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CAPITULO FINAL

Na noite em que o verão virava outono, os companheiros estavam reunidos numa estalagem a beira da estrada, bebendo e comendo e abrigados contra o frio.

– Gyanda casa-se hoje, lembram-se? – lembrou Remo

– Como é possível esquecer? Este jantar se deve a isto. – respondeu Donar.

E era verdade. A qualidade da comida e de suas acomodações melhorara bastante desde que haviam sido pagos pelo resgate dela.

– Como será a vida dela com o noivo? – imaginou Remo, incapaz de deixar o assunto em paz – Será que ela o odiava ou algo assim para ter feito o que fez?

– Sequer o conhecia. O que ela fez não teve nada a ver com isso. Ela e o seu cavaleiro andante poderiam simplesmente ter fugido para longe, se fosse o caso, ao invés de começar aquele plano absurdo para tomar as terras do pai. Estava na natureza dos dois, eu imagino.

– Ainda acho difícil acreditar que você não disse uma palavra ao pai dela, Donar. Ela deve ter contado o mais incrível conto de fadas para ele e ele acreditou. Tudo bem, nós a entregamos, mas ele devia saber das coisas.

– E o que acha que ela faria se eu contasse? Seríamos os papões nesse conto de fadas. E então nossas cabeças, a esta altura, estariam a prêmio. Se tivéssemos saído vivos de lá. Tirem isso da cabeça e aproveitem o jantar.

– Você está certo, como sempre. Ela devia ludibriar o pai há anos. Era boa nisso, com certeza. De mil maneiras. Aliás, se ela tivesse feito para mim a proposta que fez para você eu teria no mínimo vacilado. Você é feito de ferro. Ou de gelo. Me pergunto onde ela teria conseguido aquele anel. Uma joia mágica verdadeira! Essa história dava uma canção. Talvez vá compor uma eu mesmo um dia desses, com nomes e locais trocados.

– Sem dúvida no convento onde foi educada. – disse Petrus – Esses lugares têm muitas relíquias do mundo antigo guardadas. E segredos. Que sabemos sobre os deuses para quem essas irmãs religiosas se curvam na escuridão e no secreto de seus muros e portas fechadas? Sabemos quem elas realmente veneram?

– Petrus, você não passou sua primeira infância num lugar assim, só que com homens? – Remo perguntou, provocando o amigo com um sorriso. – Nunca falou muitas coisas de lá.

Petrus manteve-se sério e calmo.

– Como eu disse: segredos horríveis.

Levantou-se cadeira e completou:

– Eu vou ao campo agora.

– Agora à noite? Sozinho?

– Deixe-o, Remo. É melhor que ele vá sozinho.

– O que ele vai fazer?

Donar sorriu. Lana, silenciosa como de praxe, esvaziou seu copo de lata e ergueu a mão pedindo mais, sem emoção no rosto que fosse possível discernir. A criada se aproximou com a jarra.

Remo contemplou a porta da estalagem se fechando atrás do amigo engolido pela noite do lado de fora.

 

 

.     .     .

 

 

Lá fora, do outro lado da estrada, Petrus abriu a mão e contemplou o anel que Donar lhe dera.

Na escuridão e no frio.

Ele brilhava. Brilharia mesmo ou seria para seus olhos apenas?

Ele lera muito. Sabia muito. Sabia palavras e versos que outros não sabiam.

Mas nunca tivera uma relíquia daquela nas mãos.

Funcionaria?

Valia a pena arriscar?

 

Como você se sentiria, Redulff, ao contemplar a verdadeira bruxaria?

                Onde quer que esteja, espero que dê boas risadas disto.

 

Valia.

Ergueu a mão com a joia no dedo indicador da mão direita e fez a evocação com voz firme, mas baixa, falou lentamente, cada palavra em seu lugar. Na língua nativa de um povo que há muito desaparecera da Terra.

E então a noite fez-se mais fria. E insuportavelmente fétida. O jovem cruzou os braços sobre o peito, para se aquecer.

Veio a névoa. As chamas gêmeas surgiram em meio dela. E de dentro dela saíram. Não havia confusão no rosto da criatura. Nem sequer ressentimento. Apenas o louco sorriso antevendo a satisfação do que faria.

Qual mestre servia era algo que lhe era completamente indiferente.

 

Venho por quem, menino? Quem provará a carícia de minhas presas e garras?

 

E Petrus entoou:

               

A mestra que tiveste antes de mim,

Sem mal fazer a mais ninguém,

Abate Gyanda de Gardalan,

Traz para ela o fim,

Mas antes do golpe final,

Repete-lhe ‘Redulff’ no ouvido,

E antes de fazer outro mal,

Volta ao abismo para onde foste banido.

 

O demônio fez uma careta ao ouvir o quão curto seria seu tempo na Terra desta vez. Mas nada disse. O mestre não podia ser contrariado diretamente ou ferido. Além disso, aquele era um mestre mais esperto. Sabia usar melhor as palavras.

Pois, desta vez, o corpo da fera tinha asas.

Ela ergueu-se, na escuridão e no frio, e projetou-se para longe.

Petrus olhou para o anel. Ainda brilhava.

Deixará de brilhar quando a vingança for executada. E então o destruirei.

E começou a andar de volta para a estalagem, pensando no sabor e fartura do jantar que interrompera.