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CAPITULO 4

Pra que eu bobeasse menos na hora da festa, eu tive também umas aulas de “socialização”. Freqüentei lojas, shopping centers, andei pelas ruas… fui numa festa ou duas.
Cara! Como foi divertido! Como a vida poder ser boa! Quantas possiblidades ela oferece, diariamente, seu bando de trouxas! E vocês a desperdiçam com babaquices… sem nem fazer idéia de que, provavelmente, muitos de vocês vão morrer um dia ou um mês depois de ler isso aqui. As estatísticas mostram que pelo menos um não vai chegar até o final do texto.
Eu gostava de viver. Gostava muito.
Como disse, no que eu não penso igual a vocês – então é porque eu penso melhor.
Apenas aquele diabo daquele condicionamento! A maldita “missão” se interpunha entre mim e a minha liberdade… e eu não tinha escolha! Isso, aponta o dedo pra mim e diz “Robô! Máquina!” – e olha ao redor, meu querido, pro teu emprego maçante, pro teu chefe, pras coisas que tu quer comprar, fazer ou destruir e não pode, pra pessoa com quem você vive agora, repulsiva, feia e irritante, tão diferente daquela pessoa adorável e jovem com quem você namorou e se casou, para as contas, deveres e humilhações diárias nas mãos de autoridades, formulários, filas… e pros pirralhos gritando ao seu redor, te dando vontade de matar, não apenas porque eles são um saco e aumentam suas despesas.
Mas porque eles têm tudo aquilo que você teve um dia – e nunca mais vai ter.
Vontade de viver e prazer em viver.
É teu dever sustentá-los também – mas a tua diversão é fazê-los infelizes sempre que pode, né, homenzinho?
Eu dou risada de todos, nessa comédia.
A diferença, meu querido, é que este “robô” aqui conhecia o seu programa.
O dia da festa chegara.
E foi naquela festa com o firme propósito de executá-lo.
Foi brincadeira de criança, sabe?
Escolhi o momento em que ela pareceria mais segura – não a hora da dança, em que ela estaria mais vigiada que nunca, mas a hora em que, findo o discurso meloso do tio e o brinde que eu engoli quase com indiferença, algumas pessoas mais próximas começaram a se aproximar para cumprimentá-la. Havia um gorila de cada lado da menina, e dois de cada lado da fila que se formou.
Entrei na fila.
Estive diante dela.
Era bonita, admito. Sei reconhecer isso – sou muito mais parecido com vocês do que vocês pensam. Morena, pele bem branca, olhos azuis, lábios vermelhos e um sorriso generoso – além, é claro, de um corpo de fazer fechar o comércio. Aquele decote só podia ser provocação…
Bem, acho que foi o decote. Eu devo ter puxado a faca um milésimo de segundo tarde demais.
Um dos gorilas me atingiu – sem problema, era um bastão taser, apenas. Se ele tivesse puxado o cano, talvez a coisa teria sido diferente pra ele. Uma das coisas em que eu sou muito melhor que vocês é que eu não sou capaz de sentir pena – e muito menos de idiotas. O bastão não causou todo o efeito que ele queria. Mas a minha faca no peito macio dele, sim.
Aí, outro atirou. Consegui saltar quando ele puxou a arma e induzi o safado ao erro. O pulso dele estava mais próximo que a garganta… ele foi o único sobrevivente. Se ele não tinha grana guardada pra providenciar uma mãozinha nova, deve ter sido demitido no dia seguinte.
O terceiro deu sorte, ou foi mais rápido, e uma bala me mordeu.
Uma bala nunca vai ser o suficiente pra mim. Hasta la vista pra ele também.
Dois deles haviam agarrado a mocinha e sumido. Os outros dois começaram a abrir distância e a tentar me transformar em flauta doce…. as pessoas corriam, gritavam, as saídas eram abertas às pressas.
Eu catei uma arma do chão – eu ficara convenientemente perto dos cadáveres. Bem, dois caramelos bem colocados pra cada um eram mais do que suficiente… mas mesmo tendo levado a melhor, admito que o meu status de peneira tava começando a me deixar incomodado.
Apesar disso, eu tava me divertindo. Acredita nisso? Acho que só bem perto da morte a gente se sente tão vivo…
Mergulhei janela afora e aterrissei no estacionamento do salão – adivinhem quem esperava por mim?
Dei cabo do primeiro com as balas que ainda tinha… garanti que ele as receberia: atirei na garota.

Vai que ele consegue desviar? O segundo foi um pouco mais complicado…
Ele largou a arma depois de esvaziar na minha direção, enquanto eu busquei cobertura com um carro.
-Meu amigo, meu problema é com ela! – gritei, após contar as balas.
-Vai embora, cara! Se quiser viver um pouco mais!
-Vou te dar mais uma chance…
-Se você ainda está conversando, seu merda, é porque tá sem bala também. Vêm que tem!!!
Superconfiante. E me dera a informação que eu queria.
Sem balas.
Pulei na direção dele – na hora da excitação deixei cair a faca. Nem liguei muito. Eu tinha minhas mãos, ele tinha as dele e uma tonfa munida de lâmina retrátil.
A coisa não chegou a durar meio minuto… mas admito que ele me fez suar.
Me varou de lado a lado com a lâmina. Prendi o braço dele e me separei do bastardinho com um empurrão. Eu tinha a tonfa agora.
Joguei na direção da perna do filho da mãe. Ele não tinha a mesma facilidade que eu pra arrancar coisas de dentro da própria carne. Mesmo assim, ele nem gemeu – tinha culhões, admito! (Ou tava dopado…)
O resto foi na porrada – ele levou a pior.
Ao vencedor, a garota!
A lâmina da tonfa tinha quebrado e virado uma nova faca em minha mão. Ela tentou correr e não conseguiu.
Aí é que eu me dei conta do quanto eu estava ferrado…

Texto de: Luiz Hasse

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