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CAPITULO QUATRO

– Pode-se dizer que tivemos sorte. – comentou Redulff – Pegamos esses três antes que alertassem todo o bando.

– Vamos ter que agir antes do que pensávamos. Não vai haver tempo pra planos demorados ou pegar bagagem extra. Vamos partir agora, antes que o próprio Lorde sinta nossa falta. – disse Donar.

– Muitas coisas que ele disse me preocupam… – comentou Remo, sério – A operação parece bem montada demais. Todos os homens que estão agindo aqui não sabem nada do que ocorre na Torre do Lago. Nem sequer entraram nela e a maioria nem sabe de sua existência. Por acaso este que bebeu a poção mágica sabia da sua existência porque era leva-e-traz entre o traidor e o comandante da operação aqui. Não sabemos quanta gente existe na Torre e nem o que nos espera por lá. Quem os comanda aqui não revela o nome ou a aparência do chefe, mas todos estão sendo bem pagos, então podemos pensar em alguém com recursos. Não me parece trabalho de mercenários ou bandidos comuns. Se pudéssemos agarrar o comandante daqui…

– E então todos eles saberiam que algo vai muito mal. O que este falou é pouco, mas é o que temos. Todos prontos? – disse Donar.

– Ele revelou a localização e o estado de coisas com precisão, que bate com o que o cavaleiro que o traidor envenenou no leito contou. E nos deu um bom mapa da torre. Nós podemos fazer do mesmo jeito que fizemos em Danarin, há dois anos.

– “Nós”? – gracejou Remo – Pelo que me lembro, você nem tocou na corda, Petrus.

– E nem pretendo tocar dessa vez. Como é que eu iria suturar aquele corte no ventre que por poucos centímetros não te deixou irremediavelmente casto esborrachado no chão?

Donar impôs-se:

– Não é hora pra isso, vocês dois. A idéia de Petrus é boa. Mas primeiro temos que avançar até lá e observar de perto. Não sabem da gente, mas cedo ou tarde notarão a falta desses aqui. Mas antes tarde. Cada um pegue um corpo e marche atrás de mim. Lana, venha atrás do grupo e disfarce como puder os nossos rastros. Quando eu achar um bom lugar, você vai roubar uma pá da cabana mais próxima e vamos esconder essa bagunça o melhor que pudermos.

O silêncio foi tudo o que deixaram para trás.

 

 

.      .     .

 

 

Três dias depois, na estrada. Todos dormiam, enrolados em seus mantos. Lana e Donar montavam guarda.

– Irmão, eu estive pensando…

Donar apurou os ouvidos. Lana não falava à toa.

– Qual o propósito disso?

– Como assim, Lana?

Por que a pessoa que sequestrou a filha de Lorde Gardalan está fazendo o que está fazendo? Uma princesinha bonita? Uma boa posse para os homens, eu entendo. Mas ele não a usou e a largou depois, como poderia ter feito se estivesse movido apenas por luxúria. E nem a levou consigo para longe, como faria se estivesse movido por uma paixão mais duradoura. Não pediu um resgate decente, que é o que faria se estivesse movido por cobiça. E o que aqueles homens estão fazendo aos camponeses não faz sentido. Eles mais destroem e matam do que roubam. Que ganho há nisso para a pessoa que os paga? E foram ordenados a agir assim pelo seu capitão na floresta, que é o único que poderia talvez nos dizer o que está na mente do planejador de tudo isso.

– Essas perguntas são inúteis agora. Não temos quem nos desvende o enigma. Não pense que eu não pensei nisso tudo, mas estou tentando manter o meu espírito no lugar. Há uma moça que precisa ser tirada daquela Torre. Estamos sendo pagos pra isso.

 

.     .     .

 

 

Quatro dias depois tomaram um desvio da estrada e viajaram com cautela redobrada. Um grande bosque se erguia a frente deles, na hora do crepúsculo. Inabitado e assombrado, pelo que se dizia na única estalagem que haviam pousado na estrada, dois dias antes.

– Agora todo o cuidado é pouco – Donar disse – Se a Torre do Lago fica neste bosque, haverá sentinelas nele. Vamos esperar escurecer para avançar mais, e Lana irá na frente, como batedora. Chegamos  aqui com Lua Nova e a escuridão vai nos ajudar a entrar na Torre. Mas temos que chegar ao lago antes. Hora da sua mágica novamente, Petrus.

Petrus abriu sua mochila e retirou de lá o velho mapa que adquirira na estalagem. Junto com aquilo pegou um copo de madeira, encheu com a água de seu cantil e colocou sobre ele um pedaço de cortiça encimado por uma agulha deitada. A agulha girou e girou. Redulff remexeu-se inquieto. Gostava do amigo, mas detestava bruxaria.

Depois disso, olhou novamente o mapa e rabiscou com o dedo na terra do chão. Apanhou a vara que trouxera consigo e a deitou sobre o solo.

– Temos que seguir nessa direção, o mais reto possível. Sei que isso é difícil numa floresta, mas acho que uma ligeira variação não vai nos impedir de encontrar um lago. Mesmo assim, quanto mais reto melhor.

– Muito bom. Vocês dois sigam atrás de nós. Redulff guardará as costas de Petrus na outra margem do lago quando estivermos lá em cima.

– O que? Eu vou ficar fora da ação e você me diz isso agora??

– Se fôssemos derrubar algum portão e enfrentar trinta homens cara a cara eu adoraria ter você na nossa frente, Redulff. Mas vamos subir por uma corda e roubar uma moça, matando o menor número de pessoas possível e você é grande. Seria terrível perder você e a missão ao mesmo tempo com uma queda súbita.

– Maldito bruxo que não sabe usar nem o próprio cajado direito… porque sempre tenho que ficar pra manter você vivo??

– Essa discussão acabou, Redulff. Silêncio para todos a partir daqui a menos que falar seja necessário no sentido de vida ou morte.

Lana posicionou-se ao lado da vara e a virou, novamente sobre o chão, no mesmo sentido em que ela apontava, e começou a avançar, virando-a sempre, sem pensar, dividindo a atenção entre ela e o ambiente ao redor. As árvores os cobriram em seguida.

– E as histórias sobre o local ser assombrado, Donar?

– Remo, eu falei…

É uma questão de vida ou morte!

– Menestréis adoram essas histórias, mas é só bobagem da mesma estalajadeira que nos vendeu esse mapa. Essas assombrações perturbaram os inimigos na Torre? Não. Porque nos perturbariam? Não existe nada disso aqui.

A sombra que os espreitava agora, ignorada por todos, até mesmo pelos penetrantes olhos e ouvidos da batedora, discordava.