I

 

 

 

A noite ia alta e parecia que até mesmo os animais da escuridão estavam silentes e aguardavam com sombria expectativa.

O menor e mais fraco dos que se ocultavam sob as árvores, se moveu de seu esconderijo nas sombras, envolto em panos negros, espreitou a grande casa comunal onde a numerosa família de campônios vivia. Era verão e os porcos estava do lado de fora, dormindo no chiqueiro.

O batedor certificou-se de que não havia vigias ou estranhos no local. Ergueu uma mão com um pedaço de metal polido e brilhante voltado para a floresta, que cintilou com a luz clara da Lua para os outros.

Os porcos foram os primeiros a notar quando eles avançaram, guinchando furiosa e apavoradamente.

Os camponeses acordaram, cheios de terror, e, pelas janelas, viram tochas serem acesas enquanto vultos escuros cercavam sua casa. A porta foi posta abaixo e ele entraram.

Os homens mais bravos tentaram resistir, apenas para morrer sob as lâminas dos inimigos. Os mais sábios, ou covardes, ou conformados, fugiram entre a matança, quando seus parentes e amigos morriam, ainda que com lágrimas de medo e desespero nos olhos. Não foram perseguidos, mas os gritos das mulheres violadas e das crianças chacinadas os atormentavam, espalhando horror pela noite.

Rápido como começou, o turbilhão de sons de matança e crueldade cessou. A última vítima a ficar para trás foi silenciada para sempre pouco tempo depois.

A casa queimava consumindo os corpos dos que caíram.

Ordenadamente, os atacantes voltavam para a floresta, com as lâminas e mantos negros encharcados de sangue.

 

 

 

 

II

 

 

 

Na pequena câmara de reuniões, no silêncio e escuridão da madrugada, o Lorde de Gardalan conferenciava com quatro homens e uma mulher.

Eram Donar, o Jovem, e seus Quatro Desertores, e nenhum deles gozava de boa reputação naquelas paragens ou em qualquer lugar onde seus nomes fossem conhecidos. No entanto, era deles que o Lorde necessitava.

O líder, após a troca de cortesias necessária, principiou:

– Agradecemos a sua acolhida e a generosa hospitalidade de seu castelo, milorde. Mas agora creio que possa nos dizer por que estamos aqui, já que chegamos a convite seu, e nas condições que o senhor estipulou.

– Isto será dito no devido tempo, meu rapaz – Donar era homem feito, mas era homem a pouco tempo, e o grisalho Lorde era vinte ou trinta anos mais velho que ele, sem dúvida – Antes quero ter certeza de que vocês são as pessoas que paguei para serem encontradas. Vocês são os cinco que, sozinhos, desertaram do cerco de Landerin, deixando seus companheiros, o restante da tropa, serem vencidos e massacrados pelos defensores da cidade e os sobreviventes enforcados até o último antes os portões da cidade, entre eles o próprio Lorde que os contratou e acompanhava a batalha?

– Sim, nós somos.

– Me conte a história de sua deserção. Faça de conta que nada sei sobre ela.

Donar suspirou disfarçadamente, e repetiu o que já dissera até cansar no último ano:

– Eu sou o filho de Lonar, antigo capitão e comandante da companhia mercenária que lutava a serviço do Lorde de Rastagar naquele dia. Meu pai foi ferido numa tentativa de assalto ao portão, um dos poucos erros que ele cometeu na vida, e veio a morrer em sua tenda. Antes de morrer meu pai expressou sua vontade de que eu o sucedesse na liderança da companhia. No entanto, Rastagar alegou que meu pai lhe devia dinheiro, com o testemunho comprado de nosso tesoureiro, que nos traiu então e que, portanto, a companhia lhe pertencia e ele indicaria um comandante de sua confiança. E o fez. A dívida era mentira, ou eu saberia dela. Julguei-me traído primeiro e me retirei, junto com os meus amigos mais próximos.

O relato fora feito com em tom  impessoal. Embora as palavras demonstrassem ressentimento, o tom de voz não o traia. Aquele garoto de cabelos escuros cortados rente, pele queimada de sol e frios olhos azuis, falava como um homem muito mais velho, pensou o Lorde. E perguntou:

– E seus homens? Não intercederam por você? Não se sentiu traído por eles? Não tentou conquistar a confiança deles? Afinal, vocês tinham as espadas, Rastagar tinha um testemunho, apenas.

– Não. Não funcionaria. Em primeiro lugar, a maioria deles concordava que eu era jovem demais para liderar. Além disso, Rastagar tinha o dinheiro com que eles seriam pagos em seu castelo. E eles esperavam ser pagos. Você pode até dizer que uma companhia de mercenários é sua família. Eu cresci em uma, como filho de meu pai. Mas trata-se de um negócio não muito diferente do ofício de um mercador. Eles vendem coisas, nós, o serviço de nossas espadas. Não somos cavaleiros dispostos a morrer por pura honra, embora a morte seja um risco de nosso trabalho. Somos profissionais fazendo um trabalho que nos sustenta. Nossa honra é nosso contrato e eu teria sido leal a ela se Rastagar não tivesse conspirado contra mim. Não culpo os homens por não terem me apoiado.

– E nem lamenta a sua sorte?

– Como acha que teriam sido tratados os derrotados se o exército invasor tivesse atravessado as muralhas? Não dá pra condenar os defensores da cidade por terem enforcado eles. Quem faz nosso trabalho sabe o risco que corre.

Era de fato um homem frio, pensou o Lorde. E achou aquilo bom.

No entanto, havia um último detalhe a ser averiguado:

– Compreendo. Agora, rapaz, diga-me uma coisa, foi você que ajudou um homem ferido, um viajante esfarrapado há três semanas, tratando de seus ferimentos e dividindo sua água e comida com ele até que pudesse prosseguir?

– Como sabe disso, milorde?

– Este homem não disse na época, mas é um cavaleiro juramentado a meu serviço e, portanto, já lhe devo algo. Por que o ajudou?

Donar olhou para um de seus companheiros. Um rapazola magro e inexpressivo, vestido como um monge, que estava atrás dele.

– Quem tratou das feridas de seu cavaleiro foi Petrus. O recebemos em nosso acampamento e cuidamos dele até nossos caminhos se separarem sem saber que era um cavaleiro.

– Por que?

– Por que não? Era um homem ferido e sozinho. Não representava ameaça. Nada tínhamos contra ele e nem ele contra nós. Não pesaria em nossas provisões. Se estivéssemos na penúria, ou durante uma campanha, as coisas poderiam ser diferentes… mas éramos apenas nós cinco acampando na floresta durante uma viagem.

– Este homem era Sir Galenus e ele chegou à minha casa vivo por conta desta ajuda. Ele os descreveu acuradamente. Um rapaz de porte mediano e poucos sorrisos, que falava por todos, um moço franzino vestindo um hábito com capuz, um gigante vermelho inseparável de seu machado, um rapaz imberbe de cabelos loiros, com a voz de um anjo, que cantava e tocava harpa e uma menina, uma jovenzinha silenciosa cuja voz ele nunca ouviu.

Donar pensou que dificilmente alguém os descreveria melhor. Petrus era tomado por monge frequentemente. Lia e escrevia em mais de uma língua e tratava ferimentos e doenças como ninguém. Donar conhecia sua habilidade com venenos e poções, também.

Redulff superava em altura e força quase todos os homens que ele conhecera na vida. Seu machado de lâmina dupla abria caminho entre armaduras pesadas de metal, lançando cavaleiros para fora da sela quando Redulff estava em pé, desde suas primeiras batalhas. Ninguém diria, olhando para ele, que era pouco mais de um garoto. Mais jovem ainda que o próprio Donar.

