I

 

A noite já tinha descido sobre aquelas paragens quando o carro chegou. Diante do casebre solitário, construído à frente de um pequeno bosque, distando pelo menos meio quilômetro da estrada principal, cujo único acesso era uma esburacada e pouco utilizada estrada de terra, parou um automóvel totalmente discrepante do ambiente. Caro, novo e moderno. Seus faróis lançavam, além da lua e das estrelas, a única luz sobre as paredes de madeira sem pintura e as janelas fechadas e escuras que os dois ocupantes do veículo fitavam.
Seus nomes eram Rodrigo e Ricardo. E eram irmãos. Rodrigo, o mais velho, estava ao volante, seu semblante era tranquilo e determinado, e seus modos, roupas e olhar transmitiam a ideia de uma personalidade forte e segura de si, temperada com uma certa arrogância e agressividade que só contribuíam para torná-lo mais charmoso. Ricardo, porém, embora semelhante ao irmão fisicamente e havendo pouca diferença de idade entre os dois, transmitia uma ideia totalmente diversa de quem e do que era. Seus olhos eram profundos e tristes e seus modos eram gentis e distantes. Parecia uma pessoa mais suave, tímida e sensível.
Havia algum tempo, todo o seu ser transmitia melancolia. Já fazia pelo menos três meses que Julia morrera, naquele assalto fatídico, e desde então, Ricardo raramente sorrira, mantivera o hábito de usar sempre preto e era possível perceber que havia nele a firme resolução de nunca mais amar ou deixar-se ser amado por mulher alguma.
Agora, pela primeira vez desde aquela noite, o amor que ele sentira, e ainda sentia, por Julia, seria posto a prova. Seus olhos peculiarmente brilhantes foram percorridos por uma sombra de dúvida e medo.
-Eu não sei se eu quero fazer isso.
-Por que não? Agora que viemos até aqui, você quer desistir? – respondeu Rodrigo.
-Desistir do quê? Eu não sei se acredito que uma mulher vai poder… vai poder fazer aquilo que você disse. Acho que talvez isto seja uma grande perda de tempo.
-Ricardo, presta atenção: eu também não acreditava em nada disso, até que uma amiga minha me trouxe até esta mulher. E eu não estaria trazendo meu próprio irmão até aqui se não tivesse a certeza de que o negócio é real. Eu vi o que ela faz. Ela me disse coisas que ninguém mais poderia saber, e conseguiu solucionar uns problemas bem feios que eu estava vivendo na época… de vez! Pode ter certeza do que eu estou te dizendo… essa mulher tem poder.
-É difícil acreditar, sabe? Nos tempos em que nós vivemos… uma bruxa! Se ela é tão poderosa quanto você diz, porque ainda mora nesse lugar? Por que não subiu na vida?
-Não sei. Pergunte pra ela. Vai ver não se importa.
-Mas ela cobrou adiantado, não cobrou?
-É, cobrou. E eu paguei. Se você for lá agora, não vamos perder mais do que já perdemos.
-E mesmo que tudo seja verdade… isso não vai trazer Julia de volta.
-Provavelmente não.
-Como?
Rodrigo pareceu despertar de um sonho.
-É claro que não! – corrigiu-se – Mas vai ajudar você a superar tudo isso. Você não está bem. Tem a empresa da família pra tocar em frente e fica chorando e se lamentando por uma coisa que já aconteceu e não vai voltar atrás. Talvez esse seja o único jeito de você se libertar. Falar com ela uma última vez e saber que ela está bem.
-Com Julia.
-Isso. Com Julia. Se alguém pode fazer isto, é esta mulher.
