicava sua pontaria. Pois quando a inimiga ergueu a tesoura para arremessá-la, a próxima bala de Julio a fez saltar, junto com dedos dela.

A sala de onde ela viera tinha uma quantidade absurda de aparelhos de tortura. Algemas. Cavaletes. Palmatórias. Máquinas de dar choque. Cordas. Chicotes. Chicotes com pontas metálicas. Anzóis. Alfinetes. Alicates. Navalhas. Tesouras. Uma tina d’água. Sacos plásticos. Tudo cuidadosamente decorado nos rigores do fetichismo. Mesmo coisas que só poderiam causar machucados sérios e que ninguém usaria só como brincadeira.

– Gosta de dor, então? Vamos ver se gosta mesmo!

Julio inclinou-se sobre ela e apanhou seu outro braço. O pulso fez um estalo. E depois ele a arrastou e algemou na trave de um cavalete. Em seguida apanhou a tesoura.

Alice apenas observava. Não sabia direito o que deveria sentir com aquilo.

Ele cortou a barriga dela. Mas ela não morreu.

Quando Alice se deu conta do que estava acontecendo, finalmente decidiu parar de olhar.

Ele enfiara a mão no ferimento e puxara. Desenrolando o que havia lá.

Quando Julio deu-lhe as costas e fechou a porta, ela ainda gritava. Talvez gritasse por dias. Ele esperava que sim.

Alice, porém, continuara andando até a porta número três.

Sílvia está aqui.

E a arrombou com um chute.

 

 

Texto de: Luiz Hasse

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