CAPITULO UM

            O que você considera diversão?

Para Lelé, Pedrão, Mongo e Jorge, os quatro sentados na beira da calçada, com o carro de Jorge estacionado há dois metros de distância numa vaga para deficientes, diversão era quebrar regras e agredir.

Nenhum dos quatro podia dizer com certeza, e provavelmente a resposta a esta pergunta seria desprezo ou violência, quando é que brincadeiras marotas como roubar cones de trânsito, pichações e sujar residências alheias havia se transformado em arroubos de delinquência pura e desarrazoada. O caminho que eles trilhavam aquela altura da vida, sendo Lelé, o mais velho, da idade de dezenove anos, entre brigas, espancamentos, uso de drogas pesadas e todo o tipo de violência covarde que a pouca imaginação dos quatro permitia, era furioso e alucinado. Qualquer pessoa sensata sabia que, para quatro adolescentes como aqueles, o fim estava próximo e  seria implacável. No entanto, sempre fez parte dos requisitos para entrar nesse tipo de turma o total descaso com o futuro.

Jorge, provavelmente o mais cerebral dos quatro, que odiaria admitir isso, achava que a coisa chegara até aquele ponto porque ninguém os detivera. Num mundo sem perspectivas, sem ninguém a indicar o certo e o errado, sem ninguém a puni-los, tudo seria permitido, meramente porque nada havia em contrário. E a violência sempre fez pessoas desesperadas e vazias se sentirem vivas e poderosas.

Foi quando Lelé, que era o líder da turma, gritou:

-Vamos nos mandar daqui. Esse lugar tá uma bosta!

Silenciosamente, os outros três se encaminharam para o carro. Pedrão ocupou o banco de trás, sisudo e aborrecido, ao lado de Mongo com sua habitual expressão de estupefação e dúvida. Era bem possível que Mongo estivesse em outro tipo de turma se ela tivesse chegado nele antes. Na frente ia Lelé, com o olhar de ódio dissimulado, por estar no banco do carona, e Jorge no volante. Quieto, tímido, hesitante.

Lelé andava de muito mau humor desde que, num racha, há dois fins de semana, destruíra completamente o seu carro e então vinha se sujeitando à humilhação de andar na maquininha insípida de Jorge. Não era tanto o modelo do carro ou seu mau estado, mas o fato de que não era ele no volante, que era aquele cara de furão cheio de espinhas, considerado por unanimidade o mais covarde do grupo. Começaram a rodar.

-Pra onde, Lelé?

-Ah! Qualquer lugar! Essa noite tá tão animada quanto um cemitério!

-Ãhh… – principiou Mongo – mas a gente bebeu bastante e…

-Não tenta usar o cérebro, Mongo – disse Pedrão – tu é melhor com o estômago. Eu tenho um lugar que eu lembrei que a gente podia ir…

Ninguém disse nada por meio minuto. Até que Jorge, cuja autoconfiança crescera sensivelmente desde que se tornara o motorista da turma, disse, com uma voz trêmula:

-Onde?

-Pro cemitério.

Lelé soltou uma gargalhada.

-Vai virar gótico, viadinho?

-Olha quem tu tá chamando de viadinho! Eu não disse pra gente entrar lá, eu disse pra ir até lá!

-E qual é a diferença?

-Roda pra lá, Jorge, que todo mundo vai saber.

Jorge ficou indeciso. Se algum dia Lelé não fosse mais o líder, seria Pedrão.

-Anda, ninguém vai se arrepender.

Como Lelé não dissesse nada, absorto em sua própria auto piedade, o motorista guiou o carro naquela direção.