CAPITULO IV

O marginal que contratara para matar o irmão e que errara o alvo da primeira vez acertara na segunda. Ele não se atreveria a mentir, já que contara direitinho o que acontecera no fracasso do “assalto”. Até insistira para que o seu “contratador” ficasse com o dinheiro do pagamento. Uma honestidade bizarra e ingênua, vinda de alguém que, entre outras coisas, matava pessoas para viver.
A velha que dera o veneno ao seu irmão estava morta também. As evidências estavam quase todas encobertas. Só faltava uma coisa.
Tateou o bolso do casaco, apertando o revólver. Nunca matara alguém pessoalmente, mas isto não devia ser tão difícil. Já tinha a história toda montada em sua mente, na versão que descreveria para a polícia. Ouvira um barulho no jardim da frente e, lembrando que esquecera de ligar o alarme e fechar o portão, fora verificar. O assaltante o teria rendido com um revólver e obrigado ele a entregar todo o dinheiro que havia na casa, porém, havia uma arma na mesma gaveta, no escritório, e, quando percebeu que o assaltante apontava a arma para seu rosto, já estando de posse do objeto, sacou a sua arma e disparou.
Como Maicon seria encontrado com o dinheiro na mão e armado, e provavelmente tinha uma ficha quilométrica na polícia, não haveria porque duvidar.
Mesmo assim, havia uma certa tensão. Qual seria a sensação de atirar em alguém?
Ouviu batidas na porta. Claro que o portão já estava aberto, era importante, caso houvesse alguma testemunha abelhuda, que Maicon fosse visto no jardim, sem ele, por um tempo. Encaminhou-se para a porta e a abriu, tentando controlar a expectativa.
Não estava preparado para o que viu. A tensão acumulada e o susto medonho lhe arrancaram um grito.
As duas figuras estavam paradas diante dele e nada diziam ou faziam. Em seus rostos mudos, porém, um ódio calado falava de forma quase telepática. Uma delas era plenamente reconhecível: Ricardo. Claro que estava um pouco inchado e… bem…a putrefação já havia começado o seu trabalho… mas ainda era seu irmão, basicamente. um rosto humano, mesmo que transtornado de mágoa, raiva e decepção.
Porém, a figura à direita do que fora Ricardo tinha tanto de humana quanto pode um pilha de cinzas frias ter de árvore. Era basicamente um conjunto de ossos animados, cobertos por uma camada gosmenta de cor difusa em progressiva liquefação que fora a sua carne. Não fosse o vestido que cobria a repulsiva substância de que era feita, seria impossível discernir-lhe o sexo. Mas Rodrigo sabia não apenas que aquilo fora uma mulher, mas sabia também que fora Júlia. O vestido era branco, de noiva, comprado por seu irmão por ocasião de seu velório.
O homem arrogante e hedonista que ali havia se encolheu e transformou numa criança levada e assustada, apavorada pelos seus próprios crimes, não por qualquer culpa ou remorso, mas meramente pela indubitável certeza de que o castigo agora era inevitável. Não apenas doloroso e fatal, mas horrendo também.
Após o grito, ele recuou, sentindo suas pernas vacilarem, caiu sentado no chão, enquanto tentava correr de costas.
As duas coisas avançaram. Rodrigo podia lhes sentir o cheiro, ouvir o bater de seus passos lentos no chão, ver as manchas de terra e imundície que deixavam no piso da sala. Eram concretas. Absurdas, irreais, mas físicas. Não estava vendo nenhum tipo de fantasma diante dele… eram dois cadáveres e, mesmo assim, andavam.
A súbita percepção da solidez dos visitantes lhe devolveu uma boa dose de presença de espírito, e lembrou-se de que tinha uma arma, apontou para ele e disparou. A bala varou o estômago da coisa, fazendo escorrer um muco espesso pela ferida, mas nada além disso aconteceu. Disparou contra ela e, embora tenha lhe arrancado um de seus débeis braços, ela continuou avançando. Pouca diferença fazia.
Conseguiu ficar em pé, os passos dos dois eram lentos, e descarregou o revólver em sua direção, não se preocupando nem um pouco com a mira. O efeito foi mínimo, pra não dizer irrisório. Pensava em começar a disparar nas pernas das coisas, quando ouviu o clique que significava tambor vazio.
Só então, pensou em correr.
Voltou as costas para eles e deu o primeiro e último passo neste intento. Revelando uma rapidez antes insuspeitada, e uma leveza de movimentos de um pássaro, Júlia lhe ganhou a frente, como num passo de dança, e lhe esticou a esquelética mão em direção ao pescoço. Ele recuou timidamente e Ricardo agarrou-o por trás, imobilizando seus braços como se fossem os de uma criança.
-Você levou um tiro! Você foi envenenado! Não pode… Não pode…
Uma voz rascante lhe sussurrou ao ouvido:
-Sabe o que é mais engraçado, irmãozinho? Eu vou ter que lhe explicar… porque Júlia não tem mais voz… é que a velha não sabia! Pode imaginar uma pessoa tão poderosa… e tão estúpida? Praticando bruxaria e revelando segredos… e pensando que está fingindo! A única pessoa que acreditava que ela era charlatã… era ela própria! Pensava que enganava os outros… mas só enganava a si mesma! Ela era um bruxa de verdade e não sabia!
-Você morreu…
-Não estou discutindo.
-Foi envenenado…
-A velha imbecil pensava que era só veneno… mas era uma poção de poder medonho! E o segredo morreu com ela! Foi muita gentileza sua me sepultar junto de Júlia… assim estamos os dois aqui.
O longo e esquálido braço de Júlia fechou-se em torno da garganta de Rodrigo.
E apertou.
Ele riu.
Ela riu, surpreendentemente.
Os dois riram.
Riram como dois diabos.
Riram como nunca haviam rido nem quando haviam feito amor, uma eternidade atrás.