CAPITULO QUATRO

            Jorge não pensava, dirigia.

Não queria imaginar o que havia acontecido. Nem atribuir explicações. Nem se lembrar. Sua parte racional já começava a forjar a história que contaria a todos, se lhe perguntassem o que acontecera aos seus três amigos. Eles haviam sequestrado   uma garota e obrigado ele a dirigir até o barraco. Depois ele fora embora, sem saber o que tinham feito com ela. Com o tempo, até ele iria começar a acreditar naquilo.

As batidas do seu coração foram recuperando o ritmo normal enquanto ele se aproximava da casa onde vivia com a avó. Uma casa simples, porém limpa e confortável. Ao descer do carro, dentro da garagem, percebeu o quanto as noites ali eram melhores que as no barraco.

No íntimo, sentia-se feliz. Livre. Sobrevivera. Ele não tinha tentado estuprar ninguém, e tinha sido contra, embora não tivesse se esforçado muito. Sem os três por perto, acabaria se endireitando, levando uma vida de bom rapaz. Deixando as farras e a delinquência de lado.

Talvez tivesse sido um sinal dos céus. Uma segunda chance, pensava ele ao entrar no quarto e fechar a porta.

Acendeu a luz.

Gritou.

Cristina estava em pé, diante dele, o vestido rasgado, os seios a mostra, o direito coberto por uma mancha de sangue que começava em seu lábio inferior. Nada mais daquela pose tímida de crente, nem do medo, nem da vergonha. Olhando para aquele rosto que parecia embriagado de uma luxúria demoníaca, ninguém pensaria que, há pouco tempo, ela usara a palavra “pecado” com a conotação de algo a ser evitado.

-Vocês não deviam ter me provocado… – disse ela com uma voz lânguida.

Jorge começou a chorar.

-Não vale! Eu não te fiz nada! Eu nem te convidei pra entrar… nos filmes, se a gente não convida pra entrar… você não vem…

-Eu estava agarrada no teto do carro. Aí você me trouxe pra dentro.

-Mas eu nem ia fazer nada contigo! Me deixa em paz! – lágrimas sinceras rolavam-lhe pelos olhos – Juro que eu não ia fazer nada! Não me mata!

-Tem coisa pior que a morte… Não dá pra evitar. Eu estou com tanta fome…

Saltou em sua direção.