PARTE I

A noite já tinha descido sobre aquelas paragens quando o carro chegou. Diante do casebre solitário, construído à frente de um pequeno bosque, distando pelo menos meio quilômetro da estrada principal, cujo único acesso era uma esburacada e pouco utilizada estrada de terra, parou um automóvel totalmente discrepante do ambiente. Caro, novo e moderno. Seus faróis lançavam, além da lua e das estrelas, a única luz sobre as paredes de madeira sem pintura e as janelas fechadas e escuras que os dois ocupantes do veículo fitavam.
Seus nomes eram Rodrigo e Ricardo. E eram irmãos. Rodrigo, o mais velho, estava ao volante, seu semblante era tranquilo e determinado, e seus modos, roupas e olhar transmitiam a ideia de uma personalidade forte e segura de si, temperada com uma certa arrogância e agressividade que só contribuíam para torná-lo mais charmoso. Ricardo, porém, embora semelhante ao irmão fisicamente e havendo pouca diferença de idade entre os dois, transmitia uma ideia totalmente diversa de quem e do que era. Seus olhos eram profundos e tristes e seus modos eram gentis e distantes. Parecia uma pessoa mais suave, tímida e sensível.
Havia algum tempo, todo o seu ser transmitia melancolia. Já fazia pelo menos três meses que Julia morrera, naquele assalto fatídico, e desde então, Ricardo raramente sorrira, mantivera o hábito de usar sempre preto e era possível perceber que havia nele a firme resolução de nunca mais amar ou deixar-se ser amado por mulher alguma.
Agora, pela primeira vez desde aquela noite, o amor que ele sentira, e ainda sentia, por Julia, seria posto a prova. Seus olhos peculiarmente brilhantes foram percorridos por uma sombra de dúvida e medo.
-Eu não sei se eu quero fazer isso.
-Por que não? Agora que viemos até aqui, você quer desistir? – respondeu Rodrigo.
-Desistir do quê? Eu não sei se acredito que uma mulher vai poder… vai poder fazer aquilo que você disse. Acho que talvez isto seja uma grande perda de tempo.
-Ricardo, presta atenção: eu também não acreditava em nada disso, até que uma amiga minha me trouxe até esta mulher. E eu não estaria trazendo meu próprio irmão até aqui se não tivesse a certeza de que o negócio é real. Eu vi o que ela faz. Ela me disse coisas que ninguém mais poderia saber, e conseguiu solucionar uns problemas bem feios que eu estava vivendo na época… de vez! Pode ter certeza do que eu estou te dizendo… essa mulher tem poder.
-É difícil acreditar, sabe? Nos tempos em que nós vivemos… uma bruxa! Se ela é tão poderosa quanto você diz, porque ainda mora nesse lugar? Por que não subiu na vida?
-Não sei. Pergunte pra ela. Vai ver não se importa.
-Mas ela cobrou adiantado, não cobrou?
-É, cobrou. E eu paguei. Se você for lá agora, não vamos perder mais do que já perdemos.
-E mesmo que tudo seja verdade… isso não vai trazer Julia de volta.
-Provavelmente não.
-Como?
Rodrigo pareceu despertar de um sonho.
-É claro que não! – corrigiu-se – Mas vai ajudar você a superar tudo isso. Você não está bem. Tem a empresa da família pra tocar em frente e fica chorando e se lamentando por uma coisa que já aconteceu e não vai voltar atrás. Talvez esse seja o único jeito de você se libertar. Falar com ela uma última vez e saber que ela está bem.
-Com Julia.
-Isso. Com Julia. Se alguém pode fazer isto, é esta mulher.
Ricardo suspirou. A lembrança de sua amada mais uma vez encheu seus olhos de lágrimas e ele resolveu-se.
-Tudo bem, eu vou. Me espere no carro. Só espero que você não tenha desperdiçado dinheiro com uma charlatã.
-Não se preocupe. A coisa é de verdade, você vai ver.
Instantes depois, Ricardo batia na porta do casebre e, enquanto seu irmão desligava os faróis, ela era aberta. Era quase impossível ver qualquer coisa dentro do aposento atrás da mulher que estava diante dele, iluminado por uma única pequena vela sobre uma mesa de tábua.
Era uma velha usando os farrapos de um vestido antigo, que talvez tivesse pertencido à sua avó, e um xale cinzento sobre os ombros, que lhe dava uma aparência de fantasma. Seus cabelos eram brancos, longos e desgrenhados, não usava maquiagem alguma em seu rosto enrugado e cinzento. Estranhamente, seus dentes eram inteiros e fortes, peculiarmente brancos e saudáveis para uma senhora daquela idade que parecia viver na mais absoluta pobreza.
-Pode entrar – disse a senhora – eu estava te esperando.
Ricardo deu um passo quando a velha passou para o lado, mais desconfiado do que nunca. Ela parecia demais com uma bruxa, e por isso mesmo a coisa tinha mais ares de farsa. Mas viera até ali e, como seu irmão dissera, não havia mais nada a perder.
A velha se acomodou numa cadeira na mesa e fez sinal para que Ricardo se sentasse diante dela, ficando a pequena vela entre os dois. Por um tempo, nenhum deles falou nada. O homem começou a ficar aborrecido e, embora não admitisse para si mesmo, um pouco amedrontado pelo silêncio mórbido do lugar e pelo olhar aguçado da mulher, que mantinha-se fixo em seus olhos. Tomou a resolução de ir embora, porém, nesse instante, como se lesse a sua mente, a bruxa disse:
-É uma pena! Vocês nem chegaram a se casar.
-Como? – um arrepio gelado fez o caminho da nuca até o cóccix de Ricardo.
