CAPITULO NOVE

À luz da vela, Gustavo continuava imóvel, e na parede oposta, estava encostado o pai dele, com Morgana à frente, agarrada pelos cabelos, e o seu algoz segurava com a outra mão uma das tesouras do estojo de primeiros socorros contra sua garganta.
O Sr. V. tinha os dentes arreganhados e cerrados, e respirava como quem rosna.
-Eu mato tua neta, filho da puta! – dizia ele, com olhos desvairados, procurando fantasmas nas sombras – Mato ela se chegar perto de mim!
-Pelo amor de Deus! – disse eu – De que é que isso adianta?! Você ouviu ele dizer que ia matar ela também!
-Era um truque!
-Ele acabou de matar a sua filha! Ela não tinha nada a ver com o assunto de vocês e morreu! O que você acha que ele vai querer fazer com quem o traiu?
-Ele matou minha filha…
Lágrimas fluíram de seus olhos. Ele pareceu hesitar, mas em seguida o ódio tomou conta novamente.
-Agora eu vou matar a tua neta, seu merda!
Nisto. Morgana fechou os olhos.
Gustavo abriu os dele e se levantou. Caminhou até o pai, que pareceu subitamente feliz e aliviado. Mas eu podia ver, com os olhos da pouca razão que me restava, que aquele rosto estava vazio. Aquele não era mais meu amigo. Era uma coisa morta e abominável, que sorriu desdenhosa para o Sr. V. enquanto se aproximava dele.
O pobre homem estava tão feliz que, lembrando hoje, sinto quase pena dele, e gosto de pensar que ele estava arrependido quando chegou seu fim.
-Meu filho… meu filho querido…
Ele largou Morgana e correu a abraçá-lo, mas dos lábios de Gustavo saiu aquela mesma voz rouca e maligna que se projetara antes através da boca de Morgana.
-Eu falei que ela ia por último…
Torceu-lhe o braço e lhe tomou a tesoura, golpeou-o várias vezes no rosto. O pobre homem gritava, já além de qualquer alívio.
Quanto a mim, eu havia socorrido Morgana, quando o Sr. V. a atirara ao chão, ela rapidamente me disse, enquanto eu a levantava.
-Detenha-o! Detenha o meu avô!
Agarrei um banquinho que havia por perto e atingi aquilo que um dia fora Gustavo com força na cabeça. Ele caiu e eu continuei a golpear, como um louco. Até que fui chutado do cadáver de meu amigo pelo pai dele.
Já cego de um olho, com o rosto desfigurado, ele abraçou no corpo do filho e chorou copiosamente. Levantou-se depois, e eu continuei no chão, estarrecido. Queria ter conseguido chorar, porque eu realmente gostava daquele sujeito cuja cabeça eu deformara a pancadas. E nunca vou me esquecer que talvez ele ainda não estivesse morto quando eu o ataquei.
Vi o Sr. V. caminhando para os fundos, ainda chorando, tentei dissuadi-lo, mas fui posto no chão com um murro de ferro, e, antes que conseguisse me levantar, ele se afastou correndo. Eu ouvi o baque de seu corpo caindo na água. Depois, silêncio.
-A cada um que morre neste lugar ele fica mais forte – disse Morgana, em pé, atrás de mim – antes, ele não conseguiria fazer o que fez agora com o corpo de seu amigo.
Levantei-me, aparvalhado, e fomos os dois até perto da luz.
-O que é que a gente vai fazer? – perguntei – Somos só nós dois, mas eu quero sair daqui andando. O que é que a gente vai fazer?
-Eu não sei. Em breve, ele vai levantar de novo, mais poderoso que em todas as vezes anteriores. A esta altura, já voltou para a piscina, e está se restaurando do ferimento que você deixou nele. E ele sempre vai poder fazer isto, de novo, e de novo e de novo.
Não ousei perguntar como ela sabia de nossa luta, estando todo o tempo no andar de baixo.
-Espere. E se ele não voltar para lá?
Eu tinha um plano.