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CAPITULO SEIS

Na hora mais escura da noite escura, Lana, Donar e Remo chegaram ao lago e, invisíveis aos argutos olhos que vigiavam lá de cima, começaram a contorna-lo pelas ramagens e arbustos que havia em sua margem.

Não fosse a espessa cobertura vegetal que se criara ao redor daquela torre que era, de fato, desabitada há muito, teria sido impossível não terem sido vistos por algum olhar mais penetrante. Mesmo na noite escura, há olhos que conseguem atravessar a escuridão. E havia olhos assim naquela Torre.

A Torre era uma massa escura contra as estrelas, na outra margem, e quando finalmente o lago todo foi contornado, sem que maior contratempo fosse encontrado, os três deram de cara com o precipício, visto do lado de baixo, acima do qual ela estava. Ninguém esperava que qualquer ataque viesse por ali.

A mente que planejara a Torre, havia muitas eras, pensara em exércitos e não em assassinos e ladrões furtivos.

Esgueirando-se por uma estreita faixa de terra entre as águas serenas e o paredão de pedra, os três se posicionaram logo abaixo da estrutura. E começaram a conferenciar.

– Preciso dizer uma coisa, camaradas – disse Remo baixinho – Notaram que não havia nenhum vigia nem guarda na floresta? Isso é uma bênção dúbia. Pode significar que o pessoal da Torre, sejam quem forem…

Engoliu em seco antes de continuar

…contava com aquela besta na floresta para lidar com estranhos. Podia ser o cão de guarda deles. Com que tipo de poder estamos lidando aqui? O que vai haver lá dentro?

Lana olhou para cima e cochichou no ouvido do irmão novamente.

– O que ela disse?

– Há luz na Torre. Apenas está muito bem oculta. Eles colocam tapeçarias ou madeira sobre as janelas, para que ela não seja vista de fora. Querem se manter ocultos. Se querem se manter ocultos é porque tem medo de um ataque. O que significa que são vulneráveis a um. Quer desistir?

– Não me passou pela cabeça isso… apenas acho que, da próxima vez, devemos prestar mais atenção às conversas sobre assombrações.

– Vou me lembrar disso. Algo mais que queira acrescentar?

– Não, Donar. Façamos do seu jeito. Como sempre.

– Muito bem. Há saliências aqui por onde Lana pode subir e fixar a corda para nós. Não temos corda o suficiente para o precipício todo e muito menos para o precipício mais a torre. Então parte da corda terá que ser recolhida por ela e usada de novo a cada ponto que chegarmos juntos. Não caia.

Munida de três rolos e três ganchos, Lana começou a escalada. Os outros dois, mais pesados, a seguiram. A cada parada, com a habilidade de uma aranha, Lana subia novamente, procurava os melhores lugares para fixar as cordas por onde subiam os Donar e Remo e assim eram três sombras se esgueirando pela rocha.

A rocha bruta deu lugar à parede da Torre. E a escalada continuou.

Pela fresta de uma das janelas, a jovem fez um suave rasgo com seu punhal numa das tapeçarias do lado de dentro, e espiou. Depois continuou e foi somente quando estavam equilibrados os três numa parte cega da parede, ela cochichou ao irmão:

– Eu vi um alojamento. Exército. Muitos soldados dormiam. Outros montavam guarda. Havia armas a mão. Se nos notam, morremos.

Ao topo da Torre então, finalmente chegaram.

Por sobre o muro, equilibrada na ponta dos pés, ela observou. Voltou-se para os outros dois e fez um gesto com sua mão magra e morena.

Quatro.

Os quatro vigias sobre a Torre, cuja principal preocupação no momento era conversar baixinho para espantar o sono, e olhar as estrelas pensando naquilo que todos pensam quando as contemplam, não perceberam o ataque até ser tarde demais.