Remo tinha a aparência de um anjo, e cantava e tocava qualquer instrumento de corda como um. E, como os anjos, com frequência ele trazia a morte. Com lâminas compridas e leves ou num golpe surpresa com uma faca. Pegá-los desprevenidos, com sua aparência doce e quase feminina era sua especialidade.

Lana era sua irmã. Já tinha idade para se casar, embora ninguém soubesse disso além dele. Ainda se parecia muito com uma criança. Quase nunca falava, exceto com ele. Donar conhecia a valor de seu silêncio. Já a vira se esgueirando e escalando muros que outros diriam impossíveis, o arco curto sob as dobras do manto e o punhal entre os dentes.

Eram sua família.

– Eu procurei por vocês – disse o Lorde – Bom saber que são quem eu pensava.

– E agora que nos encontrou, o que quer de nós?

– Que salvem minhas terras e meu povo. Elas estão sob ataque.

– Nós cinco apenas? Não somos um exército.

– Sei disso. Eu tenho meus próprios guardas e ouro para contratar três vezes eles em mercenários se precisar. Mas estou impedido de agir.

Donar cruzou as mãos, pacientemente, e esperou que o Lorde se explicasse.

– Os meus servos e os camponeses livres que habitam as paragens de Gardalan vem sendo atormentados por ataques noturnos. Muitos são mortos e todos que não fogem maltratados com crueldade. A comida é roubada ou destruída. Os animais, levados ou abatidos ali mesmo e deixados para apodrecer. Não encontrando a proteção que esperam, muitos estão abandonando as terras. Tento impedir o melhor que posso, e eventualmente ponho a ferros quem espalha essas idéias, mas, em meu íntimo, não os censuro. Os ataques são isolados e rápidos e, após sua ocorrência, os bandidos voltam para a floresta que circunda meu feudo, que deveria ser uma proteção, mas não é.

– Os camponeses – prosseguiu – acreditam que os atacantes, vindo sempre à noite, com capas pretas e encapuzados como carrascos, são demônios da floresta. Suas ações parecem visar mais a destruição e o terror que o roubos, mas meus guardas e caçadores examinaram seus rastros e as feridas dos mortos, e acharam marcas de pés de homem e nenhum ferimento ou agonia que um homem não pudesse causar. Não parecem ser muitos, pois sempre atacam alvos isolados e fracos e não seria nada difícil para mim organizar uma caçada a esses patifes, seguir seus rastros até a floresta, chacinar os que ousarem reagir e enforcar os prisioneiros depois, garantindo alívio e um bom espetáculo para meu povo. Mas não posso agir. O amor me impede.

O Lorde baixou a cabeça, algo raro num Lorde que não estivesse entre seus pares.

– Quem quer que sejam, eles tem minha filha. Duas semanas antes destes ataques começarem, minha filha, única lembrança que tenho de minha única esposa, e única descendente que me resta, depois que meus dois filhos mais velhos perderam-se em guerras fúteis no passado, viajava de volta para o convento onde foi educada, depois de passar uma temporada de um ano em minha companhia quando foi arranjado seu casamento. Gyanda é seu nome e é a jóia mais preciosa que tenho. Ia bem protegida e por uma estrada segura, não muito longe daqui. Foi com desespero que eu vi chegar um de seus guardas, que eu julgava ser o único sobrevivente dos protetores de minha filha, trazendo-me este pergaminho:

De entre as mangas do Lorde, surgiu um rolo que se estendeu sobre a mesa que havia ali. A um olhar de Donar, Petrus se adiantou e examinou:

– Foi escrito por alguém com alguma instrução, embora não por um sábio tão versado assim, algumas formas aqui estão erradas, provavelmente alguém que aprendeu as letras não como parte de sua educação, mas por vontade própria ou necessidade, e diz: “Caro Lorde de Gardalan, tenho sua filhinha comigo, e posso machuca-la quando quiser. Em breve meus homens estarão fazendo a coleta dos meus tributos em sua terra. Não é bom para a saúde dela se intrometer com eles. Aguarde futuras ordens, se quiser ver um dia seu precioso tesouro de novo.” Está assinado com um desenho de uma mancha negra com dois buracos brancos que lembram olhos. Assemelha-se a um capuz de carrasco.

– O guarda descreveu um ataque de homens fortemente armados, em número superior e de surpresa, e que ele fora poupado apenas para entregar esta mensagem. Todos os outros, fora minha filha, estavam mortos. E ela fora levada sobre o lombo do cavalo de um dos atacantes. Eu esperava um pedido de resgate à altura de nossa condição. Mas vieram estes bandidos no lugar a perturbar meu povo e, ao ouvir a descrição dos meus servos sobreviventes sobre as vestimentas e máscaras dos atacantes, compreendi o que significavam os tributos de que falava a carta. No entanto, há algo com que o mestre destes ataques não contava. Um de meus cavaleiros também sobreviveu ao ataque. Sir Galenus, grande caçador além de guerreiro, escapuliu quando viu a batalha perdida e compreendeu que o objetivo era a captura de minha filha ainda viva. Depois, ele buscou os rastros dos atacantes e os seguiu discretamente, desfazendo-se de seu escudo, tabardo e armadura, e os seguiu até seu ninho. Ele sabe onde estão. Uma velha torre meio em ruínas, em terras abandonadas, num promontório a beira de um lago, tudo cercado por uma floresta, à distância de uma semana daqui. Galenus foi até lá, não foi visto, e voltou de lá, chegando aqui pouco tempo depois dos ataques começarem, e graças a vocês, sei onde minha filha está. Um ataque direto a esta fortaleza seria uma estupidez, pois o que eles tem é mais precioso para mim que meu próprio nome ou honra, e o risco de feri-la é demais para mim. No entanto, se um grupo pequeno pudesse se infiltrar na fortaleza furtivamente, que, pelo que Galenus diz, não é fortemente protegida e nem vigiada, então… Eu estaria livre para fazer a justiça. Primeiro aqui e depois lá.

Donar pensou e pensou, calculou os riscos e esboçou um ou dois planos em sua mente. E disse o preço. Não houve tentativa de regatear.

– Agora, milorde, se me permite, quero falar com Sir Galenus.

– Isso é impossível.

– Como?

– Ele morreu. Não quero desmerecer o seu médico, rapaz, mas o ferimento que ele trazia, desde o ataque, estava envenenado. Foi somente a custa de muita força de vontade, e também, é claro, da habilidade de seu Petrus que ele sobreviveu para chegar aqui e me relatar o que aconteceu. Poucos dias depois, ele morreu. Ainda antes de morrer, o fedor que exalava era tremendo.

Petrus olhou nos olhos de Donar, mas, a um olhar deste, calou-se.

– Agora me retiro, meninos. Estou cansado e os últimos dias parecem ter me envelhecido muito mais que os últimos dez anos. Bebam o vinho, comam a comida, conversem e, quando estiverem prontos, toquem o sino para o criado os conduzir aos seus quartos. Pela manhã partirão e, se precisam de algo que os ajude na demanda, me peçam agora para que eu mande providenciar esta noite. Não? Pois bem, boa noite.

Assim que se viram sós, Petrus adiantou-se, nervoso:

– Donar, não há a menor possibilidade de…

Donar ergueu a mão. O outro se calou.

– Eu compreendi seu olhar, Petrus. E já tomei providências. Descansemos por um momento.