-Você e… Julia. Haviam marcado casamento, já namoravam havia cinco anos. Saíram para jantar fora para comemorar, não foi assim? Aí, no caminho de volta para o carro, surgiu aquele homem… ele usava uma jaqueta preta e uma meia no rosto, não é? Apontou o revólver e quis dinheiro… você pegou a carteira e ela colocou a mão dentro da bolsa… aí ela levou o tiro.
Ricardo sentia o corpo mole, como se estivesse dopado. À medida que a mulher falava, era como se um filme passasse em sua mente. Era quase como… como se ela tivesse presenciado tudo.
-Acho que o assaltante viu. – disse ele, meio sonhando – Ela tinha um spray de pimenta na bolsa. Mas duvido que fosse usar.
-Você ouviu o tiro e pulou em cima do homem… agarrou o pulso dele e socou sua barriga, fez ele largar o revólver, mas ele se soltou de você e fugiu. Então você viu ela, sangrando… e não teve coragem de ir atrás dele.
-Eu devia ter pego a arma e matado aquele…
-Não pegou. Ficou do lado dela, gritando por ajuda, e não adiantou. Quando a ambulância chegou…
-Ela já tinha morrido. Como você sabe de tudo isso? A história saiu nos jornais, mas não com todos estes detalhes.
-Ela me contou. Ela quer falar com você. Você quer falar com ela?
Ricardo ficou em silêncio. Sentia uma mistura de dor, medo, dúvida e… amor. A lembrança de Julia era forte e seu desejo de revê-la era devorador. Por outro lado, ainda era muito inverossímil para ele aquela história de comunicação com os mortos. Se ao menos houvesse alguma evidência. Algo que pudesse fazê-lo crer, nem que fosse só um pouco… Ele abriu a boca para dizer algo, mas não tinha ideia do que iria falar.
Antes que ele dissesse qualquer coisa, a vela se apagou.
A escuridão caiu sobre o aposento quase como se fosse uma coisa sólida, e seus sentidos pareceram ficar suspensos, na expectativa, enquanto sua mente ficava alerta. O medo cravou de vez suas garras nela, mas o medo parecia apenas intensificar o desejo de que Julia, de que ela, a única mulher que ele verdadeiramente amara, de que ela…
-Meu amor, Ricardo, meu amor…
A dúvida desapareceu. Ali, na escuridão daquele casebre, vindo do lugar à sua frente onde a bruxa estava sentada, vinha a voz cristalina e inconfundível de Julia. Nenhum truque, nenhuma imitação, nada que alguém pudesse simular ou fingir iria enganá-lo. Era ela. Era a sua noiva. Ele teve a certeza de que, se fosse possível acender a luz, veria Julia diante dele.
Lágrimas afloraram a seus olhos, ele pensou em algo para dizer, e falou apenas:
-Eu estou aqui. Eu sinto tanta saudade! Como você… como você está?
-Eu também sinto saudade, não se preocupe comigo. Mas eu preciso te avisar antes que…
A voz de Julia transformou-se num gemido angustiado da bruxa, como se ela estivesse fazendo um grande esforço pra que aquilo se realizasse. Ricardo chamou-a.
– Não vai embora ainda! Eu quero estar com você, por favor, eu preciso te ver de novo!
A voz de Julia retornava:
-Não… me escute… o tempo é curto… tenha cuidado! Você está em perigo… eu preciso te dizer… – neste momento, houve outro gemido da velha, e, em seguida, a voz de Julia voltou, num tom desesperado – Não! Me deixe! Eu vou avisar! Você não deve… não deve…
Um grito rouco partiu da garganta da mulher, cortando a frase. Em seguida, ouvia-se um ofegar raivoso e mãos tateando no escuro. Ricardo se levantou, confuso e ansioso.
-Onde ela foi? Me faça falar com ela de novo! A senhora… a senhora está bem?
-Não! Não estou! – foi a resposta brusca – Acha que isso é fácil?!
Em seguida, ouviu-se um chiado e a chama de um fósforo apareceu na escuridão, a vela era acesa por mãos trêmulas. A mulher ofegava ainda e um filete de saliva escorria pelo canto de sua boca. Ergueu seus olhos na direção do homem. Havia ódio neles.
Subitamente, ela soltou uma risada, e sua expressão voltou a ser serena.
-Desculpe, desculpe, meu jovem… é que é muito desgastante… e fazia muito tempo que eu não… desculpe, acho que esta noite não conseguirei mais nada.
-Foi tão rápido – ele parecia sonhar, decepcionado – Ela queria me dizer algo. A senhora sabe o que era?
-Não. Ela não me disse. E ela não está mais aqui para responder.
Os olhos dele faiscaram. Havia neles uma avidez incontrolável. Agarrou a mulher pelos ombros e murmurou, controlando-se para não gritar:
-Quando? Quando vou poder falar com ela de novo? Quanto eu preciso pagar?
A mulher ficou em silêncio. Parecia terrivelmente cansada.
-Você quer falar com ela de novo? Eu não sei se eu vou conseguir. Eles vem e vão segundo a vontade deles, não a minha. Eu posso convidá-la, mas nada garante.
-Mas…
-Sente-se e se acalme. Há um outro jeito.
Ricardo obedeceu. A velha ficou mais algum tempo em silêncio, e depois disse:
-Você não tem o dom. Mas você é muito ligado a ela. O amor de vocês é forte. Se fizer o que eu digo, talvez consiga vê-la mais uma vez… somente você e ela. É isto o que você quer?
-Sim.
-Então ouça com atenção…

Autor: Luiz Hasse