CAPITULO DOIS

            O cemitério ficava numa zona pacata da cidade, sem muitos moradores próximos, e era ladeado por dois terrenos baldios. O silêncio naquelas paragens, àquela hora de uma noite de outono, era quase perturbador. Um pesadelo para supersticiosos, sem dúvida, era o que estava estampado na cena.

Exceto por um detalhe. Havia uma parada de ônibus bem na entrada da necrópole.

Claro que, àquela altura da madrugada, nenhum ônibus passaria por ali, mas tirava um pouco do charme mórbido que este tipo de lugar evocava. E, ainda mais, se considerarmos que, no instante em que os quatro chegavam diante dela, havia alguém sob o toldo de proteção, que oferecia pouco abrigo contra a garoa fina e do nevoeiro que amortalhavam o lugar.

Era uma garota.

Uma figura singular, não apenas por estar esperando um ônibus às três da manhã, mas também pelo fato de usar cabelos longos e soltos, um vestido comprido e abotoado até a gola, e ser visível, daquela distância, a cruz de madeira no seu pescoço, que, de vez em quando, suas mãos procuravam, aflitas.

E era bonita. Muito bonita. Morena, lábios carnudos e sensuais, e um corpo voluptuoso que os trajes de religiosa fundamentalista não conseguiam disfarçar. E havia aquela expressão de inocência que, ao ser associada a um corpo que sugere luxúria, desperta paixões perturbadoras na maioria dos homens.

Os quatro estavam do outro lado da rua, estacionados, e mantinham os faróis ligados. Ela, aparentemente, não percebera sua presença, ou fazia questão de fingir isto.

-Ta aí, seus bunda-moles – disse Pedrão – não é uma beleza de se olhar?

-Para um pouco! – disse Lelé – Conhece ela? Como é que tu sabia que ela ia estar aqui?

-Tá legal, a história é a seguinte. Três noites da semana passada eu vim por aqui pra vir pra casa, a pé, depois de arrumar uns agitos no ônibus, e por causa deles, não é bom eu andar nele em certos horários.

-Qual é o cobrador que quer te matar? – gracejou Jorge.

-Cala a boca, seu bosta! Continuando, as três noites, mais ou menos por esse horário, eu vi a menina ali, parada, esperando o ônibus. Eu tava sozinho, e ela só me olhou, morta de medo.

-Mas… – disse Mongo, do seu jeito arrastado – como é que ela ia pegar ônibus a esta hora?

-Deve estar esperando alguém – disse Jorge.

-Ou então é louca – completou Lelé – e tu sabe mais alguma coisa sobre ela?

-Não. Nem perguntei. Mas que é uma gata, é, apesar do jeitão de crente.

-Pra mim ela é louca.

Houve um silêncio. Todos aguardavam. Foi Lelé que veio com a ideia.

-Tá na cara que é louquinha! Porque a gente não leva ela pra dar uma volta?

-Ela não ia querer, Lelé! Olha só o jeito dela – disse Jorge.

-Quem disse que ela precisa querer?

Em seguida se voltou para Pedrão, sorridente. Um sorriso que, normalmente, metia medo até mesmo nos companheiros.

-Pedrão, Mongo, os dois vêm comigo. Vamos dar um alô pra moça.

Pedrão sorriu de volta e saltou do carro no mesmo instante. Mongo seguiu Pedrão mais atrás, com passos mais lerdos e movimentos mais pesados.

Jorge principiou:

-Mas o que vocês vão…?

-Fica aí e espera, motora! – disse Lelé.

Os três surgiram da névoa diante da moça. Ela arregalou os olhos e encarou os três, agarrando imediatamente o crucifixo.

-Oi, princesa! – disse Lelé.

-Acho que o ônibus não vem… – resmungou Mongo com um sorriso.

Ela não disse nada. Ficou a encará-los, cada vez mais assustada.

-O gato comeu tua língua, princesa? – voltou a falar Lelé.

-Que pena! – disse Pedrão – Deve ser uma língua muito gostosa. Acho que tua boca deve ser melhor pra outras coisas, e não pra falar, né, gostosa?

Aos poucos, Pedrão e Mongo ficavam dos dois lados dela. Lelé estava na frente. Ela nada dizia, e seu medo parecia aumentar cada vez mais.

-Qualé que é teu nome, guria? – perguntou Lelé.

-Cristina.

Sua voz era doce e assustada.

-Cristina, o ônibus não vai passar por aqui tão logo. Esse lugar é perigoso. A gente pode te dar uma carona… tem sempre espaço pra uma gatinha no carro.

-Eu… – ela ofegava de medo – eu adoraria… mas não posso… se eu for… é errado uma moça da minha idade sozinha com três…

-Quatro – disse Mongo – mas acho que o Jorge não conta. He! He!

-Olha, eu realmente não posso.

-Um beijinho, quem sabe? – disse Lelé chegando mais perto.

-É pecado… eu acho que vou…

Pega!

Mongo agarrou um braço e Pedrão o outro. Ao mesmo tempo, Mongo tapou a boca, sufocando um grito que não saiu. Logo depois da ordem, Lelé agarrou as pernas que se debatiam no ar e, rapidamente, carregaram Cristina para dentro do carro.

Jorge arregalou os olhos ao ver os dois ocupantes do banco de trás entrarem com a prisioneira entre eles. Lelé ocupou o carona. Quando Cristina quis gritar de novo, Lelé voltou-se e desferiu um tapa no seu rosto.

-Quieta!

-Por favor… não façam isso… eu não posso… se vocês começarem a …

Outro tapa.

-Quieta, eu falei! Fica quieta que a gente só vai dar uma voltinha. Se tu for boazinha, tudo vai acabar logo e quem sabe a gente até te deixa na parada de novo, pra esperar o teu ônibus invisível. Agora, se fizer fiasco aqui no carro, eu te arranco os olhos, sua putinha.

-Não me diz que não tava querendo – disse Pedrão – sozinha, na rua a esta hora, só podia tá esperando macho! Agora eles chegaram.

-Toca pro barraco, Jorge – disse Lelé.

-Eu… eu não sei se…

-Anda! Faz o que eu mandei!

Jorge ficou parado por algum tempo. Lelé aproximou a boca do ouvido dele e disse:

-Quer ser tu no lugar da moça? Então vai logo.

O carro disparou.