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CAPITULO DOIS

Na pequena câmara de reuniões, no silêncio e escuridão da madrugada, o Lorde de Gardalan conferenciava com quatro homens e uma mulher.

Eram Donar, o Jovem, e seus Quatro Desertores, e nenhum deles gozava de boa reputação naquelas paragens ou em qualquer lugar onde seus nomes fossem conhecidos. No entanto, era deles que o Lorde necessitava.

O líder, após a troca de cortesias necessária, principiou:

– Agradecemos a sua acolhida e a generosa hospitalidade de seu castelo, milorde. Mas agora creio que possa nos dizer por que estamos aqui, já que chegamos a convite seu, e nas condições que o senhor estipulou.

– Isto será dito no devido tempo, meu rapaz – Donar era homem feito, mas era homem a pouco tempo, e o grisalho Lorde era vinte ou trinta anos mais velho que ele, sem dúvida – Antes quero ter certeza de que vocês são as pessoas que paguei para serem encontradas. Vocês são os cinco que, sozinhos, desertaram do cerco de Landerin, deixando seus companheiros, o restante da tropa, serem vencidos e massacrados pelos defensores da cidade e os sobreviventes enforcados até o último antes os portões da cidade, entre eles o próprio Lorde que os contratou e acompanhava a batalha?

– Sim, nós somos.

– Me conte a história de sua deserção. Faça de conta que nada sei sobre ela.

Donar suspirou disfarçadamente, e repetiu o que já dissera até cansar no último ano:

– Eu sou o filho de Lonar, antigo capitão e comandante da companhia mercenária que lutava a serviço do Lorde de Rastagar naquele dia. Meu pai foi ferido numa tentativa de assalto ao portão, um dos poucos erros que ele cometeu na vida, e veio a morrer em sua tenda. Antes de morrer meu pai expressou sua vontade de que eu o sucedesse na liderança da companhia. No entanto, Rastagar alegou que meu pai lhe devia dinheiro, com o testemunho comprado de nosso tesoureiro, que nos traiu então e que, portanto, a companhia lhe pertencia e ele indicaria um comandante de sua confiança. E o fez. A dívida era mentira, ou eu saberia dela. Julguei-me traído primeiro e me retirei, junto com os meus amigos mais próximos.

O relato fora feito com em tom  impessoal. Embora as palavras demonstrassem ressentimento, o tom de voz não o traia. Aquele garoto de cabelos escuros cortados rente, pele queimada de sol e frios olhos azuis, falava como um homem muito mais velho, pensou o Lorde. E perguntou:

– E seus homens? Não intercederam por você? Não se sentiu traído por eles? Não tentou conquistar a confiança deles? Afinal, vocês tinham as espadas, Rastagar tinha um testemunho, apenas.

– Não. Não funcionaria. Em primeiro lugar, a maioria deles concordava que eu era jovem demais para liderar. Além disso, Rastagar tinha o dinheiro com que eles seriam pagos em seu castelo. E eles esperavam ser pagos. Você pode até dizer que uma companhia de mercenários é sua família. Eu cresci em uma, como filho de meu pai. Mas trata-se de um negócio não muito diferente do ofício de um mercador. Eles vendem coisas, nós, o serviço de nossas espadas. Não somos cavaleiros dispostos a morrer por pura honra, embora a morte seja um risco de nosso trabalho. Somos profissionais fazendo um trabalho que nos sustenta. Nossa honra é nosso contrato e eu teria sido leal a ela se Rastagar não tivesse conspirado contra mim. Não culpo os homens por não terem me apoiado.

– E nem lamenta a sua sorte?

– Como acha que teriam sido tratados os derrotados se o exército invasor tivesse atravessado as muralhas? Não dá pra condenar os defensores da cidade por terem enforcado eles. Quem faz nosso trabalho sabe o risco que corre.

Era de fato um homem frio, pensou o Lorde. E achou aquilo bom.

No entanto, havia um último detalhe a ser averiguado:

– Compreendo. Agora, rapaz, diga-me uma coisa, foi você que ajudou um homem ferido, um viajante esfarrapado há três semanas, tratando de seus ferimentos e dividindo sua água e comida com ele até que pudesse prosseguir?

– Como sabe disso, milorde?

– Este homem não disse na época, mas é um cavaleiro juramentado a meu serviço e, portanto, já lhe devo algo. Por que o ajudou?

Donar olhou para um de seus companheiros. Um rapazola magro e inexpressivo, vestido como um monge, que estava atrás dele.

– Quem tratou das feridas de seu cavaleiro foi Petrus. O recebemos em nosso acampamento e cuidamos dele até nossos caminhos se separarem sem saber que era um cavaleiro.