Como se fossem um só, os três saltaram sobre a rocha. Um dos quatro levou uma corneta que tinha na cintura aos lábios. Antes que soprasse, o punhal arremessado por Remo lhe atravessou a garganta de um lado a outro. Os outros dois sacaram as espadas um instante depois enquanto a flecha de Lana ia para a corda do arco e um terceiro, o que mais demorou a reagir, tentou tocar sua própria corneta e a flechada no rosto calou-o.

Donar, espada desembainhada, avançou para os dois sobreviventes. Aparou o golpe de um deles e saltou evitando o de outro. Respondeu no mesmo instante, abrindo a goela do inimigo com um corte. O que restava deu um passo para trás, vendo-se sozinho contra os três.

– Renda-se – murmurou Donar.

– Para enfrentar a morte certa e sem defesa?

– Não temos nada contra você. Queremos a donzela. Onde ela está?

– Eles me executarão por traição!

– Se falar mais alto do que eu, executaremos você por ser barulhento. Além disso, você não tem escolha. Tiraremos o que você sabe de qualquer maneira. Mas diga-nos agora e voltará como nosso prisioneiro. Largamos você na estrada. Assim, os outros da Torre não lhe farão mal.

– A… a donzela está no último andar… logo abaixo de nós… há dois vigias ante uma porta de madeira reforçada… ela está atrás…

– Bom. Remo, amarre e amordace. Viremos busca-lo depois.

Acharam o alçapão que conduzia ao último andar da Torre.

Desceram escadas de pedra silenciosamente. Remo e Donar na frente. Lana atrás.

Logo na curva da escada, uma luz de tocha iluminava dois guardas ante uma porta de rija madeira, reforçada com traves de ferro. Mantinham o silêncio e atenção.

Mas, ao vislumbrarem formas no escuro descendo pela escada, imaginaram ser um dos quatro companheiros de cima.

– O que há?

A resposta foi uma flecha e o sibilar da espada de lâmina larga de Donar e da lâmina leve e longa de Remo. Os dois guardas, metidos em camisas de cotas de malha e portanto lanças pesadas, caíram quase sem emitir som.

Nenhum deles tinha chave.

Sem que nada mais fosse dito, Remo ajoelhou-se e examinou a fechadura da porta. Se fosse uma simples trava do lado de dentro, seria muito mais difícil abrir. Mas era uma fechadura engenhosa e intrincada que segurava aquela porta. Sacando das dobras de sua roupa dois instrumentos semelhantes a um punhal fino como uma pena e outro idêntico, terminando numa ponta com um gancho, ele trabalhou silenciosa e rapidamente.

A porta abriu-se com um clique quase inaudível.

Empurrando lentamente, os três viram-se diante de uma sala aconchegante. Com um felpudo tapete no chão, uma mesinha pequena e cadeiras largas e acolchoadas. Um pequeno fogo crepitava num canto, expulsando o frio que havia, mesmo numa noite de verão, naquela construção.

Numa das paredes, havia uma passagem em arco sobre a qual uma cortina delicada estava suspensa.

Lana na frente, Remo atrás e Donar ao fim.

Atrás da cortina, havia um leito de madeira com um confortável colchão que parecia ser de penas. Um lampião iluminava o quarto. A um canto havia uma espada longa, um escudo com um nobre brasão e, sobre um suporte, um traje completo de cota de malha com um elmo.

Um guerreiro nu, jovem, forte e de rosto altivo, cabelos longos e cavanhaque, repousava sobre a cama, adormecido.

Havia roupas pelo chão, masculinas e femininas.

Junto ao guerreiro, aconchegada como pássaro em seu ninho, estava uma jovem. Sua pele rosada e delicada também não estava coberta por roupa alguma. Suas formas femininas eram belas e exalavam um suave perfume. Seus cabelos dourados espalhavam-se pelo peito do guerreiro em que ela se abraçava em seu sono. Sua única joia era um anel na mão direita.

Neste momento, antes que o espaço entre a passagem do arco e a cama fosse transposto, foi como se alguém suspirasse alto no quarto, numa mistura de gemido e respiração. Mas não se viu boca que produzisse aquele som.