Petrus olhou ao redor. Redulff riu baixinho e Remo dedilhou as cordas e ensaiou os versos de uma canção:

 

Dona sombra, dona sombra,

                Que aprendem as meninas contigo?

                Meninas más levam a morte,

                As boazinhas tem nela um amigo…

 

Lana havia desaparecido.

 

 

III

 

 

                Temeroso, como é próprio dos homens de seu tipo, Suda esgueirou-se por entre as árvores, na calada da madrugada, e depois de parar e escutar várias vezes ao longo da jornada para assegurar-se de que não havia ninguém por perto, chegou ao local combinado.

O terreno descia ligeiramente. Alguém que estivesse as suas costas não veria imediatamente a pequena fogueira que ele fez na inclinação, próxima da rocha que era o local combinado.

Fez o fogo, acocorou-se ao lado dele, cansado, e esperou.

Em pouco tempo, eles vieram. Daquela vez eram três. Altos e escuros.

– Fale, amigo – disse o do meio, com a voz abafada pelo capuz – Por que nos chamou?

– Tenho ótimas para contar. Valem muito.

O da esquerda remexeu no manto e jogou para Suda um saco que tilintou. Ele catou-o do chão e contou as moedas, ansiosamente.

– Estamos esperando – disse novamente o do meio.

Durtan despertou de sua fascinação e ergueu os olhos.

– O Lorde chamou cinco garotos. Pretende envia-los até a Torre do Lago para pegar a filhinha de volta. Apenas os cinco e ninguém mais.

– Fale-me mais sobre esses cinco garotos.

– Conhece a historia de Donar e os Quatro Desertores?

– Sim. Conheço. Não diga mais nada.

– Devo… ãhn… usar a mesma coisa que usei em… no… no pobre Sir Galenus? Isso custaria um pouco mais, é claro, mas as chances de funcionar são boas enquanto  eles ainda estão lá… eles partem amanhã.

– Não faça nada ainda. Volte para o castelo e reassuma seu posto antes que deem pela sua falta. Seus serviços serão lembrados com gratidão no futuro. Volte amanhã se souber mais. Especialmente se souber por que caminho eles vão.

Suda se virou para partir e, então, voltou-se para os três vultos de negro novamente:

– Este lugar… esta terra… está indo para o Inferno, não está?

– O que você acha? – respondeu aquele que falava pelos três.

– Bem… quando a coisa toda acabar… posso… posso ir com vocês?

Silêncio. Ninguém disse nada.

– Pensem no assunto – acrescentou Suda algo desconfortável – Eu sou bom no que faço, vocês viram. Adeus.

Suda apressou-se acima da inclinação. Ao estar sobre terreno plano novamente, um dos três chutou a fogueira lá embaixo. A escuridão se fez mais forte, mas ainda havia Lua. Os três não forma mais ouvidos depois disso.

Enquanto o traidor voltava para a casa, dava graças pelo céu estar claro. Ali, entre as árvores, enxergar era difícil a poucos palmos de distância, mas com o céu acima de sua cabeça, sabia muito bem que direção seguir. Além do mais, como habitante nativo do lugar e guarda desde que se tornara homem, nada daquilo lhe era estranho. Exceto, é claro, o papel que estava desempenhando.

“O grande golpe de minha vida”, pensou ele, “A virada que sempre esperei, afinal, de que outra forma um homem como eu poderia fazer fortuna um dia? Eles tem castelos, nomes de família, brasões. Eu sei manejar uma lança e um gládio, sou silencioso, escuto, falo e calo nas horas certas… essas são as coisas que eu tenho…”

E então veio a flecha.

Cravou-se em sua garganta e, apesar da dor, o fluxo de sangue o sufocou e impediu o grito. Em pânico, ainda sem compreender o que estava acontecendo, ele tentou sacar a curta espada que trazia na cintura. Seus olhos reviraram a escuridão e não encontraram nada. Exceto o brilho da ponta da segunda flecha, que lhe varou a coxa direita. Enquanto ser retorcia no chão, veio a terceira, e lhe varou o abdômen.

Então ele compreendeu. Um instante antes de tudo acabar.

Sempre há alguém mais silencioso.

Aquele que vigia, também pode ser vigiado.

Lana emergiu da sombra sob a qual se abrigara algum tempo depois. Chutou o corpo em três pontos sensíveis, e comprovou que estava realmente morto.

Apoderou-se da bolsa. Moedas de prata. Ela gostava de moedas de prata. Brilhavam satisfatoriamente. Como a trilha que ela deixara para os companheiros.

Dali a pouco eles chegavam, recolhendo a última de suas pedrinhas brancas.

Ela fez um gesto floresta adentro, mostrou as moedas fez um sinal com os dedos.

Três.

– Remo, passo acelerado comigo. Redulff, em linha reta por onde Lana indicou. Você nos escutará. Lana, escolte Petrus atrás de todos nós. Temos que ser rápidos.

 

.            .          .

 

– Com licença, senhores… – disse a voz, hesitante e bela – Eu acho que estou irremediavelmente perdido…

Os três pararam, atônitos, e se voltaram para a escuridão de onde ela viera.

Um jovem emergia de entre as folhas, com os olhos marejados de lágrimas, trazia nas mãos uma harpa.

– O Castelo de Liriandus é longe? O baile já começou? Vocês vêm de lá? A festa é com o uso de máscaras? Se me atraso, estou perdido! Me desgarrei dos outros e nem um lume tenho para me acompanhar…

Por um tempo, piscaram atônitos.

– Silenciem o infeliz. E o tragam conosco.

Os dois avançaram.

– Não reaja, é nosso prisioneiro mas se for… Arrrgh!!!

 

Carneirinho que vem buscar lã,

                Mesmo com cor de lobo,

                Sai tosquiado no fim das contas,

                Como prêmio por ser tão bobo!

 

                Remo recuava, lâmina gotejante em riste, enquanto um deles caia, apertando a ferida através da qual seu sangue fluía aos borbotões. O outro sacava a espada e avançava.

– É uma cilada! Toca a corneta! Toca!

Em puro desespero, desferia golpes furiosos, detidos pela espada de Remo, que apenas passava para trás e sorria.

O que ficara para trás, puxou o manto pesado e levou a mão a cintura. A meio caminho,  ouviu as passadas de Redulff e o viu emergindo da escuridão, o machado girando sobre a cabeça, brandido com uma mão só. A mão sacou a espada no lugar da corneta e aprumou-se para a luta.

De um só golpe, espada saltou da mão e abriu-se uma brecha do ombro à metade do peito. Aquela corneta nunca seria tocada.

Donar surgiu ao lado de Remo e golpeou a lâmina do adversário. Remou parou de recuar por um instante feriu-lhe a mão.

– Bastardos! Malditos! Eu vou…

Redulff agarrou-o por trás e jogou-o contra  uma árvore. Ele poderia ter sacado a faca ao virar-se, mas o tempo que demorou para procura-la na cintura foi o suficiente para Redullff soca-lo no estômago com tanta força que suas costas bateram no tronco atrás. Caindo de joelhos na terra, foi erguido novamente por duas mãos que eram como tenazes de ferro pelos pulsos, e empurrado novamente contra a árvore. Quando gigante soltou-o, seus braços estavam presos por cordas.

De trás da árvores vieram Lana e Petrus.

O jovem encapuzado acocorou-se juntando gravetos.

– Um instante para esquentar. Funciona melhor quente. Ahn… Remo fez um trabalho muito cruel com este que ele picou. Ele só vai sangrar e sofrer, pelo que estou vendo, numa agonia que terminará em morte de qualquer maneira, a não ser por um milagre. Não gosto dessas coisas. Lana, pode fazer algo a respeito, por favor?