Ricardo suspirou. A lembrança de sua amada mais uma vez encheu seus olhos de lágrimas e ele resolveu-se.
-Tudo bem, eu vou. Me espere no carro. Só espero que você não tenha desperdiçado dinheiro com uma charlatã.
-Não se preocupe. A coisa é de verdade, você vai ver.
Instantes depois, Ricardo batia na porta do casebre e, enquanto seu irmão desligava os faróis, ela era aberta. Era quase impossível ver qualquer coisa dentro do aposento atrás da mulher que estava diante dele, iluminado por uma única pequena vela sobre uma mesa de tábua.
Era uma velha usando os farrapos de um vestido antigo, que talvez tivesse pertencido à sua avó, e um xale cinzento sobre os ombros, que lhe dava uma aparência de fantasma. Seus cabelos eram brancos, longos e desgrenhados, não usava maquiagem alguma em seu rosto enrugado e cinzento. Estranhamente, seus dentes eram inteiros e fortes, peculiarmente brancos e saudáveis para uma senhora daquela idade que parecia viver na mais absoluta pobreza.
-Pode entrar – disse a senhora – eu estava te esperando.
Ricardo deu um passo quando a velha passou para o lado, mais desconfiado do que nunca. Ela parecia demais com uma bruxa, e por isso mesmo a coisa tinha mais ares de farsa. Mas viera até ali e, como seu irmão dissera, não havia mais nada a perder.
A velha se acomodou numa cadeira na mesa e fez sinal para que Ricardo se sentasse diante dela, ficando a pequena vela entre os dois. Por um tempo, nenhum deles falou nada. O homem começou a ficar aborrecido e, embora não admitisse para si mesmo, um pouco amedrontado pelo silêncio mórbido do lugar e pelo olhar aguçado da mulher, que mantinha-se fixo em seus olhos. Tomou a resolução de ir embora, porém, nesse instante, como se lesse a sua mente, a bruxa disse:
-É uma pena! Vocês nem chegaram a se casar.
-Como? – um arrepio gelado fez o caminho da nuca até o cóccix de Ricardo.
-Você e… Julia. Haviam marcado casamento, já namoravam havia cinco anos. Saíram para jantar fora para comemorar, não foi assim? Aí, no caminho de volta para o carro, surgiu aquele homem… ele usava uma jaqueta preta e uma meia no rosto, não é? Apontou o revólver e quis dinheiro… você pegou a carteira e ela colocou a mão dentro da bolsa… aí ela levou o tiro.
Ricardo sentia o corpo mole, como se estivesse dopado. À medida que a mulher falava, era como se um filme passasse em sua mente. Era quase como… como se ela tivesse presenciado tudo.
-Acho que o assaltante viu. – disse ele, meio sonhando – Ela tinha um spray de pimenta na bolsa. Mas duvido que fosse usar.
-Você ouviu o tiro e pulou em cima do homem… agarrou o pulso dele e socou sua barriga, fez ele largar o revólver, mas ele se soltou de você e fugiu. Então você viu ela, sangrando… e não teve coragem de ir atrás dele.
-Eu devia ter pego a arma e matado aquele…
-Não pegou. Ficou do lado dela, gritando por ajuda, e não adiantou. Quando a ambulância chegou…
-Ela já tinha morrido. Como você sabe de tudo isso? A história saiu nos jornais, mas não com todos estes detalhes.
-Ela me contou. Ela quer falar com você. Você quer falar com ela?
Ricardo ficou em silêncio. Sentia uma mistura de dor, medo, dúvida e… amor. A lembrança de Julia era forte e seu desejo de revê-la era devorador. Por outro lado, ainda era muito inverossímil para ele aquela história de comunicação com os mortos. Se ao menos houvesse alguma evidência. Algo que pudesse fazê-lo crer, nem que fosse só um pouco… Ele abriu a boca para dizer algo, mas não tinha ideia do que iria falar.