Jovem ergueu-se, ficando sentada e gritando.

Os três correram a agarrá-la, e o seu amante ficou em pé, com medo no olhar, mas apanhando a espada ao seu lado.

Ela ergueu a mão direita e gritou uma palavra desconhecida. E o quarto se encheu de um fedor nauseabundo enquanto uma névoa vinda do nada começava a condensar-se a frente dela.

– Salve-me, meu amor! – gritou depois.

Donar afrontou o guerreiro, que não disse palavra. Mesmo sem armadura e escudo, ele era um oponente formidável, e suas lâminas se chocaram num combate de vida ou morte.

Remo e Lana, confiando no líder apesar disso, correram para a jovem nobre. Ela simplesmente correu ao longo das paredes, tentando alcançar a saída.

Remo conseguiu agarra-la por um triz, e a jogou no chão. Cobriu sua boca quando ela tentou gritar. Olhou ao redor e viu que Lana preparava uma flecha na direção de Gyanda.

Mas havia algo mais ali.

– Lana! Atrás de você!

A garota virou-se.

Ali estava a mesma besta hedionda que a atacara na floresta, emergindo do vapor sulfuroso que se formara no quarto, e sabe-se lá de que inferno. Sorria de vívida satisfação. E preparava o salto.

Mas o espaço era pequeno para que aquele demônio pudesse correr e desviar adequadamente. E Lana aprendia com o que observava e com a experiência. A flecha que estava destinada antes à Gyanda foi atingir um dos olhos chamejantes daquele rosto semi-humano que havia no corpo de tigre. A criatura urrou de dor, atingida novamente em um de seus pontos mais vulneráveis.

A garota sacou a faca que levava na cintura e, agora com a fúria aplacando o medo, avançou para a coisa, que tentava desajeitadamente tirar a flecha do olho com as patas. Enfiando a faca no outro olho, Lana rosnou:

– Isso é por Redulff! Lembre-se desse nome ao voltar para o abismo de onde veio! Redulff! Você morreu duas vezes por causa dele!

As últimas palavras deste discurso foram ditas quando a besta já se desintegrava, numa massa putrefata e repugnante. Depois havia vapor. E depois apenas uma mancha negra no chão de pedra.

Donar e o guerreiro se confrontavam ainda. Donar fora cortado, mas apenas superficialmente, pois a camisa de cota de malha que ele usava o protegia. Então, arriscando a sorte, Donar se expos completamente num golpe arriscado, encurtando a distância entre os dois. A lâmina do adversário o mordeu mais uma vez, mas este teve o braço desprotegido decepado. Começou um grito longo de agonia, que foi silenciado um instante depois pela lâmina de Donar.

Cambaleando diante do cadáver, ele resmungou.

– Esse era difícil… eu tive muita sorte de pega-lo nu…

– Seu amorzinho morreu, doçura. Os dois. A brincadeira acabou. – disse Remo, aferrando os pulsos de Gyanda com uma das mãos e cobrindo sua boca com outra – Agora pare de se debater e venha conosco como a boa menina que você não é. Ah… Donar.. a Lana vai fazer besteira… e eu não posso segurar as duas.

A garota voltava-se para Gyanda, enfurecida, com a faca em riste. Donar saltou atrás dela e a envolveu com os braços

– Calma, irmãzinha, calma! Você não está pensando direito!

– Você que não está pensando! – ela não gritava, mas era como se gritasse – Todas as pessoas que morreram por causa dela! Ela e ele estavam juntos nisso! Redulff está morrendo por causa dela!

– E mata-la vai fazer algum bem? Nós fomos pagos pra leva-la e vamos leva-la até o pai dela. Ele é que decida o que fazer.

Não é justo! Ela merece morrer também!