Enquanto o caído recebia a misericórdia da faca de Lana, Donar se aproximou do prisioneiro da árvore e puxou-lhe o capuz de carrasco.

– Nenhum demônio da noite, de fato. Apenas um homem assustado. Não grite mais. Não lhe fará bem nenhum. Mantenha o silêncio agora.

Algum tempo depois, Petrus levantou-se da pequena fogueira que fizera. Havia em sua mão envolvida por uma grossa luva de lã branca uma caneca de metal fumegante. A outra mão de Petrus cobria a boca e o nariz com um lenço.

– Está pronto. Afastem-se.

Remo começou a dedilhar a harpa baixinho, num ritmo constante, numa melodia repetitiva e monótona.

– O que é isto? O que você vai fazer com isto, seu… seu bruxo?!

– Não resista. Não dói. Beba.

– Eu nunca…

– Beba.

Apenas o vapor que exalava da caneca já o deixou grogue. Ela ainda borbulhava quando o metal quente lhe foi colocado junto aos lábios. Mas ele não sentia a dor. Tentou cuspir, mas apenas uma parte dele tentou. Em pouco tempo depois, embalado pela melodia da harpa, engoliu com indiferença quando Petrus prendeu a respiração e, com a outra mão, apertou-lhe o nariz.

– Agora, Donar, pode começar a perguntar. – disse uma voz que, em seu estado atual, o prisioneiro não distinguia, nem se importava em distinguir.

E ele contou o que sabia.

 

 

IV

 

 

– Pode-se dizer que tivemos sorte. – comentou Redulff – Pegamos esses três antes que alertassem todo o bando.

– Vamos ter que agir antes do que pensávamos. Não vai haver tempo pra planos demorados ou pegar bagagem extra. Vamos partir agora, antes que o próprio Lorde sinta nossa falta. – disse Donar.

– Muitas coisas que ele disse me preocupam… – comentou Remo, sério – A operação parece bem montada demais. Todos os homens que estão agindo aqui não sabem nada do que ocorre na Torre do Lago. Nem sequer entraram nela e a maioria nem sabe de sua existência. Por acaso este que bebeu a poção mágica sabia da sua existência porque era leva-e-traz entre o traidor e o comandante da operação aqui. Não sabemos quanta gente existe na Torre e nem o que nos espera por lá. Quem os comanda aqui não revela o nome ou a aparência do chefe, mas todos estão sendo bem pagos, então podemos pensar em alguém com recursos. Não me parece trabalho de mercenários ou bandidos comuns. Se pudéssemos agarrar o comandante daqui…

– E então todos eles saberiam que algo vai muito mal. O que este falou é pouco, mas é o que temos. Todos prontos? – disse Donar.

– Ele revelou a localização e o estado de coisas com precisão, que bate com o que o cavaleiro que o traidor envenenou no leito contou. E nos deu um bom mapa da torre. Nós podemos fazer do mesmo jeito que fizemos em Danarin, há dois anos.

– “Nós”? – gracejou Remo – Pelo que me lembro, você nem tocou na corda, Petrus.

– E nem pretendo tocar dessa vez. Como é que eu iria suturar aquele corte no ventre que por poucos centímetros não te deixou irremediavelmente casto esborrachado no chão?

Donar impôs-se:

– Não é hora pra isso, vocês dois. A idéia de Petrus é boa. Mas primeiro temos que avançar até lá e observar de perto. Não sabem da gente, mas cedo ou tarde notarão a falta desses aqui. Mas antes tarde. Cada um pegue um corpo e marche atrás de mim. Lana, venha atrás do grupo e disfarce como puder os nossos rastros. Quando eu achar um bom lugar, você vai roubar uma pá da cabana mais próxima e vamos esconder essa bagunça o melhor que pudermos.

O silêncio foi tudo o que deixaram para trás.

 

 

.      .     .

 

 

Três dias depois, na estrada. Todos dormiam, enrolados em seus mantos. Lana e Donar montavam guarda.

– Irmão, eu estive pensando…

Donar apurou os ouvidos. Lana não falava à toa.

– Qual o propósito disso?

– Como assim, Lana?

Por que a pessoa que sequestrou a filha de Lorde Gardalan está fazendo o que está fazendo? Uma princesinha bonita? Uma boa posse para os homens, eu entendo. Mas ele não a usou e a largou depois, como poderia ter feito se estivesse movido apenas por luxúria. E nem a levou consigo para longe, como faria se estivesse movido por uma paixão mais duradoura. Não pediu um resgate decente, que é o que faria se estivesse movido por cobiça. E o que aqueles homens estão fazendo aos camponeses não faz sentido. Eles mais destroem e matam do que roubam. Que ganho há nisso para a pessoa que os paga? E foram ordenados a agir assim pelo seu capitão na floresta, que é o único que poderia talvez nos dizer o que está na mente do planejador de tudo isso.

– Essas perguntas são inúteis agora. Não temos quem nos desvende o enigma. Não pense que eu não pensei nisso tudo, mas estou tentando manter o meu espírito no lugar. Há uma moça que precisa ser tirada daquela Torre. Estamos sendo pagos pra isso.

 

.     .     .

 

 

Quatro dias depois tomaram um desvio da estrada e viajaram com cautela redobrada. Um grande bosque se erguia a frente deles, na hora do crepúsculo. Inabitado e assombrado, pelo que se dizia na única estalagem que haviam pousado na estrada, dois dias antes.

– Agora todo o cuidado é pouco – Donar disse – Se a Torre do Lago fica neste bosque, haverá sentinelas nele. Vamos esperar escurecer para avançar mais, e Lana irá na frente, como batedora. Chegamos  aqui com Lua Nova e a escuridão vai nos ajudar a entrar na Torre. Mas temos que chegar ao lago antes. Hora da sua mágica novamente, Petrus.

Petrus abriu sua mochila e retirou de lá o velho mapa que adquirira na estalagem. Junto com aquilo pegou um copo de madeira, encheu com a água de seu cantil e colocou sobre ele um pedaço de cortiça encimado por uma agulha deitada. A agulha girou e girou. Redulff remexeu-se inquieto. Gostava do amigo, mas detestava bruxaria.

Depois disso, olhou novamente o mapa e rabiscou com o dedo na terra do chão. Apanhou a vara que trouxera consigo e a deitou sobre o solo.

– Temos que seguir nessa direção, o mais reto possível. Sei que isso é difícil numa floresta, mas acho que uma ligeira variação não vai nos impedir de encontrar um lago. Mesmo assim, quanto mais reto melhor.

– Muito bom. Vocês dois sigam atrás de nós. Redulff guardará as costas de Petrus na outra margem do lago quando estivermos lá em cima.

– O que? Eu vou ficar fora da ação e você me diz isso agora??

– Se fôssemos derrubar algum portão e enfrentar trinta homens cara a cara eu adoraria ter você na nossa frente, Redulff. Mas vamos subir por uma corda e roubar uma moça, matando o menor número de pessoas possível e você é grande. Seria terrível perder você e a missão ao mesmo tempo com uma queda súbita.

– Maldito bruxo que não sabe usar nem o próprio cajado direito… porque sempre tenho que ficar pra manter você vivo??

– Essa discussão acabou, Redulff. Silêncio para todos a partir daqui a menos que falar seja necessário no sentido de vida ou morte.

