Link do capitulo anterior http://pulpstories.com.br/luiz-hasse/a-noite-dos-redemoinhos-3/

CAPITULO QUATRO

Dois meses depois, Mariana o odiava. E odiava mais ainda quando ele estava bêbado. Nessas horas ele com frequência tinha delírios. Falava com alguém que só ele podia ver. Ria, e brigava, e resmungava. E se por um lado não era capaz de fazer aquilo com ela quando bêbado, o que era um alívio, a frustração de tentar e não conseguir fazia com que a espancasse com frequência.

Por um breve período, ela tivera a esperança de que eles ao menos se casassem. Mas não. Ele não parecia pretender casar-se com ninguém. Ela cuidava da cozinha, dormia num quartinho e se convertera numa criada. E também em algo com um nome pior que criada. O desprezo que até mesmo os outros empregados da casa tinham por ela era evidente. Ela, que já fora senhora daquelas terras.

Como homem mais rico da região, Mauro era convidado para reuniões, e recebia outros cavalheiros em sua casa com frequência. Mas naquela noite ela estava sozinho com ele.

– Onde você está? Não some da minha vista desse jeito, seu pequeno diabo! Aparece logo! Mariana! Me traz mais uma garrafa! – eram os berros dele vindos da sala.

Ela reprimiu as lágrimas de medo mais uma vez e desceu ao porão. O antigo estoque de seu marido já estava quase no fim. Foi até o canto mais escuro, tateando, e puxou uma das poucas garrafas que restavam.

– Vai acabar em breve, dona.

Quem dissera aquilo? Ela ouvira uma voz na escuridão. Perscrutou com os olhos e não havia nada. Mas os berros lá em cima não paravam. Ela devia estar mesmo ficando meio louca. Louca como ele.

Subiu até Mauro. Entregou-lhe a garrafa. Ele puxou a rolha e bebeu do gargalo, como fazia sempre que estava sozinho. Cuspiu na cara dela.

– Essa porcaria virou vinagre! Não tem bebida que presta nessa casa?

– Eu sinto muito, Mauro. Mas tem mais umas garrafas. Eu vou buscar.

– Escuta aqui! – gritou ele – Se me trouxer porcaria de novo… Ele parou pra tomar fôlego. – Eu te mato!

Ela desceu novamente até o porão. Rezando para que o conteúdo da próxima estivesse em boas condições. Tinha uma vela nas mãos dessa vez. Quando terminou de descer as escadas, teve vontade de gritar, e teria gritado se aquilo não fosse atrair o canalha.

As últimas três garrafas estavam quebradas. O conteúdo espalhava-se no chão de pedra. Ela ajoelhou-se e chorou. Não ficou tentando buscar explicações para o fenômeno. Simplesmente abraçou o desespero. Os gritos dele lá em cima aumentavam. Odiou também Caio mais do que nunca. Por que ele escolhera abandona-la daquele jeito? E ao mesmo tempo o compreendeu como nunca o compreendera.

Mas não. Não seria o que ela faria. Viver por mais um dia. Sobreviver mais àquela noite. Levantouse e pôs-se a procurar. O porão era grande. Haveria outra garrafa em algum canto. Tinha que haver, pois…

Ei-la. Encontrara-a numa caixa. Não reconheceu nenhuma das duas coisas. Nem a garrafa nem a caixa. Provavelmente eram coisas do novo mestre da casa.

Ele a recebeu com uma bofetada e tomou, sôfrego, a garrafa de sua mão. Puxou a rolha com força. Tentou beber e aparentemente não havia conteúdo. Jogou a garrafa contra a parede.

O ruído dela se estilhaçando foi seguido de uma gargalhada sem corpo.

Parecia que o efeito do álcool havia passado completamente ou então o levara a um novo paroxismo de loucura, pois Mauro olhou para o nada e gritou apavorado, com uma voz fina e esganiçada. Mariana não compreendia o que estava acontecendo, mas teve medo também.

Devagar, de entre os cacos da garrafa pareceu subir um vapor negro, do meio do qual um pequeno vulto se levantou. Tinha um gorro vermelho na cabeça. Antes que ela conseguisse vê-lo com nitidez, as luzes ali se enfraqueceram e todos viraram figuras difusas.

Do vulto então só ficaram pequenos olhos, brilhando na escuridão.

– O que é isso? – perguntou Mariana em voz alta – De onde veio esse… esse…

– Pequeno diabo – disse o vulto, com uma voz grossa – Eu te agradeço, patrão, por me devolver o que era meu. Aceito o pagamento pelos serviços prestados e encerro aqui nosso contrato.

Mauro estava pálido e paralisado. A coisa saltou na direção dele.

Mariana virou-se dali e correu. Não queria ver mais nada.

Os olhos em brasa fitaram os de Mauro e ele viu através deles. A visão de seus próprios campos arrasados. Seus próprios animais mortos. A nova casa se degenerando pela falta de cuidados. E ele um velho bêbado, pobretão e sozinho. Tudo voltaria a ser como era. Não, não como era. As imagens mostravam que ele desceria a um ponto muito mais baixo do que estava quando buscara a ajuda daquele demônio. Um futuro de ruína horrendo e inevitável.

Com um riso, a coisa largou-o de repente, ficou invisível e partiu num pé de vento violento, escancarando as janelas. Mauro olhou para a sala vazia e silenciosa. Sentiu-se tonto. Bebera demais. As visões tinham sido violentas. Deu um urro de ódio para o vazio. E então o ar começou a lhe faltar. Seu peito apertou e doeu. E ele tombou no chão.