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II

 

Alice ergueu os halteres. Estava conseguindo marcas que não conseguia antes. Última série. Feito.

Ergueu-se do aparelho e contemplou ao redor de si a sala de ginástica que havia agora no porão da casa de seu avô. O avô que conseguira resgatá-la da encrenca em que se metera um ano atrás.

Se metera, não. Alguém armara pra ela.

Ela passou em frente ao espelho. O corpo flexível, magro, com músculos rijos, suado, ainda era atraente por trás do uniforme de ginástica. Mas estava cada dia menos parecido com o corpo de modelo que sempre tivera e mais com o corpo de um soldado. Seus longos cabelos esvoaçantes nunca mais estariam naquela cabeça de novo. Religiosamente, uma vez pela manhã e outra pela tarde, a máquina fazia o seu zumbido sobre o couro cabeludo.

Nada de brincos, maquiagem ou qualquer outra máscara.

Ela era o que era agora.

E via o que via.

Seu pai estava no espelho

Seu pai morto.

Apenas ela era capaz de vê-lo. Diferente daquele seu outro amigo que, pelo que ela sabia, convivia com uma multidão deles, ela não via mais ninguém. Apenas ele. Ele não conversava banalidades. Sua expressão de sofrimento inquebrantável também nunca se modificava. Sequer movia os lábios. Mas mesmo assim ela ouvia-lhe a voz.

Ela teria acreditado piamente que estava ficando louca.

Se as coisas que aquele homem – homem? Espírito? Demônio disfarçado num rosto familiar? – dizia não se confirmassem na vida real.

Você vai precisar de ajuda. Da ajuda de um monstro. Mas é um monstro que você pode controlar. Eu vou te dizer onde encontrá-lo. Mas seja rápida. Ou então ele não estará lá mais por muito tempo.

 

.     .     .

 

Julio acordou. E não estava no Inferno. Ou pelo menos pensava que não estava.

Com qual das partes eu sonhei? O que aconteceu antes?

Estava despido. Num leito de hospital. Mas não era um hospital. Era uma sala na casa de alguém. Havia um faixa em seu tornozelo. Ainda sentia as dores de antes, mas mais suavemente. Tentou se levantar e sentiu o seu pulso esquerdo preso pela algema na grade da cama.

A porta se abriu e ela entrou:

– Oi.

– Oi.

Ela não esperava exatamente aquela resposta dele. Um homem alto, forte. Quase bonito. Completamente careca. Tratara dele por três dias. Nenhum fio de cabelo crescera acima daqueles frios olhos azuis.  Seu corpo era cheio de cicatrizes. A pior delas ficava na nuca. Evidente para quem o visse pelas costas.

Ele parecia calmo. Nem sequer particularmente incomodado com a situação.

– Então… você é o Julio, não é?

– Sim. Sou Julio Hertz. Por que estou vivo ainda?

– Não sei. Sorte, eu acho. Quando te achei naquela cova você estava praticamente morto. Dá pra dizer que foi um milagre.

– Isso não responde a pergunta.

– Então… você é direto e eu também sou. Eu sei o que você faz.

Ele sorriu enquanto dizia:

– Que bom! Te recomendaram meus serviços? Bom saber que eu ainda tenho uma reputação, pois andei com muito azar por esses tempos. Pode apostar que sou o melhor detetive do mercado.

– Detetive?

– Claro. Não há quem investigue tão bem quanto eu. Descubro o que quiser. Onde está, o que está fazendo, e por quê.

– Olha, você não precisa fingir… eu sei que você é um assassino profissional.

– Não! – disse ele com uma voz quase ofendida – Eu sou um detetive. O melhor. Sempre quis ser um detetive. E é isso que eu sou. Um assassino é um incapaz semi esperto com uma arma. Ele não tem minhas habilidades investigativas. Eu descubro as coisas. Melhor que qualquer um. Se o cliente quer que a pessoa que ele está procurando morra… o cliente tem sempre razão. Eu não discuto. Eu agrado o cliente. Meu preço é caro. Eu não negocio. Garanto qualidade, mas só aceito o dinheiro de quem pode pagar por ela.

Ela pareceu chocada. Mas apenas por um instante.

– Hmm. Entendi. Então é o seguinte, Júlio. Eu não sei qual é o seu preço. Mas eu tenho uma proposta. Essa parte da casa tem isolamento acústico. Se eu simplesmente der meia volta e trancar essa porta, você morre de fome aí dentro, mesmo que consiga soltar o pulso. Eu quero a sua colaboração numa coisa que vou fazer. E o pagamento vai ser eu abrir essa algema e te dar o material que você precisa para o trabalho.

Ele ficou visivelmente com raiva. Depois pareceu confuso. Depois ficou atento como uma raposa.

Vasculhou com os olhos o ambiente ao redor. Deu uma mexidinha no pulso. Sem chance de soltar. Nenhum objeto pra pegar com a mão direita e usar nela. E ela estava a uma distância segura. Pelo tom de voz, falava a verdade sobre a salinha.

Ela aguardou, com expectativa ansiosa. A mão pronta pra puxar a pistola de dentro da jaqueta verde oliva que usava. Ele parecia indefeso. Mas seu pai havia dito que ele era uma cobra. E cobras são sempre perigosas, mesmo quando parecem que não. Só se lhe arrancassem as presas para ficar inofensiva. Mas ela precisava das presas dele.

E então ele sorriu de novo:

– Feito.

Pode confiar. Ele tem o seu próprio código de honra, na falta de uma palavra melhor. Ele vai fazer o serviço. Agora explique pra ele e garanta sua segurança.

– Eu sei que nós vamos ter que entrar num lugar e tirar uma pessoa de lá. Ainda não sei detalhes. Você vai me acompanhar, me obedecer e me ajudar com o melhor de sua capacidade. Eu vou com você e você tem que garantir que eu sobreviva também. Eu nunca fiz isso. Então eu quero que você me avise se eu estiver fazendo burrada e quero que me dê conselhos. Mas a decisão final de tudo é minha. Depois estamos livres um do outro.

– E qual é o lugar e quem vamos tirar de lá?

– Esse é o problema. Eu ainda não sei. Mas meu pai garantiu que…

Uma mistura de tilintar e zumbido invadiu a sala.

O celular de Alice estava tocando.

Atenda.

Texto de: Luiz Hasse

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