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IV

 

 

O carro com os dois policiais levou um baque súbito. O da frente derrubou a lata de cerveja que tinha na mão. Alguém batera em sua traseira.

Um alemão de cabeça raspada e expressão de pânico desceu do carrinho popular atrás.

– Mil desculpas… mil desculpas… – disse ele – Vocês pararam de repente… eu não consegui evitar… eu… me desculpe.

Os dois desceram.

– Mão no capô! – gritou o primeiro, apontando a arma, enquanto o segundo descia com o cassetete na mão.

O segundo se aproximou, revistou-o e desferiu uma cacetada na parte de trás seu joelho. O alemão despencou.

Chorando, tentou se erguer, enquanto o primeiro empurrava a pistola em seu rosto.

– Tá a fim de ir pra jaula, careca? – disse o policial.

– Não tem como a gente resolver isso entre nós?

– Olha, quem sabe até tem… – respondeu o outro com um sorriso.

Uma das mãos do alemão moveu-se num tapa rápido que fez voar a pistola do policial. A outra mão agarrou a pele de seus lábios e o fez se dobrar.

O policial de trás largou o cassetete e sacou sua arma. Enquanto isso o careca tinha o seu companheiro com o braço dobrado nas costas e posicionado na frente de seu corpo como escudo. E começou a dar passos rápidos, girando com o refém ao redor do outro.

– Não atira! Pelo amor de Deus, não atira!

– Larga ele! Larga ele senão vou mandar bala!

Quando estava na posição certa, Júlio aproximou-se do outro numa corrida rápida e  empurrou o refém em sua direção. Não chegou a atingi-lo, mas enquanto um tropeçava e o outro desviava, ele se abaixou no asfalto e catou a arma que estava caída. Desferiu um tiro em direção ao rosto daquele que ainda tinha arma.

O outro tentou correr, a segunda bala varou seu joelho.

Enquanto gemia no chão, Júlio se aproximou.

– No joelho dói, né? Ainda mais assim, atingindo por trás. Então… eu quero fazer umas perguntas sobre um lugar aqui perto. Eu imagino que dois policiais corruptos saibam alguma coisa, já que vocês fazem a ronda na área. O seu amigo não tem mais como me responder. Não tenho culpa. Ele tinha o Sinal. Mas vamos fazer isso longe daqui.

 

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Alice odiava esperar.

E odiava ainda mais esperar sem fazer nada.

Não havia nada que garantisse que aquele homem cumprisse  sua palavra – exceto o que dissera o espectro de seu pai, que ela não confiava em vida, mas que, até então, nunca lhe dissera nada errado na morte.

Na garagem da mansão de seu avô, que felizmente estava vazia, ela se exercitava. Os pés e mãos ágeis golpeavam o saco de pancadas.

Então Julio chegou. No carro discreto que ela lhe emprestara. O portão da garagem se abriu e ele buzinou.

– Vamos? Já sei o que a gente precisa saber pra começar. Só preciso pegar mais um pouco de equipamento num lugar perto daqui.

– Já estou com o meu – disse ela, puxando uma mochila verde de uma mesa.

 

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– O lugar é um negócio bem próspero. Como todo negócio próspero, ele paga propina pra banda podre da polícia pra ser ignorado. Eles pegam moças bonitas, ou com lorota ou sequestrando mesmo, e depois distribuem. Daí pra dizer que é o atacado de muito puteiro que tem por aí. Mas só trabalham com o melhor e vendem para o pessoal que pode pagar mais. Além das zonas, tem também os compradores particulares. Homens ricos. Alguns da política. Até mesmo alguns juízes. Algumas mulheres ricas também. Mexer com um negócio assim é bem arriscado. Você ainda quer?

– Sim – respondeu ela.

Desceram no terreno baldio onde ele parara, bastante longe do orelhão onde havia tentando encontrar Sílvia.

– Ele me disse tudo que  sabia sobre a segurança do lugar. É bem discreto. Os vizinhos não sabem. E os vizinhos são só outras fábricas  do local.

Depois disso ele retirou do banco de trás do carro dois galões de gasolina. E começou a espalhar o primeiro sobre o  carro.

– O que você tá fazendo?

– Esse carro tá marcado. Se tinha alguma câmera de segurança na rua, ela viu o meu encontro com os policiais. E se tem uma coisa que eu não quero no meu encalço é a parte corrupta da polícia. Aliás, a parte honesta também não. Além disso, a arcada dentária e a ponta dos dedos ele perdeu no interrogatório. Mas quanto mais irreconhecível melhor. Depois dessa só com DNA.

– Ele está…?

– No porta-malas do carro, é claro. Tive que quebrar alguns ossos pra caber direitinho, mas tá ali.

Um fósforo acendeu a caixa inteira no meio da chuva.

– Te afasta – disse ele.

O carro virou uma tocha no mesmo instante.

E então Alice começou a ouvir os gritos.

Vinham do porta-malas.

– Seu sádico de merda!! – gritou ela, enquanto corria pelo mato, dando as costas ao carro em  chamas.

– O que foi? – Júlio parecia confuso com a indignação dela, correndo ao seu  lado.

A explosão que se seguiu cortou o diálogo enquanto eles se afastavam como sombras fugindo do fogo.

Texto de: Luiz Hasse

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