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CAPITULO TRÊS

Temeroso, como é próprio dos homens de seu tipo, Suda esgueirou-se por entre as árvores, na calada da madrugada, e depois de parar e escutar várias vezes ao longo da jornada para assegurar-se de que não havia ninguém por perto, chegou ao local combinado.

O terreno descia ligeiramente. Alguém que estivesse as suas costas não veria imediatamente a pequena fogueira que ele fez na inclinação, próxima da rocha que era o local combinado.

Fez o fogo, acocorou-se ao lado dele, cansado, e esperou.

Em pouco tempo, eles vieram. Daquela vez eram três. Altos e escuros.

– Fale, amigo – disse o do meio, com a voz abafada pelo capuz – Por que nos chamou?

– Tenho ótimas para contar. Valem muito.

O da esquerda remexeu no manto e jogou para Suda um saco que tilintou. Ele catou-o do chão e contou as moedas, ansiosamente.

– Estamos esperando – disse novamente o do meio.

Durtan despertou de sua fascinação e ergueu os olhos.

– O Lorde chamou cinco garotos. Pretende envia-los até a Torre do Lago para pegar a filhinha de volta. Apenas os cinco e ninguém mais.

– Fale-me mais sobre esses cinco garotos.

– Conhece a historia de Donar e os Quatro Desertores?

– Sim. Conheço. Não diga mais nada.

– Devo… ãhn… usar a mesma coisa que usei em… no… no pobre Sir Galenus? Isso custaria um pouco mais, é claro, mas as chances de funcionar são boas enquanto  eles ainda estão lá… eles partem amanhã.

– Não faça nada ainda. Volte para o castelo e reassuma seu posto antes que deem pela sua falta. Seus serviços serão lembrados com gratidão no futuro. Volte amanhã se souber mais. Especialmente se souber por que caminho eles vão.

Suda se virou para partir e, então, voltou-se para os três vultos de negro novamente:

– Este lugar… esta terra… está indo para o Inferno, não está?

– O que você acha? – respondeu aquele que falava pelos três.

– Bem… quando a coisa toda acabar… posso… posso ir com vocês?

Silêncio. Ninguém disse nada.

– Pensem no assunto – acrescentou Suda algo desconfortável – Eu sou bom no que faço, vocês viram. Adeus.

Suda apressou-se acima da inclinação. Ao estar sobre terreno plano novamente, um dos três chutou a fogueira lá embaixo. A escuridão se fez mais forte, mas ainda havia Lua. Os três não forma mais ouvidos depois disso.

Enquanto o traidor voltava para a casa, dava graças pelo céu estar claro. Ali, entre as árvores, enxergar era difícil a poucos palmos de distância, mas com o céu acima de sua cabeça, sabia muito bem que direção seguir. Além do mais, como habitante nativo do lugar e guarda desde que se tornara homem, nada daquilo lhe era estranho. Exceto, é claro, o papel que estava desempenhando.

“O grande golpe de minha vida”, pensou ele, “A virada que sempre esperei, afinal, de que outra forma um homem como eu poderia fazer fortuna um dia? Eles tem castelos, nomes de família, brasões. Eu sei manejar uma lança e um gládio, sou silencioso, escuto, falo e calo nas horas certas… essas são as coisas que eu tenho…”

E então veio a flecha.

Cravou-se em sua garganta e, apesar da dor, o fluxo de sangue o sufocou e impediu o grito. Em pânico, ainda sem compreender o que estava acontecendo, ele tentou sacar a curta espada que trazia na cintura. Seus olhos reviraram a escuridão e não encontraram nada. Exceto o brilho da ponta da segunda flecha, que lhe varou a coxa direita. Enquanto ser retorcia no chão, veio a terceira, e lhe varou o abdômen.

Então ele compreendeu. Um instante antes de tudo acabar.

Sempre há alguém mais silencioso.

Aquele que vigia, também pode ser vigiado.

Lana emergiu da sombra sob a qual se abrigara algum tempo depois. Chutou o corpo em três pontos sensíveis, e comprovou que estava realmente morto.

Apoderou-se da bolsa. Moedas de prata. Ela gostava de moedas de prata. Brilhavam satisfatoriamente. Como a trilha que ela deixara para os companheiros.

Dali a pouco eles chegavam, recolhendo a última de suas pedrinhas brancas.

Ela fez um gesto floresta adentro, mostrou as moedas fez um sinal com os dedos.

Três.