– Não, não é justo. E sabe que escolha nós temos? Nenhuma. Precisamos do dinheiro. E é nossa última chance de ter alguma reputação boa depois de Landerin. Além disso, se falharmos agora não só continuamos pobres como somos caçados até o fim do mundo pelo Lorde de Gardalan. Eu não precisava explicar isso para você. Você sabe como é a vida que a gente leva.

Lana silenciou e relaxou. Donar largou-a. Ela limpou as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto.

– Donar, pega isso. – disse Remo jogando um pequeno objeto para ele, enquanto largava Gyanda, agora também calma – Dá uma olhada na figura atrás da joia. E você está sangrando bastante.

Donar apanhou no ar o anel que ele lançara. A translúcida joia vermelha que estava engastada nele tinha, ao fundo, uma mancha que era como uma sombra. Um grande gato de perfil. Cuja cabeça era uma careta semi-humana com um sorriso medonho.

– Vou precisar da ajuda de Petrus – disse ele enquanto se livrava da armadura e fazia tiras com os lençóis para atar as feridas – Mas por ora isso vai ter que servir.

Se Gyanda tinha algum sentimento pelo seu amante morto, não demonstrou. Sentou-se na cama fria e calma diante de Donar que se enfaixava. Fitou os pés como que encabulada.

– Você não precisa me levar para o meu pai, se não quiser. Eu fugi para não me casar com o noivo que ele escolheu. Conheci este cavaleiro que você derrotou este ano, num torneio ao qual meu pai me levou. E tramamos nosso plano nessa época. Ele marcharia sobre os homens que atormentam nosso povo, que ele mesmo contratou. E, como salvador de minha pessoa e das terras de meu pai, se tornaria o novo Lorde… com a benção de meu pai, de preferência. Mas não necessariamente. O povo o aclamaria. E ele tem soldados. Muitos soldados aqui. Era pérfido. E agora vejo isso. Estou liberta de seu encanto. Eu jamais teria feito isso sozinha… Acredite.

Ergueu os olhos para Donar e seus gestos se encheram de calor.

– Mas não precisamos todos sofrer por causa dele. Algo de bom pode vir daí. Você é forte. Mais do que ele era. E é belo. Tudo o que ele tinha pode ser seu. Os soldados também, são mercenários pagos e não se importavam muito com ele. Mas não apenas os soldados. Fique comigo e complete o trabalho dele. Você seria um bom Lorde de Gardalan. Eu posso fazer isso valer muito a pena, meu bravo…

Tocou-lhe a barriga com um sorriso malicioso que derreteria o gelo das montanhas.

Donar contemplou a fascinante e desinibida nudez dela e depois o cadáver no chão.

Se houvesse alguma dúvida, esta visão me convenceria. É assim que terminam seus amantes.

– Vista-se.

 

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Algumas poucas pessoas que estavam acordadas na Torre viram passar um guerreiro envergando a armadura completa, o elmo fechado, a espada e o escudo com o brasão que conheciam bem,. Junto dele ia sua amante, com a dignidade de uma lady. Ninguém notou que ela não usava mais a joia que tinha outrora na mão. Dois companheiros usando trajes de guardas e mantos com capuzes iam com ele, além de um dos vigias da Torre. Apenas um os interpelou.

– Sir? Está tudo bem?

Gyanda respondera, com um olhar altivo:

– Estamos em missão secreta. Apenas o Senhor da Torre e estes que nos acompanham devem saber do que se trata. Não fale disto a ninguém.

E o guarda, temeroso da reputação de feiticeira que aquela jovem tinha, nada disse naquela noite.

 

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Lá fora, na floresta, Petrus viu chegarem os três companheiros e a cativa resgatada. Seus olhos estavam vermelhos.

– Redulff morreu há duas horas. Eu providenciei para que fosse indolor. Fiz uma padiola para levarmos seu corpo.

Todos se olharam em silêncio. Gyanda compreendeu que dai não viria auxilio algum para o plano que ela concebera. O calor sumiu de seu rosto. E talvez tenha se considerado com sorte por voltar viva.

 

Escrito por: Luiz Hasse