Antes que ele dissesse qualquer coisa, a vela se apagou.
A escuridão caiu sobre o aposento quase como se fosse uma coisa sólida, e seus sentidos pareceram ficar suspensos, na expectativa, enquanto sua mente ficava alerta. O medo cravou de vez suas garras nela, mas o medo parecia apenas intensificar o desejo de que Julia, de que ela, a única mulher que ele verdadeiramente amara, de que ela…
-Meu amor, Ricardo, meu amor…
A dúvida desapareceu. Ali, na escuridão daquele casebre, vindo do lugar à sua frente onde a bruxa estava sentada, vinha a voz cristalina e inconfundível de Julia. Nenhum truque, nenhuma imitação, nada que alguém pudesse simular ou fingir iria enganá-lo. Era ela. Era a sua noiva. Ele teve a certeza de que, se fosse possível acender a luz, veria Julia diante dele.
Lágrimas afloraram a seus olhos, ele pensou em algo para dizer, e falou apenas:
-Eu estou aqui. Eu sinto tanta saudade! Como você… como você está?
-Eu também sinto saudade, não se preocupe comigo. Mas eu preciso te avisar antes que…
A voz de Julia transformou-se num gemido angustiado da bruxa, como se ela estivesse fazendo um grande esforço pra que aquilo se realizasse. Ricardo chamou-a.
– Não vai embora ainda! Eu quero estar com você, por favor, eu preciso te ver de novo!
A voz de Julia retornava:
-Não… me escute… o tempo é curto… tenha cuidado! Você está em perigo… eu preciso te dizer… – neste momento, houve outro gemido da velha, e, em seguida, a voz de Julia voltou, num tom desesperado – Não! Me deixe! Eu vou avisar! Você não deve… não deve…
Um grito rouco partiu da garganta da mulher, cortando a frase. Em seguida, ouvia-se um ofegar raivoso e mãos tateando no escuro. Ricardo se levantou, confuso e ansioso.
-Onde ela foi? Me faça falar com ela de novo! A senhora… a senhora está bem?
-Não! Não estou! – foi a resposta brusca – Acha que isso é fácil?!
Em seguida, ouviu-se um chiado e a chama de um fósforo apareceu na escuridão, a vela era acesa por mãos trêmulas. A mulher ofegava ainda e um filete de saliva escorria pelo canto de sua boca. Ergueu seus olhos na direção do homem. Havia ódio neles.
Subitamente, ela soltou uma risada, e sua expressão voltou a ser serena.
-Desculpe, desculpe, meu jovem… é que é muito desgastante… e fazia muito tempo que eu não… desculpe, acho que esta noite não conseguirei mais nada.
-Foi tão rápido – ele parecia sonhar, decepcionado – Ela queria me dizer algo. A senhora sabe o que era?
-Não. Ela não me disse. E ela não está mais aqui para responder.
Os olhos dele faiscaram. Havia neles uma avidez incontrolável. Agarrou a mulher pelos ombros e murmurou, controlando-se para não gritar:
-Quando? Quando vou poder falar com ela de novo? Quanto eu preciso pagar?
A mulher ficou em silêncio. Parecia terrivelmente cansada.
-Você quer falar com ela de novo? Eu não sei se eu vou conseguir. Eles vem e vão segundo a vontade deles, não a minha. Eu posso convidá-la, mas nada garante.
-Mas…
-Sente-se e se acalme. Há um outro jeito.
Ricardo obedeceu. A velha ficou mais algum tempo em silêncio, e depois disse:
-Você não tem o dom. Mas você é muito ligado a ela. O amor de vocês é forte. Se fizer o que eu digo, talvez consiga vê-la mais uma vez… somente você e ela. É isto o que você quer?
-Sim.
-Então ouça com atenção…