– Por que?

– Por que não? Era um homem ferido e sozinho. Não representava ameaça. Nada tínhamos contra ele e nem ele contra nós. Não pesaria em nossas provisões. Se estivéssemos na penúria, ou durante uma campanha, as coisas poderiam ser diferentes… mas éramos apenas nós cinco acampando na floresta durante uma viagem.

– Este homem era Sir Galenus e ele chegou à minha casa vivo por conta desta ajuda. Ele os descreveu acuradamente. Um rapaz de porte mediano e poucos sorrisos, que falava por todos, um moço franzino vestindo um hábito com capuz, um gigante vermelho inseparável de seu machado, um rapaz imberbe de cabelos loiros, com a voz de um anjo, que cantava e tocava harpa e uma menina, uma jovenzinha silenciosa cuja voz ele nunca ouviu.

Donar pensou que dificilmente alguém os descreveria melhor. Petrus era tomado por monge frequentemente. Lia e escrevia em mais de uma língua e tratava ferimentos e doenças como ninguém. Donar conhecia sua habilidade com venenos e poções, também.

Redulff superava em altura e força quase todos os homens que ele conhecera na vida. Seu machado de lâmina dupla abria caminho entre armaduras pesadas de metal, lançando cavaleiros para fora da sela quando Redulff estava em pé, desde suas primeiras batalhas. Ninguém diria, olhando para ele, que era pouco mais de um garoto. Mais jovem ainda que o próprio Donar.

Remo tinha a aparência de um anjo, e cantava e tocava qualquer instrumento de corda como um. E, como os anjos, com frequência ele trazia a morte. Com lâminas compridas e leves ou num golpe surpresa com uma faca. Pegá-los desprevenidos, com sua aparência doce e quase feminina era sua especialidade.

Lana era sua irmã. Já tinha idade para se casar, embora ninguém soubesse disso além dele. Ainda se parecia muito com uma criança. Quase nunca falava, exceto com ele. Donar conhecia a valor de seu silêncio. Já a vira se esgueirando e escalando muros que outros diriam impossíveis, o arco curto sob as dobras do manto e o punhal entre os dentes.

Eram sua família.

– Eu procurei por vocês – disse o Lorde – Bom saber que são quem eu pensava.

– E agora que nos encontrou, o que quer de nós?

– Que salvem minhas terras e meu povo. Elas estão sob ataque.

– Nós cinco apenas? Não somos um exército.

– Sei disso. Eu tenho meus próprios guardas e ouro para contratar três vezes eles em mercenários se precisar. Mas estou impedido de agir.

Donar cruzou as mãos, pacientemente, e esperou que o Lorde se explicasse.

– Os meus servos e os camponeses livres que habitam as paragens de Gardalan vem sendo atormentados por ataques noturnos. Muitos são mortos e todos que não fogem maltratados com crueldade. A comida é roubada ou destruída. Os animais, levados ou abatidos ali mesmo e deixados para apodrecer. Não encontrando a proteção que esperam, muitos estão abandonando as terras. Tento impedir o melhor que posso, e eventualmente ponho a ferros quem espalha essas idéias, mas, em meu íntimo, não os censuro. Os ataques são isolados e rápidos e, após sua ocorrência, os bandidos voltam para a floresta que circunda meu feudo, que deveria ser uma proteção, mas não é.

– Os camponeses – prosseguiu – acreditam que os atacantes, vindo sempre à noite, com capas pretas e encapuzados como carrascos, são demônios da floresta. Suas ações parecem visar mais a destruição e o terror que o roubos, mas meus guardas e caçadores examinaram seus rastros e as feridas dos mortos, e acharam marcas de pés de homem e nenhum ferimento ou agonia que um homem não pudesse causar. Não parecem ser muitos, pois sempre atacam alvos isolados e fracos e não seria nada difícil para mim organizar uma caçada a esses patifes, seguir seus rastros até a floresta, chacinar os que ousarem reagir e enforcar os prisioneiros depois, garantindo alívio e um bom espetáculo para meu povo. Mas não posso agir. O amor me impede.

O Lorde baixou a cabeça, algo raro num Lorde que não estivesse entre seus pares.

