Link do capítulo anterior – http://pulpstories.com.br/luiz-hasse/a-princesa-cativa-4/

CAPITULO CINCO

Se não fosse o brilho que seus olhos lançavam com luz própria, Lana teria sido pega de surpresa. Mas o fato é que, mesmo sem o menor som, a criatura ainda denunciou-se, um instante antes do ataque.

A luz alaranjada daqueles olhos foi pega de relance pela visão da batedora, e ela intuiu mais que percebeu racionalmente que a besta – se era de fato um animal – saltaria em sua direção.

E, assim sendo, saltou para trás, enquanto largava a vara e sacava que levava a tiracolo e puxava a flecha da aljava.

Mas, no instante em que deveria ter encaixado a flecha na corda, ao invés disso, ela gritou. Já ouvira boatos e lendas sobre tais coisas, mas era a primeira vez que encarava uma delas pessoalmente.

A besta era como um gato, embora, cem vezes ou mais, maior que um, e tinha patas dianteiras providas de garras afiadas como navalhas. Seus olhos brilhavam como se animados por uma chama interna. E nessa própria luz ela via o rosto do monstro. E seu rosto era o rosto de um homem. Havia as presas da besta, e um quê de animalidade nele. Mas era o rosto de um homem.

E, para conferir horror ao medo, no instante em que ela gritou, a criatura parou por um momento, tal qual deliciada.

E sorriu.

Este breve instante de deleite infernal serviu para que Lana recuasse sobre os próprios pés e aprumasse a flecha. Ao invés de saltar estupidamente e ser atingida, o animal saltou e correu pelo lado, e o projétil errou o alvo. Então, ato contínuo, contraiu-se sobre as patas traseiras e saltou novamente sobre a batedora. Novamente, num salto quase impossível, Lana evitou que as garras a rasgassem completamente. A coisa se virou novamente para ela e ela recuava, pálida e suando, sacando uma segunda flecha.

A coisa deu um risinho.

– Larga o arco e corre, menina! E eu te deixo viver um bocadinho mais.

Lana hesitou. E foi essa hesitação que a besta viu como oportunidade. E preparou aquele que seria o terceiro e derradeiro salto sobre a presa.

Mas, nesse momento, correndo uma com uma velocidade que todo o corpanzil de músculos e brutalidade refinada não faria supor, vinha Redulff.

Machado erguido sobre a cabeça, fazendo um barulho como o de uma rocha rolando morro abaixo por entre arbustos, o guerreiro ao qual muitos se referiam como Gigante Vermelho, veio da escuridão e desceu sua lâmina sobre as costas do demônio.

A coisa emitiu um grito de dor, numa voz como a de um homem possuído, e virou-se para o atacante, erguendo-se nas duas patas traseiras e enfiando as dianteiras sobre o peito do adversário. Redulff desprezava armaduras pesadas, e usava somente um colete de couro rígido para não perder a velocidade na luta que sempre surpreendia os inimigos, e não recuou do golpe. Dirigiu o machado contra as patas da coisa. Uma delas foi decepada, e o sangue negro e fervente da besta jorrou sobre o seu peito, mas a outra fez seu caminho e fez em tiras o colete, deixando listras profundas na sua pele, pelas quais seu sangue começou a jorrar.

O guerreiro não fez caso disso naquele momento, e ergueu o machado novamente. A criatura, fosse o que fosse, retorcia-se no chão pela agonia do membro decepado, e mais um golpe abriu sua carne.

Mas a besta ergueu-se novamente a avançou, nas duas patas, para o guerreiro, caindo sobre ele como um peso. Enterrou as garras restantes sobre o braço e dirigiu a sua bocarra para a cabeça. Errou por pouco, enquanto Redulff tentava recuar, e os dentes, longos e afiados como facas, se enterraram em seu ombro. E ali ficaram.

O guerreiro libertou o braço de sobre as garras e ergueu também o outro. Levou as duas mãos ao rosto da criatura, lembrando-se de como matara seu primeiro homem, há poucos anos atrás, mas que na sua idade pareciam muitos, porque era naquele tempo menor e mais fraco.

Seus dedos acharam o caminho dos olhos da coisa. E enfiaram-se pelas órbitas.

A coisa urrou e afastou-se. A luz de seus olhos se apagara. Manca e cega, ela cambaleou. Redulff catou seu machado do chão e levou apenas um segundo para fazer pontaria precisa na escuridão.