 

II

 

Rodrigo não disse uma palavra quando Ricardo voltou ao carro e sentou-se no carona. Manteve o silêncio enquanto ligava o motor e guiava para fora dali, mas olhou com interesse para um certo pacote que o irmão tinha nas mãos. E com surpresa para o sorriso sutil que surgiu em seu rosto alguns instantes depois. Ele parecia que sonhava.
Quando já estavam novamente na zona urbana, consolados pelos ruídos da cidade naquela sexta-feira à noite, ele arriscou uma pergunta:
-Ãhn… como foi?
Ricardo suspirou, num misto de saudade e expectativa, e disse, com calma:
-Bem… me deu esperanças.
-Fico feliz. Quem sabe agora você toca em frente?
-É. Quem sabe?
-E este pacote aí?
-Isto aqui? Bom… eu não posso falar.
-Conselho da bruxa?
-Sim.
-Então vou respeitar.
O carro chegou finalmente à grande casa (na verdade, quase uma mansão) que Ricardo tinha na cidade. O irmão estava hospedado ali desde a morte de Julia, pois não parecia conveniente deixá-lo sozinho. Parou o carro diante do portão e disse:
-Bom… se você não se importa… hoje eu vou dormir num hotel. Acho que você precisa refletir.
Ricardo olhou Rodrigo nos olhos com ternura.
-Meu irmão… você tem sido o meu melhor amigo nestes últimos tempos. Eu sei que não nos demos bem no passado, quando o pai morreu, mas agora eu vejo que você sempre se importou com a gente. Pode ficar tranqüilo, eu vou ficar bem. E, se precisar de qualquer coisa, seja dinheiro, seja algum trabalho na empresa, pode falar comigo.
Rodrigo sorriu:
-Não me elogie demais. Sabe que eu não lido bem com trabalho e nem com dinheiro. A minha parte da herança virou fumaça em dois anos, enquanto você assumiu os negócios e, pelo que todo o mundo diz, triplicou o patrimômio. O pai ficaria orgulhoso.
-Cada pessoa tem qualidades diferentes. Enquanto eu viver, não vai lhe faltar nada. Boa noite.
-Boa noite.
Ricardo desceu e atravessou o portão. O agora solitário ocupante do carro ficou observando o irmão cruzar o caminho ladrilhado de árvores até a porta da casa e as luzes da casa se acenderem e continuarem acesas por algum tempo. Tempo demais. Ele já poderia ter se deitado.
Subitamente, ligou o motor e partiu. Esperara por tempo suficiente. Tinha certeza.
O silêncio permaneceu na rua diante da casa até que foi rompido por um outro ruído de motor, agora vindo da garagem. Ricardo partia dali com seu próprio carro, duas horas depois que chegara.
Rodou por ruas tranqüilas e silenciosas. Naquela área mais nobre da cidade havia um cemitério parque particular, mantido pelas famílias mais abonadas. Embora Julia fosse apenas uma professora de teatro e dança, e morresse sem ser oficialmente ligada à família, o seu noivo a sepultara lá.
Parou o carro diante dos muros cinzentos e do portão de ferro e desceu. Havia um vigia noturno, pois os parentes dos sepultados ali queriam a todo o custo evitar pichadores, baderneiros e seguidores de cultos e tendências artísticas mórbidos. O vigia reconheceu o homem que o interpelava e aceitou a polpuda gorgeta que lhe foi oferecida para deixá-lo passar por alguns minutos. Afinal, que mal haveria nisso?
Silencioso e escuro. Bonito e triste. Assim era o lugar.
Ricardo encontrou, à sombra de duas árvores, a lápide com o nome de sua amada. Pensou em sua personalidade forte, cativante, alegre, em seu carisma e energia. Em como ela a completava, ele que era apenas inteligente e prudente, com uma tendência muito sufocada ao romantismo, que ela acendera de maneira deliciosa quando os dois se conheceram. Nunca haveria outra mulher igual a ela.
Ele parou e sorriu. Prestes a vê-la de novo. Olhou para o vidro que tinha nas mãos. Um velho vidro de remédio, com um líquido incolor.
“Pense nela diante do túmulo…”
Destampou o vidro e levou-o aos lábios, com lágrimas nos olhos.
“…beba a poção…”
Era adocicada, quase agradável. Não se parecia em nada com remédio.
“…e diga as palavras…”
-Em nome do meu amor, eu desafio a morte. Não importa onde eu for, não me submeto a esta sorte. Quero te ver agora, diante de mim, como eras aqui fora, antes do teu fim, antes de ir embora. Do túmulo te liberto, e te chamo pra mais perto.
Sua visão ficou turva. Em sua mente, apenas a voz da velha…
“…diga o nome dela três vezes…”
-Júlia…
Como a noite estava escura! Ou eram seus olhos?
-Júlia…
Uma luz suave surgia diante dele. Parecia tomar forma. Seria…? Seria…?
-Julia…
Ele a via, finalmente. Nada mais existia. Nem o cemitério, nem o mundo. Apenas ela, luminosa, diante dele, na escuridão. Usando o vestido que teria sido de seu casamento. Ele estava tão feliz! Tão feliz e pleno que pareceu que aquele momento duraria para sempre!
Mas por que então ela estava tão triste? Não dizia nada. Não se movia em sua direção. Apenas o fitava, com um pesar profundo, como se algo irreparável tivesse ocorrido.
Subitamente a visão desapareceu. Ele estava no cemitério novamente, como se tudo tivesse sido um sonho. Mas havia algo errado…
Estava deitado sobre a terra, caíra de barriga para baixo, e havia aquela dor horrenda que começava no estômago e se espalhava por todo o seu peito. Tentou gritar, mas então percebeu que hão tinha mais voz. A única coisa que saiu de sua boca foi sangue.
Então, muito tardiamente, percebeu que fora enganado.