Lana posicionou-se ao lado da vara e a virou, novamente sobre o chão, no mesmo sentido em que ela apontava, e começou a avançar, virando-a sempre, sem pensar, dividindo a atenção entre ela e o ambiente ao redor. As árvores os cobriram em seguida.

– E as histórias sobre o local ser assombrado, Donar?

– Remo, eu falei…

É uma questão de vida ou morte!

– Menestréis adoram essas histórias, mas é só bobagem da mesma estalajadeira que nos vendeu esse mapa. Essas assombrações perturbaram os inimigos na Torre? Não. Porque nos perturbariam? Não existe nada disso aqui.

A sombra que os espreitava agora, ignorada por todos, até mesmo pelos penetrantes olhos e ouvidos da batedora, discordava.

 

 

V

 

 

                Se não fosse o brilho que seus olhos lançavam com luz própria, Lana teria sido pega de surpresa. Mas o fato é que, mesmo sem o menor som, a criatura ainda denunciou-se, um instante antes do ataque.

A luz alaranjada daqueles olhos foi pega de relance pela visão da batedora, e ela intuiu mais que percebeu racionalmente que a besta – se era de fato um animal – saltaria em sua direção.

E, assim sendo, saltou para trás, enquanto largava a vara e sacava que levava a tiracolo e puxava a flecha da aljava.

Mas, no instante em que deveria ter encaixado a flecha na corda, ao invés disso, ela gritou. Já ouvira boatos e lendas sobre tais coisas, mas era a primeira vez que encarava uma delas pessoalmente.

A besta era como um gato, embora, cem vezes ou mais, maior que um, e tinha patas dianteiras providas de garras afiadas como navalhas. Seus olhos brilhavam como se animados por uma chama interna. E nessa própria luz ela via o rosto do monstro. E seu rosto era o rosto de um homem. Havia as presas da besta, e um quê de animalidade nele. Mas era o rosto de um homem.

E, para conferir horror ao medo, no instante em que ela gritou, a criatura parou por um momento, tal qual deliciada.

E sorriu.

Este breve instante de deleite infernal serviu para que Lana recuasse sobre os próprios pés e aprumasse a flecha. Ao invés de saltar estupidamente e ser atingida, o animal saltou e correu pelo lado, e o projétil errou o alvo. Então, ato contínuo, contraiu-se sobre as patas traseiras e saltou novamente sobre a batedora. Novamente, num salto quase impossível, Lana evitou que as garras a rasgassem completamente. A coisa se virou novamente para ela e ela recuava, pálida e suando, sacando uma segunda flecha.

A coisa deu um risinho.

Larga o arco e corre, menina! E eu te deixo viver um bocadinho mais.

Lana hesitou. E foi essa hesitação que a besta viu como oportunidade. E preparou aquele que seria o terceiro e derradeiro salto sobre a presa.

Mas, nesse momento, correndo uma com uma velocidade que todo o corpanzil de músculos e brutalidade refinada não faria supor, vinha Redulff.

Machado erguido sobre a cabeça, fazendo um barulho como o de uma rocha rolando morro abaixo por entre arbustos, o guerreiro ao qual muitos se referiam como Gigante Vermelho, veio da escuridão e desceu sua lâmina sobre as costas do demônio.

A coisa emitiu um grito de dor, numa voz como a de um homem possuído, e virou-se para o atacante, erguendo-se nas duas patas traseiras e enfiando as dianteiras sobre o peito do adversário. Redulff desprezava armaduras pesadas, e usava somente um colete de couro rígido para não perder a velocidade na luta que sempre surpreendia os inimigos, e não recuou do golpe. Dirigiu o machado contra as patas da coisa. Uma delas foi decepada, e o sangue negro e fervente da besta jorrou sobre o seu peito, mas a outra fez seu caminho e fez em tiras o colete, deixando listras profundas na sua pele, pelas quais seu sangue começou a jorrar.

O guerreiro não fez caso disso naquele momento, e ergueu o machado novamente. A criatura, fosse o que fosse, retorcia-se no chão pela agonia do membro decepado, e mais um golpe abriu sua carne.

Mas a besta ergueu-se novamente a avançou, nas duas patas, para o guerreiro, caindo sobre ele como um peso. Enterrou as garras restantes sobre o braço e dirigiu a sua bocarra para a cabeça. Errou por pouco, enquanto Redulff tentava recuar, e os dentes, longos e afiados como facas, se enterraram em seu ombro. E ali ficaram.

O guerreiro libertou o braço de sobre as garras e ergueu também o outro. Levou as duas mãos ao rosto da criatura, lembrando-se de como matara seu primeiro homem, há poucos anos atrás, mas que na sua idade pareciam muitos, porque era naquele tempo menor e mais fraco.

Seus dedos acharam o caminho dos olhos da coisa. E enfiaram-se pelas órbitas.

A coisa urrou e afastou-se. A luz de seus olhos se apagara. Manca e cega, ela cambaleou. Redulff catou seu machado do chão e levou apenas um segundo para fazer pontaria precisa na escuridão.

A cabeça da coisa rolou pelo chão.

Redulff caiu.

Lana, que durante esse tempo estava paralisada de terror, despertou. Avançou para o companheiro caído e colocou sua cabeça no colo. Ele gemia, ainda semiconsciente. E então, aquilo que raramente acontecia aconteceu.

Lana chorou.

Os outros chegaram, meio segundo depois, e não viram a solitária lágrima que escorreu de seu rosto na escuridão.

Donar inquiria:

– O que houve? O que diabos houve aqui?

– Ele me salvou. Havia um inimigo aqui.

Petrus ajoelhou-se e ao lado dos dois.

– Deixe ele comigo.

– Que inimigo? Quantos eram? Onde estão?

– Redulff o derrubou. Ele está..

Não havia mais nada. O ar cheirava mal, como se algo se decompusesse ali, mas não havia cadáver da fera.

Remo foi o primeiro a notar.

– A relva e os arbustos estão secos e mortos, mas não há ninguém.

– Petrus, como e ele está? – perguntou Donar.

– Rasgado. Como se pelas garras de um urso, só que mais afiadas. Estou tratando de enfaixa-lo. Também tem queimaduras como se óleo fervente tivesse sido jogado nele. E a marca de uma mordida que…

Ele parou.

– É estranho…

– O que é estranho?

– Ele não estava mordido antes. Mas a ferida está como se estivesse inflamando há três dias. Ele tem febre.

Donar virou-se para menina:

– Lana… quem fez isso com ele? Quantos eram?

Lana olhou para os outros dois e cobriu seu rosto com a expressão de pedra de sempre. Aproximou sua boca do ouvido do irmão e cochichou por um longo tempo.

Donar sabia que sua irmã não mentia para ele. Sabia também, agora, que devia desculpas a Remo. Mas elas ficariam para depois.

– Consegue recuperar a trilha?

Ela sacudiu a cabeça afirmativamente.

– Remo, está tudo bem com você?

– Ele veio correndo de trás e nos ultrapassou, assim que ouviu você gritar. Se ele tivesse avançado junto com todos, como várias vezes foi dito para que ele fizesse, poderia estar melhor.

– E Lana estaria morta – disse Petrus – eu não sei o que fez isso… mas era algo mais forte que Redulff.

– Remo, eu lhe fiz uma pergunta – chamou Donar – Você está bem?

– Bem? Eu estou trêmulo como a corda de uma harpa no vento forte. E estou me controlando para não gemer como uma. Esse lugar é mil vezes maldito!

– Então fique bem. Temos que prosseguir e você não tem mais que um instante.