A cabeça da coisa rolou pelo chão.

Redulff caiu.

Lana, que durante esse tempo estava paralisada de terror, despertou. Avançou para o companheiro caído e colocou sua cabeça no colo. Ele gemia, ainda semiconsciente. E então, aquilo que raramente acontecia aconteceu.

Lana chorou.

Os outros chegaram, meio segundo depois, e não viram a solitária lágrima que escorreu de seu rosto na escuridão.

Donar inquiria:

– O que houve? O que diabos houve aqui?

– Ele me salvou. Havia um inimigo aqui.

Petrus ajoelhou-se e ao lado dos dois.

– Deixe ele comigo.

– Que inimigo? Quantos eram? Onde estão?

– Redulff o derrubou. Ele está..

Não havia mais nada. O ar cheirava mal, como se algo se decompusesse ali, mas não havia cadáver da fera.

Remo foi o primeiro a notar.

– A relva e os arbustos estão secos e mortos, mas não há ninguém.

– Petrus, como e ele está? – perguntou Donar.

– Rasgado. Como se pelas garras de um urso, só que mais afiadas. Estou tratando de enfaixa-lo. Também tem queimaduras como se óleo fervente tivesse sido jogado nele. E a marca de uma mordida que…

Ele parou.

– É estranho…

– O que é estranho?

– Ele não estava mordido antes. Mas a ferida está como se estivesse inflamando há três dias. Ele tem febre.

Donar virou-se para menina:

– Lana… quem fez isso com ele? Quantos eram?

Lana olhou para os outros dois e cobriu seu rosto com a expressão de pedra de sempre. Aproximou sua boca do ouvido do irmão e cochichou por um longo tempo.

Donar sabia que sua irmã não mentia para ele. Sabia também, agora, que devia desculpas a Remo. Mas elas ficariam para depois.

– Consegue recuperar a trilha?

Ela sacudiu a cabeça afirmativamente.

– Remo, está tudo bem com você?

– Ele veio correndo de trás e nos ultrapassou, assim que ouviu você gritar. Se ele tivesse avançado junto com todos, como várias vezes foi dito para que ele fizesse, poderia estar melhor.

– E Lana estaria morta – disse Petrus – eu não sei o que fez isso… mas era algo mais forte que Redulff.

– Remo, eu lhe fiz uma pergunta – chamou Donar – Você está bem?

– Bem? Eu estou trêmulo como a corda de uma harpa no vento forte. E estou me controlando para não gemer como uma. Esse lugar é mil vezes maldito!

– Então fique bem. Temos que prosseguir e você não tem mais que um instante.

Remo foi para um canto, amuado, e fingiu dedilhar a harpa, fazendo com a mente os sonos que não ousava fazer com os dedos.

– Donar – chamou Petrus – Venha aqui, por favor. Só você.

Em voz baixa, olhando por cima do ombro do líder:

– A não ser por um milagre, e eu não creio em milagres, Redulff não viverá. Eu lhe dei um pouco de remédio, mas é principalmente para aliviar a dor. Ele sangrou muito. E tem febre como se tivesse veneno nas veias. A cada instante que olho as feridas, elas parecem piores.

– Fique cuidando dele mesmo assim. Salve-o, se puder, e lhe dê todo o conforto que for possível. Nós avançaremos. Se ele morrer e você quiser retornar, tudo bem. Nos encontramos em Gardalan. Mas cuide dele até o fim.

Petrus fitou a floresta escura e ela lhe pareceu cheia de horrores. Depois fitou o companheiro caído.

– Eu não saio daqui até vocês voltarem. E não quero deixar o corpo de Redulff pra ser banhado pelos próximos raios de Lua Cheia num lugar assim.

– Nunca te vi falar desse jeito…

– Nunca vi coisas assim. Ele chamava o que eu faço de bruxaria, porque era uma alma simples. Mas a minha bruxaria não produz venenos assim e nem faz uma fera, porque essas são as feridas de uma fera, se esfumaçar no ar depois de morta. E esse cheiro me lembra de histórias de que não gosto. Os monges tinham livros sobre isto.

Donar ficou um segundo em silêncio:

Chamava. Era.

Para Petrus ele já estava morto. E Petrus não se enganava nesses assuntos.

– Está certo. Que todos os deuses te protejam.

Remo chamou:

– Estou pronto, Donar.

Ninguém disse mais nada.

E a missão prosseguiu.