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 V

 

A porta se abriu e Julio e Alice fedendo a fumaça entraram.

O escritório de Julio ficava numa galeria comercial no centro da cidade e tinha uma placa com um logotipo e INVESTIGAÇÕES PARTICULARES. A maioria dos vizinhos não sabia qual era a verdadeira natureza de seu negócio. Os restantes estavam misturados no concreto do fosso do elevador do edifício que a galeria atravessava.

Júlio passou pela mesinha vazia de sua secretária e entrou por uma porta num quarto escuro.

Alice observou o lugar e pensou que aquilo ali realmente lembrava o escritório de um detetive – ou, pelo menos, a ideia que a maioria das pessoas tinha de um – e ficou pensando em o quanto o assassino acreditava na própria fantasia que criara pra si mesmo.

E ele retornou antes que ele chegasse a qualquer conclusão. Trazia consigo uma caixa metálica estranha, mais ou menos do tamanho de uma caixa de sapatos.

– O lugar em que vamos entrar tem alarmes bons, é monitorado por câmeras de segurança e provavelmente tem trancas eletrônicas. As janelas que dão para o exterior são cegas. Ou seja, são janelas de mentira. Esse aparelho aqui vai nos dar uma vantagem. Você aperta esse botão e ele emite um pulso eletromagnético. Vai danificar todos os aparelhos elétricos num bom raio ao seu redor. O suficiente pra apagar as câmeras, deligar os alarmes e trancas e deixar todo a instalação no escuro. Mas tem mais este truque.

Ele deslizou o fundo do aparelho, revelando um pequeno compartimento oculto.

– Aqui tem uma pistola. Esta protegido do pulso neste compartimento de chumbo. Ela tem mira laser acoplada e, além disso, uma lanterna. Com aquelas janelas, eles não vão ter luz exterior e vai estar um breu total. Tente ficar de costas para uma parede no escuro. Você vai denunciar sua posição assim que acendê-la. Por outro lado, você vai esta atrás da luz e enxergando melhor do que eles. Ponha o ponto vermelho na cabeça ou peito de cada um e comece a atirar. Se alguém olhar pra você, cegue com a lanterna e mande bala. As chances estão marginalmente a seu favor. Mas você tem que ser rápida.

– E como eu entro lá dentro? Porque mesmo com tudo apagado, eles ainda vão estar de vigia para o lado de fora.

– Você vai apagar as luzes já lá dentro. Aliás, eu vou. Como eles iam desconfiar se você mexesse na bolsa, eu vou ativar o pulso por controle remoto. E entrar logo depois de você.

– Mas como eu vou entrar se os alarmes e câmeras ainda estiverem ligados, gênio?

– Vão te deixar entrar. São traficantes de mulheres, não são? E escolhem as mais bonitas.

– Mas eu…

– Você quer salvar sua amiga? Atravessando aquela sala há um quartinho e um banheiro. O chuveiro é meio frio, e pode cair a chave geral se ele esquentar muito, mas o plano vai funcionar melhor se você estiver cheirando bem.

 

.        .        .

 

Enfurecida por dentro, mas treinando para usar o sorriso que usava em tempos mais ingênuos, Alice cruzava a rua com uma bolsa a tiracolo, usando maquiagem pesada e brincos, que jurara nunca mais tocar. Suas pernas eram exibidas pelo shortinho curto que usava, e sua barriga bem torneada pela miniblusa. Sobre tudo isso um casaco de ombreiras largas que parecia dançar ao redor do seu corpo. Ela sabia o que parecia e o que devia parecer.

Olhou para a fábrica. Sentiu um arrepio ao ver aquela monstruosidade escura e silenciosa. Negro acinzentado sobre um pátio nu de concreto cercado por uma cerca com um portão eletrônico na frente de um portão na construção. Uma guarita ao lado. Arame farpado e câmeras. E talvez uma cerca elétrica.

Mas na guarita havia luz. E um homem.

Ela sorriu. Acenou. Ele olhou de volta e sorriu também.

Ela odiou aquilo ainda mais do que imaginava que odiaria.

– Boa noite, princesa.- disse o homem – Que é que está procurando?

Usava um uniforme escuro de segurança. Parecia só mais um vigilante trabalhando. Ela viu a lanterna, o taser e o revólver na cintura dele.

– Oi. Eu tô perdida… eu vim pra uma festa, a trabalho. Mas eu não achei o lugar. E a bateria do meu celular pifou. Você me empresta o seu?

– Olha… meu celular tá lá dentro. Mas tá sem crédito. Entra comigo que eu te deixo usar o telefone fixo aqui.

E, inocentemente, abriu o portão.

Ela andou na frente do homem até uma porta menor que havia numa reentrância da construção. Dava para um corredor cinzento e quase nu, com fluorescentes lançando uma luz fantasmagórica sobre os dois. Ele abriu uma portinha lateral depois de alguns passos e disse:

– Entra aqui.

Ela entrou.

Era uma saleta com uma mesa e três cadeiras de aço. E mais nada. Uma lâmpada amarela brilhava no teto.

– Pode me dar a bolsa – disse o homem.

Alice hesitou.

Julio não a vira entrar?

Por que não ativava a droga do aparelho?

A luz continuava acesa. Ela pensou.

            Agora. Agora ela vai se apagar.

Mas antes que ela se apagasse, o guarda puxou a bolsa dela. E a luz continuava acesa.

            Bem… hora de improvisar.

O pé fechado no tênis de corrida moveu-se como uma cobra e atingiu o guarda na virilha. Ele gemeu e caiu de joelhos. Ela não se preocupou em tentar apanhar a bolsa. O aparelho caiu no chão dentro dela e soltou cacos. Fechou o punho e desferiu um soco no queixo dele. O deslocamento da mandíbula o fez ficar zonzo prostrar-se no chão Ela enfiou o calcanhar num pisão forte em direção a sua cabeça. Uma. Duas. Três vezes. Na terceira houve sangue.

E então escutou o tiro.

Estava perto da porta. Alguém vinha pelo corredor. Havia visto o que acontecia ali. A bala errara por pouco. Eles eram profissionais.

Ela recuou para dentro da sala, protegida pelo ângulo, e viu a arma no chão. Apanhou-a, e recuou para um canto. Com uma mão ergueu uma cadeira e deu cabo de lâmpada. Apenas a luz que entrava pela porta projetava uma sombra da mesinha de aço, e ali ela se encolheu.

Um outro guarda, uniformizado como o primeiro apareceu na soleira.

            Quem está no escuro vê quem está na luz. Mas quem está na luz não vê quem está o escuro.

E eles não sabiam que ela tinha uma arma.

Ergueu-se e disparou. A bala atravessou a testa do guarda. Pontaria certeira. Não era o primeiro homem que matava. E não seria o último. Estava ficando boa naquilo. E estava começando a gostar.

Um grupo de pessoas que se esgueirava silenciosamente fez barulho ao recuar e ver o companheiro cair. O ângulo era ruim. A porta ficava do lado do corredor. E ela só precisava puxar o gatilho se mais algum deles aparecesse ali.

Por outro lado eram vários.

E tinham tempo pra pensar em algo.

Texto de: Luiz Hasse

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