Remo foi para um canto, amuado, e fingiu dedilhar a harpa, fazendo com a mente os sonos que não ousava fazer com os dedos.

– Donar – chamou Petrus – Venha aqui, por favor. Só você.

Em voz baixa, olhando por cima do ombro do líder:

– A não ser por um milagre, e eu não creio em milagres, Redulff não viverá. Eu lhe dei um pouco de remédio, mas é principalmente para aliviar a dor. Ele sangrou muito. E tem febre como se tivesse veneno nas veias. A cada instante que olho as feridas, elas parecem piores.

– Fique cuidando dele mesmo assim. Salve-o, se puder, e lhe dê todo o conforto que for possível. Nós avançaremos. Se ele morrer e você quiser retornar, tudo bem. Nos encontramos em Gardalan. Mas cuide dele até o fim.

Petrus fitou a floresta escura e ela lhe pareceu cheia de horrores. Depois fitou o companheiro caído.

– Eu não saio daqui até vocês voltarem. E não quero deixar o corpo de Redulff pra ser banhado pelos próximos raios de Lua Cheia num lugar assim.

– Nunca te vi falar desse jeito…

– Nunca vi coisas assim. Ele chamava o que eu faço de bruxaria, porque era uma alma simples. Mas a minha bruxaria não produz venenos assim e nem faz uma fera, porque essas são as feridas de uma fera, se esfumaçar no ar depois de morta. E esse cheiro me lembra de histórias de que não gosto. Os monges tinham livros sobre isto.

Donar ficou um segundo em silêncio:

Chamava. Era.

Para Petrus ele já estava morto. E Petrus não se enganava nesses assuntos.

– Está certo. Que todos os deuses te protejam.

Remo chamou:

– Estou pronto, Donar.

Ninguém disse mais nada.

E a missão prosseguiu.

 

 

VI

 

 

Na hora mais escura da noite escura, Lana, Donar e Remo chegaram ao lago e, invisíveis aos argutos olhos que vigiavam lá de cima, começaram a contorna-lo pelas ramagens e arbustos que havia em sua margem.

Não fosse a espessa cobertura vegetal que se criara ao redor daquela torre que era, de fato, desabitada há muito, teria sido impossível não terem sido vistos por algum olhar mais penetrante. Mesmo na noite escura, há olhos que conseguem atravessar a escuridão. E havia olhos assim naquela Torre.

A Torre era uma massa escura contra as estrelas, na outra margem, e quando finalmente o lago todo foi contornado, sem que maior contratempo fosse encontrado, os três deram de cara com o precipício, visto do lado de baixo, acima do qual ela estava. Ninguém esperava que qualquer ataque viesse por ali.

A mente que planejara a Torre, havia muitas eras, pensara em exércitos e não em assassinos e ladrões furtivos.

Esgueirando-se por uma estreita faixa de terra entre as águas serenas e o paredão de pedra, os três se posicionaram logo abaixo da estrutura. E começaram a conferenciar.

– Preciso dizer uma coisa, camaradas – disse Remo baixinho – Notaram que não havia nenhum vigia nem guarda na floresta? Isso é uma bênção dúbia. Pode significar que o pessoal da Torre, sejam quem forem…

Engoliu em seco antes de continuar

…contava com aquela besta na floresta para lidar com estranhos. Podia ser o cão de guarda deles. Com que tipo de poder estamos lidando aqui? O que vai haver lá dentro?

Lana olhou para cima e cochichou no ouvido do irmão novamente.

– O que ela disse?

– Há luz na Torre. Apenas está muito bem oculta. Eles colocam tapeçarias ou madeira sobre as janelas, para que ela não seja vista de fora. Querem se manter ocultos. Se querem se manter ocultos é porque tem medo de um ataque. O que significa que são vulneráveis a um. Quer desistir?

– Não me passou pela cabeça isso… apenas acho que, da próxima vez, devemos prestar mais atenção às conversas sobre assombrações.

– Vou me lembrar disso. Algo mais que queira acrescentar?

– Não, Donar. Façamos do seu jeito. Como sempre.

– Muito bem. Há saliências aqui por onde Lana pode subir e fixar a corda para nós. Não temos corda o suficiente para o precipício todo e muito menos para o precipício mais a torre. Então parte da corda terá que ser recolhida por ela e usada de novo a cada ponto que chegarmos juntos. Não caia.

Munida de três rolos e três ganchos, Lana começou a escalada. Os outros dois, mais pesados, a seguiram. A cada parada, com a habilidade de uma aranha, Lana subia novamente, procurava os melhores lugares para fixar as cordas por onde subiam os Donar e Remo e assim eram três sombras se esgueirando pela rocha.

A rocha bruta deu lugar à parede da Torre. E a escalada continuou.

Pela fresta de uma das janelas, a jovem fez um suave rasgo com seu punhal numa das tapeçarias do lado de dentro, e espiou. Depois continuou e foi somente quando estavam equilibrados os três numa parte cega da parede, ela cochichou ao irmão:

– Eu vi um alojamento. Exército. Muitos soldados dormiam. Outros montavam guarda. Havia armas a mão. Se nos notam, morremos.

Ao topo da Torre então, finalmente chegaram.

Por sobre o muro, equilibrada na ponta dos pés, ela observou. Voltou-se para os outros dois e fez um gesto com sua mão magra e morena.

Quatro.

Os quatro vigias sobre a Torre, cuja principal preocupação no momento era conversar baixinho para espantar o sono, e olhar as estrelas pensando naquilo que todos pensam quando as contemplam, não perceberam o ataque até ser tarde demais.

Como se fossem um só, os três saltaram sobre a rocha. Um dos quatro levou uma corneta que tinha na cintura aos lábios. Antes que soprasse, o punhal arremessado por Remo lhe atravessou a garganta de um lado a outro. Os outros dois sacaram as espadas um instante depois enquanto a flecha de Lana ia para a corda do arco e um terceiro, o que mais demorou a reagir, tentou tocar sua própria corneta e a flechada no rosto calou-o.

Donar, espada desembainhada, avançou para os dois sobreviventes. Aparou o golpe de um deles e saltou evitando o de outro. Respondeu no mesmo instante, abrindo a goela do inimigo com um corte. O que restava deu um passo para trás, vendo-se sozinho contra os três.

– Renda-se – murmurou Donar.

– Para enfrentar a morte certa e sem defesa?

– Não temos nada contra você. Queremos a donzela. Onde ela está?

– Eles me executarão por traição!

– Se falar mais alto do que eu, executaremos você por ser barulhento. Além disso, você não tem escolha. Tiraremos o que você sabe de qualquer maneira. Mas diga-nos agora e voltará como nosso prisioneiro. Largamos você na estrada. Assim, os outros da Torre não lhe farão mal.

– A… a donzela está no último andar… logo abaixo de nós… há dois vigias ante uma porta de madeira reforçada… ela está atrás…

– Bom. Remo, amarre e amordace. Viremos busca-lo depois.

Acharam o alçapão que conduzia ao último andar da Torre.

Desceram escadas de pedra silenciosamente. Remo e Donar na frente. Lana atrás.

Logo na curva da escada, uma luz de tocha iluminava dois guardas ante uma porta de rija madeira, reforçada com traves de ferro. Mantinham o silêncio e atenção.

Mas, ao vislumbrarem formas no escuro descendo pela escada, imaginaram ser um dos quatro companheiros de cima.

– O que há?

A resposta foi uma flecha e o sibilar da espada de lâmina larga de Donar e da lâmina leve e longa de Remo. Os dois guardas, metidos em camisas de cotas de malha e portanto lanças pesadas, caíram quase sem emitir som.

