CAPITULO III

Chovera durante a tarde toda, no funeral, e parecia que iria continuar chovendo agora que começava a escurecer. Rodrigo adentrou o salão da grande casa que pertencera ao irmão e retirou a capa de chuva que pingava de cima do elegante terno negro que usava. Atirou-a displicentemente no cabide ao lado da porta e caminhou pelo local. Os empregados haviam sido dispensados naquele dia. Estava tudo vazio e silencioso.
Rodrigo foi até o bar, que o irmão, abstêmio, sempre evitara, e se serviu de uma dose pequena de uísque. Olhou para o copo e, em seguida, abandonou-o. Soltou uma gargalhada.
A ocasião era para champanhe.
Subitamente, sua alegria foi interrompida. Batidas fortes soaram na porta. Confuso, dirigiu-se para lá e colocou a mão na maçaneta:
-Quem é? Como passou pelo portão?
Uma voz de velha, irritada e perturbadora, soou do outro lado.
-Você deixou aberto, menino. Agora abra a porta também. Não vai querer que os vizinhos me vejam e eu sei disso.
Embora não gostasse nem um pouco do que estava fazendo, Rodrigo abriu, como que movido por um impulso irresistível. A bruxa entrou, usando o mesmo vestido que usara quando o falecido irmão fora visitá-la, mas o xale cinzento estava sobre a cabeça, numa débil proteção contra a chuva.
-O que a senhora está fazendo aqui?? Pensei que tínhamos combinado que…
-Eu também pensei – cortou rudemente a velha, enquanto se dirigia para uma poltrona, sem sequer olhá-lo nos olhos – fiquei esperando meu pagamento na minha casa, mas três dias se passaram e você não apareceu. Aí alguns amigos meus me avisaram que você podia não ser leal. Então eu vim cobrar, pessoalmente.
-Que amigos? Do que a senhora está falando?
A velha olhou para ele e exibiu aquele sorriso estranho, de dentes perfeitos:
-Amigos que me contam coisas. Amigos que ninguém pode ver e cuja língua só eu conheço.
O jovem acrescentou, seguro de si:
-Escute aqui, a senhora é uma atriz excelente e imitar vozes tão perfeitamente a partir de uma gravação que eu te dei é um talento e tanto, mas eu não sou o meu irmão. Você não me passou a perna da primeira vez com esse papo espírita, e não vai passar a perna agora.
A velha pareceu sinceramente ofendida;
-Se você acredita ou não, não é problema meu! Eu fiz a minha parte! Agora quero meu pagamento! Você me garantiu que depois da morte dele estaria rico e pelo que eu vejo é bem verdade!
Houve um instante de silêncio.
-Então?
Rodrigo suspirou:
-A senhora entenderia, se não vivesse numa maloca no meio do mato, que as coisas não são tão simples. Meu irmão foi enterrado hoje. Ainda tenho que dar um jeito num monte de documentação antes de por a mão na grana dele… aí eu vou poder te pagar do jeito que combinamos. Agora, se a senhora me dá licença…
-Eu não sou nenhuma estúpida, menino! Vou lhe avisando… não gosto de ser enrolada. Posso ir embora agora e esperar mais um pouco… mas não muito. Não quebre um trato comigo, ou não vai gostar das consequências.
-Não diga… o que você vai fazer? Me jogar uma maldição?
A velha riu.
-Não… não… isso seria cansativo… é bem melhor procurar a polícia. Todo mundo se convenceu de que foi suicídio, mas ninguém sabe como ele conseguiu o veneno. Eles iam gostar da minha história.
-É… só que, então, a senhora ia em cana também.
-Eu sou velha. Vou morrer logo e, pra mim, a cadeia não seria muito pior do que a vida que eu já levo… se eu não conseguir um pouco de dinheiro pra passar meus últimos anos em conforto.
Uma nova pausa tensa.
-Só estou lhe avisando, assim como meus amigos me avisaram. Agora vou indo.
Levantou-se vagarosamente e se encaminhou para a porta. Rodrigo abriu-a e se afastou, observando a velha pelas costas.
Fechou a porta e se encaminhou para o telefone.
-Alô? Maicon? Tá a fim de ficar limpo comigo depois da merda que você fez da última vez? É. É uma entrega. Te explico melhor amanhã. Lugar de sempre.

 

Era noite alta e clara, dois dias depois, quando ele bateu na porta.
-Quem é? – perguntou a voz do outro lado da porta de madeira. Uma voz envelhecida e irritante.
O marginal coçou o rosto e olhou para os pés, como normalmente fazia, num tique nervoso sutil, quando estava enganando alguém que suspeitava ser mais esperto do que ele próprio.
-É da parte do doutor Rodrigo… ele tem uma coisa pra senhora.
A porta se abriu, lá estava a velha, sorridente e ansiosa. Mas sua expressão mudou instantaneamente. Antes do tiro, ela soube.
Reconhecia o homem diante dela. A mesma jaqueta preta. O mesmo tipo físico. Até mesmo o revólver era igual. O incidente lhe fora descrito com detalhes por Rodrigo, e a velha formara uma imagem mental muito clara do assassinato de Julia, o que fora necessário para a performance.
Clara demais. Até o rosto que imaginara por trás da máscara de náilon era o mesmo.
Havia uma refinada ironia naquela súbita compreensão, mas ela não teve tempo para meditar a respeito, ainda que a percebesse.
Não houve tempo pra gritar. O primeiro disparo foi no rosto. Depois o tambor foi esvaziado no corpo caído no chão. O assassino olhou para o cadáver por alguns instantes, para ter certeza. Depois se dirigiu para o seu carro. Um carrinho popular, discreto. Tratou de sair dali o mais rápido possível. O lugar era deserto, mas nunca se sabe.
Além disso, no meio daquele lugar deserto, diante de uma mulher que todos diziam ter parte com o demônio, mesmo o mais prático dos criminosos se sentia inquieto. Mesmo que a suposta bruxa, largada na soleira da porta, não fosse mais perigosa que um pedaço qualquer de carne.
Dirigiu até a cidade. Parou diante de um telefone público.
-Alô? Doutor Rodrigo? Tá feito. Entrega no lugar certo, dessa vez. Onde eu pego o que é meu? Ã-ham… Tá certo. Tá certo.

Rodrigo colocou o telefone no gancho. Estava feito.