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III

 

 

Sob um céu escuro e fechado, debaixo de uma chuva que começava a cair e molhar o sangue que havia em seu torso nu, sem saber se tremia mais de medo ou de frio, ela estava agarrada ao telefone público. Quase uma relíquia de outros tempos. Ficava na beira da rodovia. Fora o fato de que era uma rodovia, ela não fazia a menor ideia de onde estava. Dos dois lados, apenas terrenos vazios e escuros, o mato por onde ela correra até alcançar o lugar, os pés nus feridos pelas plantas e pedrinhas, a calça que era sua única roupa esfiapando-se e enlameando-se.

– Eu não sei onde é que eu tô! Por favor, me ajuda, chama a polícia, qualquer coisa! Me tira daqui! Eu não sei… eu só lembrei do teu número… fica na beira da estrada…. de um telefone público… só tem mato ao redor. Eu não sei! Eu não sei!

Um clarão surgiu no céu e, em seguida, um trovão. A ligação emudeceu.

Um segundo clarão somou-se ao primeiro. Um carro.

Os faróis a fitaram e ela cobriu os seios, pronta a correr de volta para o mato.

Mas o carro parou e dela desceu uma senhora.

Embrulhada em uma capa de chuva, com o cabelo grisalho preso por um coque e um rosto de aflição e pena.

– Você está bem? – disse a mulher.

Então Sílvia começou a chorar. Fez que não com a cabeça.

– Querida.. entre no carro… o que fizeram com você?

– Eu tenho medo… eles devem estar me procurando…

– Eu vou te tirar daqui, venha.

Sílvia obedeceu.

– Tem um cobertor no banco de trás. Embrulhe-se nele e abaixe a cabeça. Se me perguntarem qualquer coisa, eu digo que estou sozinha.

 

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Mudo.

O telefone estava mudo.

Alice gritou o nome da amiga. Tentou o redial. Nada funcionou.

– Essa é a qualidade de nossos serviços telefônicos – disse Julio – adoraria investigar quem são os responsáveis por isso.

Alice olhou para ele com raiva. Parecia uma piada, e não havia graça nenhuma na situação. Mas fora dito em tom sereno e com expressão imperturbável.

Ela não respondeu. Caminhou até ele. Tirou a chave do bolso e o libertou da algema. Ele se colocou em pé, esfregou o pulso e esperou. Ela notou a diferença de altura entre os dois. E de peso. Se ele quisesse, teria acabado com ela. E se ela tentasse puxar a arma, daquela distância, ele tinha uma boa chance de tomá-la. Mesmo com todos os exercícios e treinamento que ela vinha impondo a si mesma.

– Eu já sei qual é o serviço – disse Aline – presta atenção. Há um tempo atrás, uma amiga minha largou a faculdade dizendo que ia seguir carreira de modelo. Ela nunca mais fez contato. Se parar pra pensar, não faz muito tempo. Três meses. Não dei bola na hora, mas hoje recebi uma ligação dela. Parece que foi sequestrada. Falou de um lugar onde…

– Deixa eu ver o número.

 

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O carro parou.

– Pronto, querida, pode descer – disse a voz da senhora.

Sílvia colocou a cabeça para fora do cobertor e se sentou, enrolada nele.

E então o grito saiu da sua garganta, como se tivesse vontade própria.

A velha estava na garagem daquele lugar.

Observando com uma expressão severa enquanto dois guardas a arrancaram de dentro do carro, entre gritos, chutes e lágrimas.

 

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– Obrigado, Matias. Ah… deleta esse número do sistema, sim?

Júlio devolveu a ela o celular.

– Pronto. O meu contato na companhia telefônica disse a localização do orelhão. Não tinha muito problema porque era um orelhão. E ele me devia um favor.

– Que favor?

– A gente bebia junto no mesmo bar. Ele vivia se queixando que tinha uma sogra muito chata. Um dia chegou dizendo que sogra tinha sumido, que a esposa tava desesperada, e tal. E então eu contei pra ele o presente que tinha dado pra ele. Ele começou a me evitar depois disso. Gente ingrata é foda, né? Você tem um carro?

 

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O doutor saiu da sala de operações. O chefe o aguardava do lado de fora.

– Pronto. A guria tá bem. Sobreviveu. E o seu cliente não precisa mais se preocupar com essa história de filho ilegítimo. Uns dias de recuperação e ela vai estar pronta pra trabalhar de novo.

Antes que o chefe dissesse algo, um grito feminino de dor veio de traz de uma porta fechada.

– Não dá bola – disse o chefe – uma delas tá no castigo.

– O que ela fez?

– Tentou fugir e matou um dos rapazes. Depois que sair dali ela vai pra vala.

– Se vão matar de qualquer jeito, porque estão castigando? Afinal… ela não precisa aprender nada, precisa?

– Sabe como é a velha. Ela gosta dessas coisas. Daqui a pouco ela fica satisfeita e para.

– Hmmm. Será que vai estragar a pele?

– O que importa? Ela vai morrer.

– Depende – disse o doutor – Posso dar uma sugestão?

– Fala – disse o chefe.

– Então… eu sei de gente que tá interessada num produto novo… começou como uma espécie de boato, eu acho. Uma história que alguém inventou. Só que dá pra fazer de verdade. E já deve ter gente fazendo.

 

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O carro chegou até o orelhão. Fora a chuva e a escuridão de vez em quando cortada por relâmpagos, ninguém esperava por eles ali.

Julio desceu com uma lanterna e inspecionou ou chão lodoso do acostamento.

– Tá chovendo forte demais. Não dá pra rastrear nada.

– Por que será que ela não está aqui?

– O que você acha? Ela conseguiu fugir, mas a pé. Colocaram os cachorros atrás dela e a pegaram. Lide com a possibilidade de que ela já esteja morta.

– Quero achar o lugar onde ela estava. Ela  disse que parecia uma fábrica desativada. Onde guardavam várias moças como prisioneiras. Disse que algumas eram vendidas. Outras… alugadas. Levavam pra alguma festa ou puteiro de luxo e depois traziam de volta.

– Certo… aqui perto é o distrito industrial. Deve ter vários lugares pra procurar. Mas com certeza alguém sabe desse em específico. É uma questão de saber pra quem perguntar.

Texto de: Luiz Hasse

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