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CAPITULO 7 

-Entendeu o que eu te falei? Você não precisa ter medo de mim. Eu vou te desamarrar mais uma vez… se tentar fugir ou me bater de novo, eu acho que vou ter que te quebrar a espinha. Só não fiz isso até agora porque seria mais difícil de te carregar.
Ela olhou ao redor do porão abandonado, de um prédio abandonado em que eles estavam atocaiados fazia vários dias. Tinha tudo o que precisavam, na opinião do andróide – o mínimo de segurança, garantida principalmente pela clandestinidade, um bom suprimento de comida e água (cuja obtenção provavelmente deixara o dono de algum mercadinho mais acessível hospitalizado), um penico, um colchonete e roupas novas e baratas (que deviam ter sido obtidos provocando a mesma condição nos funcionários de alguma loja mais desprotegida) e uma TV velha que, para a sorte ignorada de algum atendente de uma loja de eletrodomésticos, fora encontrada ali mesmo.
Ele havia sido tão gentil quanto um andróide pode ser – havia conversado com ela com calma, mesmo diante dos berros de ódio e juras de vingança e maldição. Havia cuidado de limpar o local, providenciar uma banheira velha, que também limpara, pra que ela pudesse tratar de sua higiene pessoal, e respeitara a sua discrição. Perguntara suas preferências gastronômicas antes de conseguir a comida – ainda que fosse um péssimo cozinheiro – e, desde a bofetada que a nocauteara após a festa, não a agredira nem uma única vez.
Depois da primeira tentativa de fuga, ela fora amarrada a uma cadeira pelos pulsos e tornozelos, mas sem um único tapa.
Depois da terceira, aquela promessa fora feita. Ele ainda estava tentando ser razoável.
Quando a lembrança do sangue e da morte de Kevin, bem como da perda de tudo o que tinha não a atormentava, ela conseguia raciocinar com mais clareza – e percebia que aquela criatura na sua frente era, sob muitos aspectos, tão inocente quanto ela. Talvez até mais. Talvez até digna de pena.
Ele era cruel, frio, se divertira bastante com a matança e admitia isso e, mesmo naquele instante em que tentava tratá-la bem, estava preocupado unicamente consigo mesmo – mas era um ponto a ser considerado, apesar da raiva que ela não conseguia, e talvez nunca conseguisse parar de sentir, o fato evidente de que ele não tinha escolha nenhuma.
Seu tio, que parecera confiável, afetuoso e solícito por todos estes anos era muito pior – e os outros que estavam com ele, tão ruins quanto.
-Ok, aberração. – disse ela – Eu sou teimosa, mas não sou retardada. Pode desamarrar, que eu não vou fugir.
-Eu nunca sei quando você está mentindo… então quero deixar bem claro que foi a última chance, ok?
Os nós foram desatados, ela levantou e esfregou os pulsos. Ficou de costas pra ele, ainda doía encará-lo.
-Pelo que eu entendi do seu plano, o melhor pra nós é ficarmos escondidos.
-Até que esqueçam que a gente exista.
-Totalmente undercover, né?
-Você morreu e eu nunca nasci.
-Bem, se essa é sua única exigência, acho que concordo… por enquanto.
-Assim sendo, nós…
Ele parou de falar quando ela se virou.
Ela estava com a arma na mão. A mesma que fizera um buraquinho em seu rosto já quase completamente cicatrizado. Ligeira e silenciosa – o “brinquedinho da princesa” estivera na sua cintura até segundos atrás. Quando ela a pegara? Quando ele estava desatando os nós?
Bom, pouco importava. Só tornava um pouco mais trabalhoso.
-Eu avisei.
Deu um passo na direção dela e parou.
Droga! Droga! DROGA! – vociferava uma voz muito humana dentro dele.
A mãozinha delicada dela segurava a arma apontada para a própria cabeça – com um sorriso de triunfo no rosto.
-Você não seria tão estúpida…
-Quer pagar pra ver?

 

Texto de: Luiz Hasse

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