CAPITULO TRÊS

O barraco era uma casa abandonada, que os quatro tinham tornado seu clube particular, onde levavam pó, prostitutas baratas e bebida frequentemente. Quando encontravam algum mendigo dormindo naquilo que consideravam seu território, era uma alegria a parte surrar o sujeito e jogá-lo para a rua, especialmente nos dias de chuva, quando este acontecimento era mais comum.

Mas, apesar do mau tempo, não havia ninguém na casa quando, pela porta balouçante, entraram Pedrão e Mongo com as mãos feito tenazes nos braços de Cristina, que tremia quase convulsivamente, e não ousava dizer nada.

-A gente já vai te aquecer, vadiazinha! – disse Lelé – Segura firme, que eu vou primeiro.

Jorge olhava, parado junto a porta. Já tinha visto eles fazerem aquilo uma vez, mas não tomara parte. Agora talvez o obrigassem, pois é sempre bom partilhar a culpa com todas as testemunhas presentes. Mas é verdade que não gostava muito daquilo. Não tinha coragem de contrariá-los em quase nada, e aquele tipo de diversão não era exceção, mas não gostava.

-Por favor… vai ser horrível…

-Não, vai ser gostoso – disse Lelé, arrancando a cruz de seu pescoço e agarrando a gola do vestido. Enquanto isso, Pedrão e Mongo a mantinham contra uma parede, pressionando firmemente seus braços contra os tijolos nus.

O vestido foi rasgado, revelando seios fartos e firmes, que Lelé começou a beijar, morder e chupar com violência, subindo em seguida para o pescoço. Ao mesmo tempo, metia a as mãos sob o a saia do vestido.

-Ih! Tua religião não permite calcinha? Melhor pra mim…

As mãos se movimentavam. Uma delas saiu de baixo da saia e se dirigiu ao zíper da calça. Foi quando Jorge viu acontecer uma coisa estranha. Cristina, que, a esta altura, deveria estar chorando, começou a suspirar com vívida satisfação, e, embora seus braços estivessem presos, começou a retribuir os beijos de Lelé. Esticou e abriu as pernas, deixando-as a mostra, revelando coxas musculosas e bem torneadas e, aproveitando que estava segura pelos braços, passou-as em torno dos quadris daquele que devia ser seu agressor.

-Tá gostando! – disse Pedrão, com um sorriso – Eu disse que ela queria macho.

Quando Lelé, surpreso, olhou-a nos olhos, ela apertou-o junto dela com as pernas, que revelaram uma flexibilidade e força tremendas, e beijou seu pescoço com voracidade. Ele sorriu, satisfeito.

Em seguida, começou a secar.

Pedrão e Mongo viram o amigo desmanchar o sorriso para uma expressão de idiota, vazia, e viram a pele de Lelé ficar pálida como a de um cadáver, ao mesmo tempo em que Cristina fazia um barulho gorgolejante e o impedia de se libertar com a chave de pernas. As veias do pescoço da moça pulsavam e a pele de Lelé começava a murchar, ficando parecida com um pergaminho seco. Ele já não tinha mais nenhuma vida nos olhos vazios e murchava inerte.

Quando os outros dois se recuperaram do choque, tentaram se afastar, mas agora era ela que segurava seus pulsos com mãos mais fortes que as de um estivador.

-O que é que tá acontecendo?! – disse Mongo.

-Me larga! Cadela! Bruxa! Me larga!

-Jorge, faz alguma coisa!

Porém, Jorge só entendeu o que estava acontecendo quando a múmia ressequida que fora Lelé caiu no chão, e Cristina deu um longo suspiro, como uma pessoa que acabou de beber uma imensa caneca de água sem parar. Aliviada, mas não satisfeita.

Então Jorge desatou a correr. Não queria saber o que tinha acontecido, mas também não queria permanecer ali.

Mongo se soltou, ou foi solto, e Cristina empurrou Pedrão, que gritava histericamente, para o chão, jogando-se sobre ele em seguida. A última coisa que ele viu foi o rosto sensual e belo de sua suposta vítima lambendo os lábios e se aproximando para o último beijo de sua vida.

Jorge havia chegado ao carro, estacionado na rua. Saltou para o volante e deu a partida.

-Jorge, me espera! – gritou Mongo, logo atrás.

-Te fode! Não mandei pegar ela! – disse Jorge, mostrando o dedo médio e arrancando.

Mongo ficou subitamente sem reação. Ouviu um ruído suave, como uma rajada de vento muito leve passando por galhos de uma árvore delicada atrás de si. Virou-se e gritou pela última vez quando uma figura alada e negra, quase do seu tamanho, jogou-se sobre ele.