CAPITULO CINCO – PENÚLTIMO

A avó de Jorge, que tinha o sono pesado e não acordara com seu grito, acordou com o barulho da porta de madeira do quarto se estilhaçando e sendo arrancada do marco. Sentou-se, assustada, procurando os chinelos e tateando os óculos em meio à escuridão.

-Que foi isso?! – berrou com sua voz rouca – É tu, Jorge?! Tá com alguém aí?

Silêncio. A velha sentiu mais medo. Pegou o telefone e, percebendo que tinha linha, discou para a polícia, deu seu endereço e disse que tinha estranhos na casa. Aconselharam-na a não sair do quarto e trancar a porta.

Mas a velha era extremamente curiosa, e, pé ante pé, caminhou para fora, fazendo menos barulho que uma folha de seda caindo. Quase desmaiava em seguida.

Seu neto estava morto, diante da porta do próprio quarto, cuja madeira estava em pedaços. Sua garganta estava estraçalhada e seu rosto congelara num grito mudo de horror.

Sua mão direita agarrava uma grossa lasca de madeira, e sobre seu peito estavam espalhadas cinzas e os farrapos de um vestido.

 

 

Três meses depois.

O delegado se chama Zeni. É um descendente de italianos prático, objetivo e incisivo. Ele está diante de uma coisinha para a qual seus métodos são ineficazes.

É manhã. O ar tem cheiro de terra molhada.

O cemitério está isolado por um cordão da polícia, e a perícia age o melhor que pode, os guardas mantém os curiosos à distância. Sobre um túmulo de pedra está o enigma. Uma jovem, ou algo que pode ser uma jovem, vestido com roupas de festa e algumas bijuterias. Mãos ao longo do corpo e sem sinais de violência aparentes. Exceto pelo fato de que ela se parece com uma ameixa seca.

Um dos policiais fala com Zeni. Aquele que ele poderia considerar seu braço direito.

-Dei uma conversada com o senhor que mora na casa aí da frente. Aposentado. Disse que viu um cara largar o corpo aí.

-Tem certeza de que já era um corpo?

-Eu não. Ele tem. Disse que estacionou com um carro aí na frente, desceu com a moça nos braços, segundo ele já estava até meio dura. Depois cruzou os portões de volta, entrou no veículo e partiu.

-Que carro era? Como é que era o cara?

-Não deu pra ver, segundo ele. Só que era bem velho, estava caindo aos pedaços e tinha película nos vidros. Também não deu pra ver o cara direito, porque tava escuro e chovendo na noite passada. Só disse que parecia alguém moço. Baixo, magro e em forma.

-Um moleque marginal dirigindo uma banheira com película. Metade dos merdas dessa cidade! E a perícia, o que é que diz?

-Até agora? Sem impressão digital. E parece que ela foi colocada aí, mesmo, não foi morta no local. Que nem a outra, há uma semana. Aliás, aposto dez pilas contigo que a autópsia vai dar a mesma coisa: hemorragia.

-É… só que qual é a hemorragia que deixa a pessoa… desse jeito?