– Quem quer que sejam, eles tem minha filha. Duas semanas antes destes ataques começarem, minha filha, única lembrança que tenho de minha única esposa, e única descendente que me resta, depois que meus dois filhos mais velhos perderam-se em guerras fúteis no passado, viajava de volta para o convento onde foi educada, depois de passar uma temporada de um ano em minha companhia quando foi arranjado seu casamento. Gyanda é seu nome e é a jóia mais preciosa que tenho. Ia bem protegida e por uma estrada segura, não muito longe daqui. Foi com desespero que eu vi chegar um de seus guardas, que eu julgava ser o único sobrevivente dos protetores de minha filha, trazendo-me este pergaminho:

De entre as mangas do Lorde, surgiu um rolo que se estendeu sobre a mesa que havia ali. A um olhar de Donar, Petrus se adiantou e examinou:

– Foi escrito por alguém com alguma instrução, embora não por um sábio tão versado assim, algumas formas aqui estão erradas, provavelmente alguém que aprendeu as letras não como parte de sua educação, mas por vontade própria ou necessidade, e diz: “Caro Lorde de Gardalan, tenho sua filhinha comigo, e posso machuca-la quando quiser. Em breve meus homens estarão fazendo a coleta dos meus tributos em sua terra. Não é bom para a saúde dela se intrometer com eles. Aguarde futuras ordens, se quiser ver um dia seu precioso tesouro de novo.” Está assinado com um desenho de uma mancha negra com dois buracos brancos que lembram olhos. Assemelha-se a um capuz de carrasco.

– O guarda descreveu um ataque de homens fortemente armados, em número superior e de surpresa, e que ele fora poupado apenas para entregar esta mensagem. Todos os outros, fora minha filha, estavam mortos. E ela fora levada sobre o lombo do cavalo de um dos atacantes. Eu esperava um pedido de resgate à altura de nossa condição. Mas vieram estes bandidos no lugar a perturbar meu povo e, ao ouvir a descrição dos meus servos sobreviventes sobre as vestimentas e máscaras dos atacantes, compreendi o que significavam os tributos de que falava a carta. No entanto, há algo com que o mestre destes ataques não contava. Um de meus cavaleiros também sobreviveu ao ataque. Sir Galenus, grande caçador além de guerreiro, escapuliu quando viu a batalha perdida e compreendeu que o objetivo era a captura de minha filha ainda viva. Depois, ele buscou os rastros dos atacantes e os seguiu discretamente, desfazendo-se de seu escudo, tabardo e armadura, e os seguiu até seu ninho. Ele sabe onde estão. Uma velha torre meio em ruínas, em terras abandonadas, num promontório a beira de um lago, tudo cercado por uma floresta, à distância de uma semana daqui. Galenus foi até lá, não foi visto, e voltou de lá, chegando aqui pouco tempo depois dos ataques começarem, e graças a vocês, sei onde minha filha está. Um ataque direto a esta fortaleza seria uma estupidez, pois o que eles tem é mais precioso para mim que meu próprio nome ou honra, e o risco de feri-la é demais para mim. No entanto, se um grupo pequeno pudesse se infiltrar na fortaleza furtivamente, que, pelo que Galenus diz, não é fortemente protegida e nem vigiada, então… Eu estaria livre para fazer a justiça. Primeiro aqui e depois lá.

Donar pensou e pensou, calculou os riscos e esboçou um ou dois planos em sua mente. E disse o preço. Não houve tentativa de regatear.

– Agora, milorde, se me permite, quero falar com Sir Galenus.

– Isso é impossível.

– Como?

– Ele morreu. Não quero desmerecer o seu médico, rapaz, mas o ferimento que ele trazia, desde o ataque, estava envenenado. Foi somente a custa de muita força de vontade, e também, é claro, da habilidade de seu Petrus que ele sobreviveu para chegar aqui e me relatar o que aconteceu. Poucos dias depois, ele morreu. Ainda antes de morrer, o fedor que exalava era tremendo.

Petrus olhou nos olhos de Donar, mas, a um olhar deste, calou-se.

– Agora me retiro, meninos. Estou cansado e os últimos dias parecem ter me envelhecido muito mais que os últimos dez anos. Bebam o vinho, comam a comida, conversem e, quando estiverem prontos, toquem o sino para o criado os conduzir aos seus quartos. Pela manhã partirão e, se precisam de algo que os ajude na demanda, me peçam agora para que eu mande providenciar esta noite. Não? Pois bem, boa noite.

Assim que se viram sós, Petrus adiantou-se, nervoso:

– Donar, não há a menor possibilidade de…

Donar ergueu a mão. O outro se calou.

– Eu compreendi seu olhar, Petrus. E já tomei providências. Descansemos por um momento.

Petrus olhou ao redor. Redulff riu baixinho e Remo dedilhou as cordas e ensaiou os versos de uma canção:

 

Dona sombra, dona sombra,

                Que aprendem as meninas contigo?

                Meninas más levam a morte,

                As boazinhas tem nela um amigo…

 

Lana havia desaparecido.