 

III

 

-Suicídio, com certeza – disse o legista – tomou veneno, não há um só indício de violência e pelo testemunho do vigia ele foi lá sozinho, não foi?
-Sim – completou o delegado – foi o próprio vigia que nos chamou, apavorado e se desculpando por ter deixado ele entrar. Foi ele que encontrou o corpo, mas nem mexeu nele. Se o pobre-diabo tivesse alguma coisa a ver, teria sumido.
-Bom, tá aqui o laudo, que só traz detalhes técnicos do que eu falei.
-Hu-hum…
O delegado tomou o papel das mãos do doutor. Acrescentou filosoficamente.
-Rico, jovem, cheio de possibilidades… e faz uma besteira dessas. Ele devia ser muito apaixonado pela noiva.

 

 

 

Chovera durante a tarde toda, no funeral, e parecia que iria continuar chovendo agora que começava a escurecer. Rodrigo adentrou o salão da grande casa que pertencera ao irmão e retirou a capa de chuva que pingava de cima do elegante terno negro que usava. Atirou-a displicentemente no cabide ao lado da porta e caminhou pelo local. Os empregados haviam sido dispensados naquele dia. Estava tudo vazio e silencioso.
Rodrigo foi até o bar, que o irmão, abstêmio, sempre evitara, e se serviu de uma dose pequena de uísque. Olhou para o copo e, em seguida, abandonou-o. Soltou uma gargalhada.
A ocasião era para champanhe.
Subitamente, sua alegria foi interrompida. Batidas fortes soaram na porta. Confuso, dirigiu-se para lá e colocou a mão na maçaneta:
-Quem é? Como passou pelo portão?
Uma voz de velha, irritada e perturbadora, soou do outro lado.
-Você deixou aberto, menino. Agora abra a porta também. Não vai querer que os vizinhos me vejam e eu sei disso.
Embora não gostasse nem um pouco do que estava fazendo, Rodrigo abriu, como que movido por um impulso irresistível. A bruxa entrou, usando o mesmo vestido que usara quando o falecido irmão fora visitá-la, mas o xale cinzento estava sobre a cabeça, numa débil proteção contra a chuva.
-O que a senhora está fazendo aqui?? Pensei que tínhamos combinado que…
-Eu também pensei – cortou rudemente a velha, enquanto se dirigia para uma poltrona, sem sequer olhá-lo nos olhos – fiquei esperando meu pagamento na minha casa, mas três dias se passaram e você não apareceu. Aí alguns amigos meus me avisaram que você podia não ser leal. Então eu vim cobrar, pessoalmente.
-Que amigos? Do que a senhora está falando?
A velha olhou para ele e exibiu aquele sorriso estranho, de dentes perfeitos:
-Amigos que me contam coisas. Amigos que ninguém pode ver e cuja língua só eu conheço.
O jovem acrescentou, seguro de si:
-Escute aqui, a senhora é uma atriz excelente e imitar vozes tão perfeitamente a partir de uma gravação que eu te dei é um talento e tanto, mas eu não sou o meu irmão. Você não me passou a perna da primeira vez com esse papo espírita, e não vai passar a perna agora.
A velha pareceu sinceramente ofendida;
-Se você acredita ou não, não é problema meu! Eu fiz a minha parte! Agora quero meu pagamento! Você me garantiu que depois da morte dele estaria rico e pelo que eu vejo é bem verdade!
Houve um instante de silêncio.
-Então?
Rodrigo suspirou:
-A senhora entenderia, se não vivesse numa maloca no meio do mato, que as coisas não são tão simples. Meu irmão foi enterrado hoje. Ainda tenho que dar um jeito num monte de documentação antes de por a mão na grana dele… aí eu vou poder te pagar do jeito que combinamos. Agora, se a senhora me dá licença…
-Eu não sou nenhuma estúpida, menino! Vou lhe avisando… não gosto de ser enrolada. Posso ir embora agora e esperar mais um pouco… mas não muito. Não quebre um trato comigo, ou não vai gostar das consequências.
-Não diga… o que você vai fazer? Me jogar uma maldição?
A velha riu.
-Não… não… isso seria cansativo… é bem melhor procurar a polícia. Todo mundo se convenceu de que foi suicídio, mas ninguém sabe como ele conseguiu o veneno. Eles iam gostar da minha história.
-É… só que, então, a senhora ia em cana também.
-Eu sou velha. Vou morrer logo e, pra mim, a cadeia não seria muito pior do que a vida que eu já levo… se eu não conseguir um pouco de dinheiro pra passar meus últimos anos em conforto.
Uma nova pausa tensa.
-Só estou lhe avisando, assim como meus amigos me avisaram. Agora vou indo.
Levantou-se vagarosamente e se encaminhou para a porta. Rodrigo abriu-a e se afastou, observando a velha pelas costas.
Fechou a porta e se encaminhou para o telefone.
-Alô? Maicon? Tá a fim de ficar limpo comigo depois da merda que você fez da última vez? É. É uma entrega. Te explico melhor amanhã. Lugar de sempre.

