CAPITULO UM

Mauro chegou até a clareira na mata. Era o local apropriado, pelo que todo o mundo dizia. Precisava tentar. Felizmente, como era uma coisa que faria sozinho, se não funcionasse, ele não faria papel de bobo para nenhuma plateia. Era um dia claro, e ele se lembraria pelo resto da vida como, tão logo ele tirara a peneira do saco, começara a ventar de repente. Descendente de uma longa linhagem de fazendeiros ricos, Mauro desperdiçara quase tudo nos últimos anos de sua vida. Maus negócios, má administração e um pouco de azar. A medida que as dívidas se acumulavam e ele vendia pedaços e pedaços de suas terras para quita-las, vendo no fim tudo se reduzir à casa grande onde vivia e um pequeno pedaço de lavoura e outro de mata virgem, os seus vícios em jogatina e bebida se intensificavam. E então vinham os colonos e os novos donos da terra. Muitos deles haviam comprado a terra que se fragmentava – a SUA terra – e a faziam render, com trabalho árduo e determinação, colocando família e filhos na labuta. E a riqueza dos antepassados de Mauro havia sido construída pelo trabalho dos escravos, que não estavam mais disponíveis. Ele herdara a falta de jeito para lidar com trabalhadores livres. Bem, tudo mudaria essa tarde. Ou não mudaria.

O vento formou o redemoinho no chão. Ele lançou a peneira. Se tudo era como diziam, as duas tiras que formavam a cruz no centro haviam feito seu trabalho. O vento cessou no mesmo instante. Dividido entre achar a si próprio – homem culto, educado – um idiota por estar fazendo aquilo e uma ponta de assombro, temor e esperança pela súbita parada do vento, ele tirou do saco a garrafa e a rolha.

Escorregou a garrafa por baixo da peneira. Levantou as duas. Depois, num movimento rápido, enfiou a rolha, marcada com uma cruz feita com faca, na abertura do gargalo. Deu as costas à clareira e voltou para a casa grande.

Sua esposa o deixara – um escândalo sobre o qual ele nada podia fazer, pois não sabia onde ela estava – após a morte de seu primeiro filho ainda criança. Ele desconfiava de um caixeiro-viajante. Dizia às vezes que um dia havia de achar e matar ambos, em alguma cidade grande. Mas no fundo se sentia aliviado com a ausência dela. Nunca a amara. E a beleza que ela tinha na juventude, embora não totalmente destruída pela vida doméstica, já o entediava pela falta de variedade. Os empregados já haviam partido, e chegavam apenas para trabalhar durante o dia. Não havia mais quem morasse – ou quisesse morar – na casa grande com ele.

E foi numa das salas dela, perto da meia noite, com os olhos fixos na garrafa, que ele viu a criatura se tornar visível.

“É tudo verdade!”

E ela dava medo.

Ele esperara a figura de um menininho. Menor, é claro, pela falta de espaço na garrafa. E com um olhar de maldade, talvez. Mas agora entendia o que de fato queriam dizer com sua descrição, que fora mal interpretada por tantos por tanto tempo. Ele era uma pequena figura feita de escuridão. A única perna não se parecia com uma perna, e sim com um rodopio de fumaça negra emanando de um buraco invisível, que formava o corpo diminuto da coisa logo acima. Seus olhos pareciam duas brasinhas. Não parecia ter boca ou qualquer outra parte de um rosto humano. Suas mãos tateavam o vidro.

Mas enquanto o terror o emudeceu por um instante, ele viu o que precisava ver para voltar a ter coragem: a carapuça. O pedaço de pano vermelho pontudo, sólido, tão diferente de todo o resto do corpo dele. Estava lá, sobre sua cabeça etérea. Então devia ser verdade o que diziam a respeito dela também. A criatura apenas o fitava em silêncio. Foi Mauro que falou:

– Quer sair da garrafa?

Ela não respondeu.

– Quer sair da garrafa?

Nada.

– Vou perguntar pela terceira e última vez. Quer sair da garrafa? Responde ou eu vou pro porão, enterro ela e nunca mais penso no assunto. Não tenho nada a perder. Você tem.

A voz saiu. Era uma voz calma. Adulta. Bem articulada. Parecia até mesmo com a de Mauro.

– Te dou ouro.

– Não quero.

– Te dou a virgindade da donzela que me disser o nome.

– Não quero.

– Acabo com a vida do teu inimigo. Me diz o nome dele.

– Não.

A criatura esperou. Mauro falou novamente.

– Quero tua carapuça.

Mais silêncio.

– Se eu abrir essa garrafa, tu vai me dar essa tua carapuça no mesmo instante. E não vai fazer mais nada até eu falar contigo depois. E quero te ouvir prometer isso. Porque sei que tu não pode descumprir o prometido.

Silêncio.

– E então?

Silêncio.

– Vou pegar minha pá. Vamos pro porão.

Um chiado alto. Nada humano. Os olhos brilhando. O vidro ficando luminoso. A garrafa parecera se tornar quente. Mas era um truque e Mauro sabia. Ele não podia fazer nada com aquele signo na rolha sobre ele.

– Se quer sair daí, promete, criatura.

– Prometo.

– Não basta. Repete a promessa nas minhas palavras.

– Prometo que, quando sair da garrafa, vou te dar minha carapuça no mesmo instante. E não vou fazer mais nada até tu falar comigo…

E completou, a voz mudando, ficando artificialmente servil:

– …patrãozinho.

E uma gargalhada de voz grave e alta depois. Mas ele não se deixou enganar pela falsa ironia. A promessa estava feita e ele seria sim seu servo. Ele puxou a rolha da garrafa e a coisa se projetou pra fora num sopro escuro. A carapuça estava em sua mão esquerda e o monstro crescera de tamanho, chegando até a altura de sua cintura.

– Pronto. Você tem a carapuça. E estou ao seu serviço. O que você quer?

– Arrasa as fazendas de cada vizinho meu. Sei que tu suga o sangue do gado, estraga plantação e comida. Faz isso. Arruína eles.

– Vou fazer, é garantido. Mas por quê?

– Não te interessa, faz o que mandei.

– Já estou indo, patrão. Mas se você não aguenta ver a prosperidade deles na porta da tua desgraça, eu posso sugerir coisa melhor. Eu conheço toda a região, o lado de dentro e de fora da casa de cada um. Ao invés de arruinar com todos de uma vez, acaba só com um deles agora. Todos têm dívidas e o senhor pode comprar as promissórias com um dinheiro que tem guardado. Mas eu sei que o dinheiro só dá pra um negócio desses por enquanto. Aceita depois a terra como pagamento. E aos poucos, o senhor toma tudo de todos.

– Por que tá me dando esse conselho?

– Eu sei que você quer ser rico de novo. Eu quero minha carapuça de volta. Se eu fizer o serviço direito, talvez um dia você me devolva ela.

Mauro lembrou da carapuça. Precisava fazer algo a respeito. Aproximou o pano da garrafa e o colocou de volta pelo gargalo. Recolocou a rolha. Pronto. Não ia ser um truque tão fácil toma-la dele.

– Gostei do teu conselho. E talvez um dia eu te devolva ela, sim. Mas isso vai ser daqui a bastante tempo. Faz como tu disse que amanhã vou ao banco.

A criatura desapareceu, tornou-se vento e soprou pela janela. Os animais, lá fora, agitaram-se alvoroçados. No escuro, Mauro sorriu.