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CAPITULO DOIS

Acordei caído sobre a relva, fora da trilha. Levantei, enquanto as lembranças das últimas horas voltavam, e coloquei a mão na cabeça. Não parecia haver nenhum dano sério, só dor.
E então veio o medo. Alguém me acertara por trás. Ali, onde todos nos sentíamos seguros. Apavorei-me ao pensar que havia alguém hostil por ali. Agindo instintivamente, não sei se para me proteger ou para avisar meus amigos, corri para a Casa Velha.
Naquele momento, as árvores eram vultos altos e ameaçadores, o reflexo na água me falava em morte e perigo à luz da Lua, e a escuridão ao meu redor escondia ameaça e pavor.
Enquanto meus passos me conduziam de volta a porta da frente, eu repetia para mim mesmo que estava tudo bem. Mesmo quando a vi entreaberta, eu que a fechara, com uma réstia de luz escorrendo por ela, dizia para mim mesmo que simplesmente havia esquecido de apagar a luz e que estavam se divertindo como jovens se divertem em casas isoladas.
Os últimos segundos até a porta foram lentos.
Escancarei-a num tapa, e o horror estava diante de meus olhos.
Havia sangue por todo o local. Sangue demais. Manchava o chão e respingara nas paredes.
E havia uma frágil criatura no meio de todo aquele vermelho.
Ferida e com uma expressão de dor, caída sobre o assoalho.
E linda.
Estava nua e apertava suas delicadas mãos contra um ferimento no estômago, de onde escorria sangue lentamente.
Ela volveu seus olhos verdes luminosos para mim e disse, numa voz suave:
– Abaixe-se… eles estão aqui…
Só então eu percebi.
A janela dos fundos, que dava para um trecho selvagem de árvores, estava violada. Havia uma teia de rachaduras espalhando-se do buraco que uma bala fizera pouco tempo antes.
Joguei-me no chão. Instantes depois, ouvi disparos vindos da mata. A janela terminou de se estilhaçar a minha frente.
Apavorado Com certeza eu estava apavorado. Mas uma parte instintiva e primitiva de meu cérebro conseguiu raciocinar apesar do terror. Rastejei até a porta que eu acabara de passar e, sem me levantar, encaixei-a no batente, encaixei a chave e girei.
O interruptor ficava ao lado da porta, bati com a mão nele e deixei tudo ficar escuro.
Não precisava me preocupar com as janelas. Elas tinham grades do lado de fora. Pelo menos as do térreo. Havia uma porta que isolava as escadas que levavam ao segundo andar. Rastejei até ela e a fechei. Tateei a chave na fechadura. Não estava.
Ouvi – ou pensei ouvir – passos ao redor. Um medo venceu o outro. Levantei-me na escuridão e, carregado de adrenalina, empurrei uma estante para frente da porta que isolava as escadas.
Caí no chão em seguida. Então comecei a tremer.
Ouvi um gemido no escuro. Tive a impressão de ver algo brilhar. E então me lembrei da estranha.
– Você está bem?
Confesso que foi uma pergunta idiota. Mas não consegui imaginar algo melhor para dizer. A minha resposta foi um gemido. E pareceu mais de irritação que de dor.
Rastejei até ela. Parei para escutar.
Ela não falava mais nada. Fechara os olhos e respirava suavemente, como se dormisse. O sangue ainda escorria aos poucos do estômago sobre o qual ela tinha suas mãos.
Lá fora, o silêncio se estabelecera. Pensariam eles – quem quer que fossem – que eu havia sido atingido?
Onde estavam os outros?
Não havia sentido em perguntar a uma pessoa inconsciente. Tomei coragem e me levantei devagar, não ficando de frente para a janela. Escutei. O silêncio prosseguia.
Curvei-me e puxei a estranha pelo pé, desajeitadamente, até perto de mim.
Coloquei meus braços por baixo de seu corpo e a ergui. Ela era leve. Mais leve do que seu corpo levava a supor. Ela ergueu os braços, não totalmente inconsciente, e enlaçou meu pescoço.
Pé ante pé, um palmo de cada vez, recuei para uma outra porta na sala.
O porão.
Felizmente, a casa tinha porão.

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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