 

 

 

Era noite alta e clara, dois dias depois, quando ele bateu na porta.
-Quem é? – perguntou a voz do outro lado da porta de madeira. Uma voz envelhecida e irritante.
O marginal coçou o rosto e olhou para os pés, como normalmente fazia, num tique nervoso sutil, quando estava enganando alguém que suspeitava ser mais esperto do que ele próprio.
-É da parte do doutor Rodrigo… ele tem uma coisa pra senhora.
A porta se abriu, lá estava a velha, sorridente e ansiosa. Mas sua expressão mudou instantaneamente. Antes do tiro, ela soube.
Reconhecia o homem diante dela. A mesma jaqueta preta. O mesmo tipo físico. Até mesmo o revólver era igual. O incidente lhe fora descrito com detalhes por Rodrigo, e a velha formara uma imagem mental muito clara do assassinato de Julia, o que fora necessário para a performance.
Clara demais. Até o rosto que imaginara por trás da máscara de náilon era o mesmo.
Havia uma refinada ironia naquela súbita compreensão, mas ela não teve tempo para meditar a respeito, ainda que a percebesse.
Não houve tempo pra gritar. O primeiro disparo foi no rosto. Depois o tambor foi esvaziado no corpo caído no chão. O assassino olhou para o cadáver por alguns instantes, para ter certeza. Depois se dirigiu para o seu carro. Um carrinho popular, discreto. Tratou de sair dali o mais rápido possível. O lugar era deserto, mas nunca se sabe.
Além disso, no meio daquele lugar deserto, diante de uma mulher que todos diziam ter parte com o demônio, mesmo o mais prático dos criminosos se sentia inquieto. Mesmo que a suposta bruxa, largada na soleira da porta, não fosse mais perigosa que um pedaço qualquer de carne.
Dirigiu até a cidade. Parou diante de um telefone público.
-Alô? Doutor Rodrigo? Tá feito. Entrega no lugar certo, dessa vez. Onde eu pego o que é meu? Ã-ham… Tá certo. Tá certo.