Nenhum deles tinha chave.

Sem que nada mais fosse dito, Remo ajoelhou-se e examinou a fechadura da porta. Se fosse uma simples trava do lado de dentro, seria muito mais difícil abrir. Mas era uma fechadura engenhosa e intrincada que segurava aquela porta. Sacando das dobras de sua roupa dois instrumentos semelhantes a um punhal fino como uma pena e outro idêntico, terminando numa ponta com um gancho, ele trabalhou silenciosa e rapidamente.

A porta abriu-se com um clique quase inaudível.

Empurrando lentamente, os três viram-se diante de uma sala aconchegante. Com um felpudo tapete no chão, uma mesinha pequena e cadeiras largas e acolchoadas. Um pequeno fogo crepitava num canto, expulsando o frio que havia, mesmo numa noite de verão, naquela construção.

Numa das paredes, havia uma passagem em arco sobre a qual uma cortina delicada estava suspensa.

Lana na frente, Remo atrás e Donar ao fim.

Atrás da cortina, havia um leito de madeira com um confortável colchão que parecia ser de penas. Um lampião iluminava o quarto. A um canto havia uma espada longa, um escudo com um nobre brasão e, sobre um suporte, um traje completo de cota de malha com um elmo.

Um guerreiro nu, jovem, forte e de rosto altivo, cabelos longos e cavanhaque, repousava sobre a cama, adormecido.

Havia roupas pelo chão, masculinas e femininas.

Junto ao guerreiro, aconchegada como pássaro em seu ninho, estava uma jovem. Sua pele rosada e delicada também não estava coberta por roupa alguma. Suas formas femininas eram belas e exalavam um suave perfume. Seus cabelos dourados espalhavam-se pelo peito do guerreiro em que ela se abraçava em seu sono. Sua única joia era um anel na mão direita.

Neste momento, antes que o espaço entre a passagem do arco e a cama fosse transposto, foi como se alguém suspirasse alto no quarto, numa mistura de gemido e respiração. Mas não se viu boca que produzisse aquele som.

Jovem ergueu-se, ficando sentada e gritando.

Os três correram a agarrá-la, e o seu amante ficou em pé, com medo no olhar, mas apanhando a espada ao seu lado.

Ela ergueu a mão direita e gritou uma palavra desconhecida. E o quarto se encheu de um fedor nauseabundo enquanto uma névoa vinda do nada começava a condensar-se a frente dela.

– Salve-me, meu amor! – gritou depois.

Donar afrontou o guerreiro, que não disse palavra. Mesmo sem armadura e escudo, ele era um oponente formidável, e suas lâminas se chocaram num combate de vida ou morte.

Remo e Lana, confiando no líder apesar disso, correram para a jovem nobre. Ela simplesmente correu ao longo das paredes, tentando alcançar a saída.

Remo conseguiu agarra-la por um triz, e a jogou no chão. Cobriu sua boca quando ela tentou gritar. Olhou ao redor e viu que Lana preparava uma flecha na direção de Gyanda.

Mas havia algo mais ali.

– Lana! Atrás de você!

A garota virou-se.

Ali estava a mesma besta hedionda que a atacara na floresta, emergindo do vapor sulfuroso que se formara no quarto, e sabe-se lá de que inferno. Sorria de vívida satisfação. E preparava o salto.

Mas o espaço era pequeno para que aquele demônio pudesse correr e desviar adequadamente. E Lana aprendia com o que observava e com a experiência. A flecha que estava destinada antes à Gyanda foi atingir um dos olhos chamejantes daquele rosto semi-humano que havia no corpo de tigre. A criatura urrou de dor, atingida novamente em um de seus pontos mais vulneráveis.

A garota sacou a faca que levava na cintura e, agora com a fúria aplacando o medo, avançou para a coisa, que tentava desajeitadamente tirar a flecha do olho com as patas. Enfiando a faca no outro olho, Lana rosnou:

– Isso é por Redulff! Lembre-se desse nome ao voltar para o abismo de onde veio! Redulff! Você morreu duas vezes por causa dele!

As últimas palavras deste discurso foram ditas quando a besta já se desintegrava, numa massa putrefata e repugnante. Depois havia vapor. E depois apenas uma mancha negra no chão de pedra.

Donar e o guerreiro se confrontavam ainda. Donar fora cortado, mas apenas superficialmente, pois a camisa de cota de malha que ele usava o protegia. Então, arriscando a sorte, Donar se expos completamente num golpe arriscado, encurtando a distância entre os dois. A lâmina do adversário o mordeu mais uma vez, mas este teve o braço desprotegido decepado. Começou um grito longo de agonia, que foi silenciado um instante depois pela lâmina de Donar.

Cambaleando diante do cadáver, ele resmungou.

– Esse era difícil… eu tive muita sorte de pega-lo nu…

– Seu amorzinho morreu, doçura. Os dois. A brincadeira acabou. – disse Remo, aferrando os pulsos de Gyanda com uma das mãos e cobrindo sua boca com outra – Agora pare de se debater e venha conosco como a boa menina que você não é. Ah… Donar.. a Lana vai fazer besteira… e eu não posso segurar as duas.

A garota voltava-se para Gyanda, enfurecida, com a faca em riste. Donar saltou atrás dela e a envolveu com os braços

– Calma, irmãzinha, calma! Você não está pensando direito!

– Você que não está pensando! – ela não gritava, mas era como se gritasse – Todas as pessoas que morreram por causa dela! Ela e ele estavam juntos nisso! Redulff está morrendo por causa dela!

– E mata-la vai fazer algum bem? Nós fomos pagos pra leva-la e vamos leva-la até o pai dela. Ele é que decida o que fazer.

Não é justo! Ela merece morrer também!

– Não, não é justo. E sabe que escolha nós temos? Nenhuma. Precisamos do dinheiro. E é nossa última chance de ter alguma reputação boa depois de Landerin. Além disso, se falharmos agora não só continuamos pobres como somos caçados até o fim do mundo pelo Lorde de Gardalan. Eu não precisava explicar isso para você. Você sabe como é a vida que a gente leva.

Lana silenciou e relaxou. Donar largou-a. Ela limpou as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto.

– Donar, pega isso. – disse Remo jogando um pequeno objeto para ele, enquanto largava Gyanda, agora também calma – Dá uma olhada na figura atrás da joia. E você está sangrando bastante.

Donar apanhou no ar o anel que ele lançara. A translúcida joia vermelha que estava engastada nele tinha, ao fundo, uma mancha que era como uma sombra. Um grande gato de perfil. Cuja cabeça era uma careta semi-humana com um sorriso medonho.

– Vou precisar da ajuda de Petrus – disse ele enquanto se livrava da armadura e fazia tiras com os lençóis para atar as feridas – Mas por ora isso vai ter que servir.

Se Gyanda tinha algum sentimento pelo seu amante morto, não demonstrou. Sentou-se na cama fria e calma diante de Donar que se enfaixava. Fitou os pés como que encabulada.

– Você não precisa me levar para o meu pai, se não quiser. Eu fugi para não me casar com o noivo que ele escolheu. Conheci este cavaleiro que você derrotou este ano, num torneio ao qual meu pai me levou. E tramamos nosso plano nessa época. Ele marcharia sobre os homens que atormentam nosso povo, que ele mesmo contratou. E, como salvador de minha pessoa e das terras de meu pai, se tornaria o novo Lorde… com a benção de meu pai, de preferência. Mas não necessariamente. O povo o aclamaria. E ele tem soldados. Muitos soldados aqui. Era pérfido. E agora vejo isso. Estou liberta de seu encanto. Eu jamais teria feito isso sozinha… Acredite.