– Remo, passo acelerado comigo. Redulff, em linha reta por onde Lana indicou. Você nos escutará. Lana, escolte Petrus atrás de todos nós. Temos que ser rápidos.

 

.            .          .

 

– Com licença, senhores… – disse a voz, hesitante e bela – Eu acho que estou irremediavelmente perdido…

Os três pararam, atônitos, e se voltaram para a escuridão de onde ela viera.

Um jovem emergia de entre as folhas, com os olhos marejados de lágrimas, trazia nas mãos uma harpa.

– O Castelo de Liriandus é longe? O baile já começou? Vocês vêm de lá? A festa é com o uso de máscaras? Se me atraso, estou perdido! Me desgarrei dos outros e nem um lume tenho para me acompanhar…

Por um tempo, piscaram atônitos.

– Silenciem o infeliz. E o tragam conosco.

Os dois avançaram.

– Não reaja, é nosso prisioneiro mas se for… Arrrgh!!!

 

Carneirinho que vem buscar lã,

                Mesmo com cor de lobo,

                Sai tosquiado no fim das contas,

                Como prêmio por ser tão bobo!

 

                Remo recuava, lâmina gotejante em riste, enquanto um deles caia, apertando a ferida através da qual seu sangue fluía aos borbotões. O outro sacava a espada e avançava.

– É uma cilada! Toca a corneta! Toca!

Em puro desespero, desferia golpes furiosos, detidos pela espada de Remo, que apenas passava para trás e sorria.

O que ficara para trás, puxou o manto pesado e levou a mão a cintura. A meio caminho,  ouviu as passadas de Redulff e o viu emergindo da escuridão, o machado girando sobre a cabeça, brandido com uma mão só. A mão sacou a espada no lugar da corneta e aprumou-se para a luta.

De um só golpe, espada saltou da mão e abriu-se uma brecha do ombro à metade do peito. Aquela corneta nunca seria tocada.

Donar surgiu ao lado de Remo e golpeou a lâmina do adversário. Remou parou de recuar por um instante feriu-lhe a mão.

– Bastardos! Malditos! Eu vou…

Redulff agarrou-o por trás e jogou-o contra  uma árvore. Ele poderia ter sacado a faca ao virar-se, mas o tempo que demorou para procura-la na cintura foi o suficiente para Redullff soca-lo no estômago com tanta força que suas costas bateram no tronco atrás. Caindo de joelhos na terra, foi erguido novamente por duas mãos que eram como tenazes de ferro pelos pulsos, e empurrado novamente contra a árvore. Quando gigante soltou-o, seus braços estavam presos por cordas.

De trás da árvores vieram Lana e Petrus.

O jovem encapuzado acocorou-se juntando gravetos.

– Um instante para esquentar. Funciona melhor quente. Ahn… Remo fez um trabalho muito cruel com este que ele picou. Ele só vai sangrar e sofrer, pelo que estou vendo, numa agonia que terminará em morte de qualquer maneira, a não ser por um milagre. Não gosto dessas coisas. Lana, pode fazer algo a respeito, por favor?

Enquanto o caído recebia a misericórdia da faca de Lana, Donar se aproximou do prisioneiro da árvore e puxou-lhe o capuz de carrasco.

– Nenhum demônio da noite, de fato. Apenas um homem assustado. Não grite mais. Não lhe fará bem nenhum. Mantenha o silêncio agora.

Algum tempo depois, Petrus levantou-se da pequena fogueira que fizera. Havia em sua mão envolvida por uma grossa luva de lã branca uma caneca de metal fumegante. A outra mão de Petrus cobria a boca e o nariz com um lenço.

– Está pronto. Afastem-se.

Remo começou a dedilhar a harpa baixinho, num ritmo constante, numa melodia repetitiva e monótona.

– O que é isto? O que você vai fazer com isto, seu… seu bruxo?!

– Não resista. Não dói. Beba.

– Eu nunca…

– Beba.

Apenas o vapor que exalava da caneca já o deixou grogue. Ela ainda borbulhava quando o metal quente lhe foi colocado junto aos lábios. Mas ele não sentia a dor. Tentou cuspir, mas apenas uma parte dele tentou. Em pouco tempo depois, embalado pela melodia da harpa, engoliu com indiferença quando Petrus prendeu a respiração e, com a outra mão, apertou-lhe o nariz.

– Agora, Donar, pode começar a perguntar. – disse uma voz que, em seu estado atual, o prisioneiro não distinguia, nem se importava em distinguir.

E ele contou o que sabia.