 

 

 

Rodrigo colocou o telefone no gancho. Estava feito.
O marginal que contratara para matar o irmão e que errara o alvo da primeira vez acertara na segunda. Ele não se atreveria a mentir, já que contara direitinho o que acontecera no fracasso do “assalto”. Até insistira para que o seu “contratador” ficasse com o dinheiro do pagamento. Uma honestidade bizarra e ingênua, vinda de alguém que, entre outras coisas, matava pessoas para viver.
A velha que dera o veneno ao seu irmão estava morta também. As evidências estavam quase todas encobertas. Só faltava uma coisa.
Tateou o bolso do casaco, apertando o revólver. Nunca matara alguém pessoalmente, mas isto não devia ser tão difícil. Já tinha a história toda montada em sua mente, na versão que descreveria para a polícia. Ouvira um barulho no jardim da frente e, lembrando que esquecera de ligar o alarme e fechar o portão, fora verificar. O assaltante o teria rendido com um revólver e obrigado ele a entregar todo o dinheiro que havia na casa, porém, havia uma arma na mesma gaveta, no escritório, e, quando percebeu que o assaltante apontava a arma para seu rosto, já estando de posse do objeto, sacou a sua arma e disparou.
Como Maicon seria encontrado com o dinheiro na mão e armado, e provavelmente tinha uma ficha quilométrica na polícia, não haveria porque duvidar.
Mesmo assim, havia uma certa tensão. Qual seria a sensação de atirar em alguém?
Ouviu batidas na porta. Claro que o portão já estava aberto, era importante, caso houvesse alguma testemunha abelhuda, que Maicon fosse visto no jardim, sem ele, por um tempo. Encaminhou-se para a porta e a abriu, tentando controlar a expectativa.
Não estava preparado para o que viu. A tensão acumulada e o susto medonho lhe arrancaram um grito.
As duas figuras estavam paradas diante dele e nada diziam ou faziam. Em seus rostos mudos, porém, um ódio calado falava de forma quase telepática. Uma delas era plenamente reconhecível: Ricardo. Claro que estava um pouco inchado e… bem…a putrefação já havia começado o seu trabalho… mas ainda era seu irmão, basicamente. um rosto humano, mesmo que transtornado de mágoa, raiva e decepção.
Porém, a figura à direita do que fora Ricardo tinha tanto de humana quanto pode um pilha de cinzas frias ter de árvore. Era basicamente um conjunto de ossos animados, cobertos por uma camada gosmenta de cor difusa em progressiva liquefação que fora a sua carne. Não fosse o vestido que cobria a repulsiva substância de que era feita, seria impossível discernir-lhe o sexo. Mas Rodrigo sabia não apenas que aquilo fora uma mulher, mas sabia também que fora Júlia. O vestido era branco, de noiva, comprado por seu irmão por ocasião de seu velório.
O homem arrogante e hedonista que ali havia se encolheu e transformou numa criança levada e assustada, apavorada pelos seus próprios crimes, não por qualquer culpa ou remorso, mas meramente pela indubitável certeza de que o castigo agora era inevitável. Não apenas doloroso e fatal, mas horrendo também.
Após o grito, ele recuou, sentindo suas pernas vacilarem, caiu sentado no chão, enquanto tentava correr de costas.
As duas coisas avançaram. Rodrigo podia lhes sentir o cheiro, ouvir o bater de seus passos lentos no chão, ver as manchas de terra e imundície que deixavam no piso da sala. Eram concretas. Absurdas, irreais, mas físicas. Não estava vendo nenhum tipo de fantasma diante dele… eram dois cadáveres e, mesmo assim, andavam.
A súbita percepção da solidez dos visitantes lhe devolveu uma boa dose de presença de espírito, e lembrou-se de que tinha uma arma, apontou para ele e disparou. A bala varou o estômago da coisa, fazendo escorrer um muco espesso pela ferida, mas nada além disso aconteceu. Disparou contra ela e, embora tenha lhe arrancado um de seus débeis braços, ela continuou avançando. Pouca diferença fazia.
Conseguiu ficar em pé, os passos dos dois eram lentos, e descarregou o revólver em sua direção, não se preocupando nem um pouco com a mira. O efeito foi mínimo, pra não dizer irrisório. Pensava em começar a disparar nas pernas das coisas, quando ouviu o clique que significava tambor vazio.
Só então, pensou em correr.
Voltou as costas para eles e deu o primeiro e último passo neste intento. Revelando uma rapidez antes insuspeitada, e uma leveza de movimentos de um pássaro, Júlia lhe ganhou a frente, como num passo de dança, e lhe esticou a esquelética mão em direção ao pescoço. Ele recuou timidamente e Ricardo agarrou-o por trás, imobilizando seus braços como se fossem os de uma criança.
-Você levou um tiro! Você foi envenenado! Não pode… Não pode…
Uma voz rascante lhe sussurrou ao ouvido:
-Sabe o que é mais engraçado, irmãozinho? Eu vou ter que lhe explicar… porque Júlia não tem mais voz… é que a velha não sabia! Pode imaginar uma pessoa tão poderosa… e tão estúpida? Praticando bruxaria e revelando segredos… e pensando que está fingindo! A única pessoa que acreditava que ela era charlatã… era ela própria! Pensava que enganava os outros… mas só enganava a si mesma! Ela era um bruxa de verdade e não sabia!
-Você morreu…
-Não estou discutindo.
-Foi envenenado…
-A velha imbecil pensava que era só veneno… mas era uma poção de poder medonho! E o segredo morreu com ela! Foi muita gentileza sua me sepultar junto de Júlia… assim estamos os dois aqui.
O longo e esquálido braço de Júlia fechou-se em torno da garganta de Rodrigo.
E apertou.
Ele riu.
Ela riu, surpreendentemente.
Os dois riram.
Riram como dois diabos.
Riram como nunca haviam rido nem quando haviam feito amor, uma eternidade atrás.

