CAPITULO II

Rodrigo não disse uma palavra quando Ricardo voltou ao carro e sentou-se no carona. Manteve o silêncio enquanto ligava o motor e guiava para fora dali, mas olhou com interesse para um certo pacote que o irmão tinha nas mãos. E com surpresa para o sorriso sutil que surgiu em seu rosto alguns instantes depois. Ele parecia que sonhava.
Quando já estavam novamente na zona urbana, consolados pelos ruídos da cidade naquela sexta-feira à noite, ele arriscou uma pergunta:
-Ãhn… como foi?
Ricardo suspirou, num misto de saudade e expectativa, e disse, com calma:
-Bem… me deu esperanças.
-Fico feliz. Quem sabe agora você toca em frente?
-É. Quem sabe?
-E este pacote aí?
-Isto aqui? Bom… eu não posso falar.
-Conselho da bruxa?
-Sim.
-Então vou respeitar.
O carro chegou finalmente à grande casa (na verdade, quase uma mansão) que Ricardo tinha na cidade. O irmão estava hospedado ali desde a morte de Julia, pois não parecia conveniente deixá-lo sozinho. Parou o carro diante do portão e disse:
-Bom… se você não se importa… hoje eu vou dormir num hotel. Acho que você precisa refletir.
Ricardo olhou Rodrigo nos olhos com ternura.
-Meu irmão… você tem sido o meu melhor amigo nestes últimos tempos. Eu sei que não nos demos bem no passado, quando o pai morreu, mas agora eu vejo que você sempre se importou com a gente. Pode ficar tranquilo, eu vou ficar bem. E, se precisar de qualquer coisa, seja dinheiro, seja algum trabalho na empresa, pode falar comigo.
Rodrigo sorriu:
-Não me elogie demais. Sabe que eu não lido bem com trabalho e nem com dinheiro. A minha parte da herança virou fumaça em dois anos, enquanto você assumiu os negócios e, pelo que todo o mundo diz, triplicou o patrimônio. O pai ficaria orgulhoso.
-Cada pessoa tem qualidades diferentes. Enquanto eu viver, não vai lhe faltar nada. Boa noite.
-Boa noite.
Ricardo desceu e atravessou o portão. O agora solitário ocupante do carro ficou observando o irmão cruzar o caminho ladrilhado de árvores até a porta da casa e as luzes da casa se acenderem e continuarem acesas por algum tempo. Tempo demais. Ele já poderia ter se deitado.
Subitamente, ligou o motor e partiu. Esperara por tempo suficiente. Tinha certeza.
O silêncio permaneceu na rua diante da casa até que foi rompido por um outro ruído de motor, agora vindo da garagem. Ricardo partia dali com seu próprio carro, duas horas depois que chegara.
Rodou por ruas tranquilas e silenciosas. Naquela área mais nobre da cidade havia um cemitério parque particular, mantido pelas famílias mais abonadas. Embora Julia fosse apenas uma professora de teatro e dança, e morresse sem ser oficialmente ligada à família, o seu noivo a sepultara lá.
Parou o carro diante dos muros cinzentos e do portão de ferro e desceu. Havia um vigia noturno, pois os parentes dos sepultados ali queriam a todo o custo evitar pichadores, baderneiros e seguidores de cultos e tendências artísticas mórbidas. O vigia reconheceu o homem que o interpelava e aceitou a polpuda gorjeta que lhe foi oferecida para deixá-lo passar por alguns minutos. Afinal, que mal haveria nisso?
Silencioso e escuro. Bonito e triste. Assim era o lugar.
Ricardo encontrou, à sombra de duas árvores, a lápide com o nome de sua amada. Pensou em sua personalidade forte, cativante, alegre, em seu carisma e energia. Em como ela a completava, ele que era apenas inteligente e prudente, com uma tendência muito sufocada ao romantismo, que ela acendera de maneira deliciosa quando os dois se conheceram. Nunca haveria outra mulher igual a ela.
Ele parou e sorriu. Prestes a vê-la de novo. Olhou para o vidro que tinha nas mãos. Um velho vidro de remédio, com um líquido incolor.
“Pense nela diante do túmulo…”
Destampou o vidro e levou-o aos lábios, com lágrimas nos olhos.
“…beba a poção…”
Era adocicada, quase agradável. Não se parecia em nada com remédio.
“…e diga as palavras…”
-Em nome do meu amor, eu desafio a morte. Não importa onde eu for, não me submeto a esta sorte. Quero te ver agora, diante de mim, como eras aqui fora, antes do teu fim, antes de ir embora. Do túmulo te liberto, e te chamo pra mais perto.
Sua visão ficou turva. Em sua mente, apenas a voz da velha…
“…diga o nome dela três vezes…”
-Júlia…
Como a noite estava escura! Ou eram seus olhos?
-Júlia…
Uma luz suave surgia diante dele. Parecia tomar forma. Seria…? Seria…?
-Julia…
Ele a via, finalmente. Nada mais existia. Nem o cemitério, nem o mundo. Apenas ela, luminosa, diante dele, na escuridão. Usando o vestido que teria sido de seu casamento. Ele estava tão feliz! Tão feliz e pleno que pareceu que aquele momento duraria para sempre!
Mas por que então ela estava tão triste? Não dizia nada. Não se movia em sua direção. Apenas o fitava, com um pesar profundo, como se algo irreparável tivesse ocorrido.
Subitamente a visão desapareceu. Ele estava no cemitério novamente, como se tudo tivesse sido um sonho. Mas havia algo errado…
Estava deitado sobre a terra, caíra de barriga para baixo, e havia aquela dor horrenda que começava no estômago e se espalhava por todo o seu peito. Tentou gritar, mas então percebeu que hão tinha mais voz. A única coisa que saiu de sua boca foi sangue.
Então, muito tardiamente, percebeu que fora enganado.

-Suicídio, com certeza – disse o legista – tomou veneno, não há um só indício de violência e pelo testemunho do vigia ele foi lá sozinho, não foi?
-Sim – completou o delegado – foi o próprio vigia que nos chamou, apavorado e se desculpando por ter deixado ele entrar. Foi ele que encontrou o corpo, mas nem mexeu nele. Se o pobre-diabo tivesse alguma coisa a ver, teria sumido.
-Bom, tá aqui o laudo, que só traz detalhes técnicos do que eu falei.
-Hu-hum…
O delegado tomou o papel das mãos do doutor. Acrescentou filosoficamente.
-Rico, jovem, cheio de possibilidades… e faz uma besteira dessas. Ele devia ser muito apaixonado pela noiva.