Ergueu os olhos para Donar e seus gestos se encheram de calor.

– Mas não precisamos todos sofrer por causa dele. Algo de bom pode vir daí. Você é forte. Mais do que ele era. E é belo. Tudo o que ele tinha pode ser seu. Os soldados também, são mercenários pagos e não se importavam muito com ele. Mas não apenas os soldados. Fique comigo e complete o trabalho dele. Você seria um bom Lorde de Gardalan. Eu posso fazer isso valer muito a pena, meu bravo…

Tocou-lhe a barriga com um sorriso malicioso que derreteria o gelo das montanhas.

Donar contemplou a fascinante e desinibida nudez dela e depois o cadáver no chão.

Se houvesse alguma dúvida, esta visão me convenceria. É assim que terminam seus amantes.

– Vista-se.

 

.      .      .

 

 

Algumas poucas pessoas que estavam acordadas na Torre viram passar um guerreiro envergando a armadura completa, o elmo fechado, a espada e o escudo com o brasão que conheciam bem,. Junto dele ia sua amante, com a dignidade de uma lady. Ninguém notou que ela não usava mais a joia que tinha outrora na mão. Dois companheiros usando trajes de guardas e mantos com capuzes iam com ele, além de um dos vigias da Torre. Apenas um os interpelou.

– Sir? Está tudo bem?

Gyanda respondera, com um olhar altivo:

– Estamos em missão secreta. Apenas o Senhor da Torre e estes que nos acompanham devem saber do que se trata. Não fale disto a ninguém.

E o guarda, temeroso da reputação de feiticeira que aquela jovem tinha, nada disse naquela noite.

 

.      .      .

 

Lá fora, na floresta, Petrus viu chegarem os três companheiros e a cativa resgatada. Seus olhos estavam vermelhos.

– Redulff morreu há duas horas. Eu providenciei para que fosse indolor. Fiz uma padiola para levarmos seu corpo.

Todos se olharam em silêncio. Gyanda compreendeu que dai não viria auxilio algum para o plano que ela concebera. O calor sumiu de seu rosto. E talvez tenha se considerado com sorte por voltar viva.

 

 

VII

 

 

Na noite em que o verão virava outono, os companheiros estavam reunidos numa estalagem a beira da estrada, bebendo e comendo e abrigados contra o frio.

– Gyanda casa-se hoje, lembram-se? – lembrou Remo

– Como é possível esquecer? Este jantar se deve a isto. – respondeu Donar.

E era verdade. A qualidade da comida e de suas acomodações melhorara bastante desde que haviam sido pagos pelo resgate dela.

– Como será a vida dela com o noivo? – imaginou Remo, incapaz de deixar o assunto em paz – Será que ela o odiava ou algo assim para ter feito o que fez?

– Sequer o conhecia. O que ela fez não teve nada a ver com isso. Ela e o seu cavaleiro andante poderiam simplesmente ter fugido para longe, se fosse o caso, ao invés de começar aquele plano absurdo para tomar as terras do pai. Estava na natureza dos dois, eu imagino.

– Ainda acho difícil acreditar que você não disse uma palavra ao pai dela, Donar. Ela deve ter contado o mais incrível conto de fadas para ele e ele acreditou. Tudo bem, nós a entregamos, mas ele devia saber das coisas.

– E o que acha que ela faria se eu contasse? Seríamos os papões nesse conto de fadas. E então nossas cabeças, a esta altura, estariam a prêmio. Se tivéssemos saído vivos de lá. Tirem isso da cabeça e aproveitem o jantar.

– Você está certo, como sempre. Ela devia ludibriar o pai há anos. Era boa nisso, com certeza. De mil maneiras. Aliás, se ela tivesse feito para mim a proposta que fez para você eu teria no mínimo vacilado. Você é feito de ferro. Ou de gelo. Me pergunto onde ela teria conseguido aquele anel. Uma joia mágica verdadeira! Essa história dava uma canção. Talvez vá compor uma eu mesmo um dia desses, com nomes e locais trocados.

– Sem dúvida no convento onde foi educada. – disse Petrus – Esses lugares têm muitas relíquias do mundo antigo guardadas. E segredos. Que sabemos sobre os deuses para quem essas irmãs religiosas se curvam na escuridão e no secreto de seus muros e portas fechadas? Sabemos quem elas realmente veneram?

– Petrus, você não passou sua primeira infância num lugar assim, só que com homens? – Remo perguntou, provocando o amigo com um sorriso. – Nunca falou muitas coisas de lá.

Petrus manteve-se sério e calmo.

– Como eu disse: segredos horríveis.

Levantou-se cadeira e completou:

– Eu vou ao campo agora.

– Agora à noite? Sozinho?

– Deixe-o, Remo. É melhor que ele vá sozinho.

– O que ele vai fazer?

Donar sorriu. Lana, silenciosa como de praxe, esvaziou seu copo de lata e ergueu a mão pedindo mais, sem emoção no rosto que fosse possível discernir. A criada se aproximou com a jarra.

Remo contemplou a porta da estalagem se fechando atrás do amigo engolido pela noite do lado de fora.

 

 

.     .     .

 

 

Lá fora, do outro lado da estrada, Petrus abriu a mão e contemplou o anel que Donar lhe dera.

Na escuridão e no frio.

Ele brilhava. Brilharia mesmo ou seria para seus olhos apenas?

Ele lera muito. Sabia muito. Sabia palavras e versos que outros não sabiam.

Mas nunca tivera uma relíquia daquela nas mãos.

Funcionaria?

Valia a pena arriscar?

 

Como você se sentiria, Redulff, ao contemplar a verdadeira bruxaria?

                Onde quer que esteja, espero que dê boas risadas disto.

 

Valia.

Ergueu a mão com a joia no dedo indicador da mão direita e fez a evocação com voz firme, mas baixa, falou lentamente, cada palavra em seu lugar. Na língua nativa de um povo que há muito desaparecera da Terra.

E então a noite fez-se mais fria. E insuportavelmente fétida. O jovem cruzou os braços sobre o peito, para se aquecer.

Veio a névoa. As chamas gêmeas surgiram em meio dela. E de dentro dela saíram. Não havia confusão no rosto da criatura. Nem sequer ressentimento. Apenas o louco sorriso antevendo a satisfação do que faria.

Qual mestre servia era algo que lhe era completamente indiferente.

 

Venho por quem, menino? Quem provará a carícia de minhas presas e garras?

 

E Petrus entoou:

               

A mestra que tiveste antes de mim,

Sem mal fazer a mais ninguém,

Abate Gyanda de Gardalan,

Traz para ela o fim,

Mas antes do golpe final,

Repete-lhe ‘Redulff’ no ouvido,

E antes de fazer outro mal,

Volta ao abismo para onde foste banido.

 

O demônio fez uma careta ao ouvir o quão curto seria seu tempo na Terra desta vez. Mas nada disse. O mestre não podia ser contrariado diretamente ou ferido. Além disso, aquele era um mestre mais esperto. Sabia usar melhor as palavras.

Pois, desta vez, o corpo da fera tinha asas.

Ela ergueu-se, na escuridão e no frio, e projetou-se para longe.

Petrus olhou para o anel. Ainda brilhava.

Deixará de brilhar quando a vingança for executada. E então o destruirei.

E começou a andar de volta para a estalagem, pensando no sabor e fartura do jantar que interrompera.