 

VII

 

O delegado olhou para o sujeito que estava diante dele, algemado e imóvel.
Maicon de Alguma Coisa… um nome comum. Um bandidinho comum. Uma ficha longa, de pequenos delitos, e várias situações mais sérias que não podiam ser provadas… e agora isso.
Mudo. Incomunicável. Catatônico.
Sentado diante dele sem dizer uma palavra.
Os vizinhos haviam chamado a polícia ao ouvirem os tiros. Maicon havia sido retirado de dentro da casa sem a menor resistência. Diante dele, três cadáveres, em sua mão, uma arma de fogo que disparara apenas uma vez. A bala não fora encontrada até agora. A vítima mais recente tinha sido estrangulada. As outras duas… bem, violação de túmulos não era um crime tão grave quanto assassinato, mas mesmo assim, atestava claramente a insanidade do meliante.
Claro, havia o detalhe perturbador dos corpos estarem crivados de balas disparadas pela arma da vítima… mas provavelmente isso se devia a algum tipo de ritual macabro que o psicopata obrigara a vítima a executar antes do estrangulamento.
Mas… era estranho.
Porque, apesar de perigoso, Maicon sempre parecera comum. Ganancioso, dissimulado, sem respeito pela vida ou por qualquer coisa que não fosse a força, astuto o suficiente para permanecer vivo, mas sem a inteligência necessária para prosperar como criminoso. A cidade estava cheia deles.
Mas agora, ele era único. Um louco assassino, requintado e incompreensível. Um monstro muito menos prosaico do que era considerado antes.
A opinião do psiquiatra era essa, expressa em colorido jargão próprio.
A pergunta era… por quê?
O delegado o conhecia de longa data… simplesmente não fazia sentido. Ele não tinha nem inteligência, nem imaginação, nem coragem para cometer uma maldade dessas. Não pelo aspecto da brutalidade, mas pela completa falta de caráter lucrativo do ato. Não fazia sentido… era um bandido comum.
E, quando olhava naqueles olhos, o veterano policial não via nenhum monstro humano perdido em delírios sádicos distantes. Via um homenzinho apavorado, que se fechara dentro de si mesmo porque tinha medo de….
De quê?
De nada. Aquelas conjecturas eram inúteis. Maicon fora o autor… era óbvio!
Não havia outra explicação.
Exceto as risadas. As risadas que só ele, sentado e mudo, ouvia, e que não parariam nunca mais.

 

 

Luiz Hasse