CAPITULO OITO

Ficamos em silêncio por, pelo menos, uns quinze minutos. Eu estava sentado, com a espingarda no colo, e ainda digeria as últimas informações. Gustavo ainda respirava, mas não recobrara a consciência.
-Helena, me conta a tua história.
-Meu nome não é Helena, e eu não sou louca.
-Isso eu já sabia.
-Vivi com meu avô por muito tempo aqui, e era feliz. Ele me ensinou muita coisa, porque ele sabia muita coisa, não era um camponês ignorante, como tantos outros. Tinha livros com ele, na cabana. Este era o seu ouro: livros. Alguns você não iria encontrar em nenhum outro lugar senão ali. Mas agora todos foram queimados.
-E como ninguém sabia de você?
-Vivíamos isolados, e ele não deixava que ninguém me visse. Me dizia que as pessoas são más e medrosas, e que não iriam gostar de conhecer uma criança que sabia tanto sobre coisas que outros consideram proibidas até para adultos. Já disse que era muito feliz.
Uma pausa. Encarou o Sr. V., que desviou o olhar:
-Uma noite, o meu avô soube que o perigo vinha mais forte, e me mandou para a floresta onde eu deveria ficar até certo tempo. Naquela noite mesmo, ele apareceu para mim, e disse como devia agir.
-Apareceu…
-Em sonhos. E o tempo passou. Ele me ensinou mais do que quando ainda caminhava neste mundo com pés de carne, e me mostrou o momento certo de trazê-lo de volta, além de como fazer isto.
Silenciamos todos, eu não sabia o que pensar, nem o que sentir.
-Não foi por acaso que você construiu aquela piscina em cima dos ossos de meu avô. Ficou mais fácil para ele se alimentar e se fortalecer. E agora que você derramou o sangue de seu próprio filho sobre o túmulo dele, ele voltará ainda mais forte.
-Chega! Para! Eu não aguento mais! – gemeu Miriam – Ela é louca, não é, pai? É só isso! Você não mandou matar ninguém, não é? E não tem um… um fantasma… atrás da gente, tem?
-Não é um fantasma – disse aquela que chamávamos de Helena – ele tem forma e corpo. Não é o mesmo tipo de corpo que eu e você temos, é mais grosseiro, mais tosco, cheio de limitações e horrível de se viver. Mas muito mais forte. E acho que ele não vai poupar ninguém quando se reerguer. Nem a mim. Já pegou os dois assassinos, e agora vem atrás do covarde que ordenou sua morte. Eu não dou a mínima para nenhum dos três.
Cuspiu no chão, aos pés do Sr. V.
-Mas eu disse que não ia mais ajudá-lo quando me falou em matar os inocentes. Ele está cego de ódio, agora.
-Espera! – disse eu – Como você fala com ele??
-Ele aparece para mim como era quando as coisas…
Emudeceu.
Seu rosto se transformou. Uma malícia de anos e anos se revelou nele, e ela sorriu. Seus dentes, na semiescuridão, pareciam podres.
-Morgana…traidora e delatora…eu vou pegar você por último…depois de matar cada invasor…
A voz era rouca e asquerosa, e saia da boca dela com o mínimo movimento dos lábios, como se projetasse de uma outra boca, dentro do seu peito.
Tomei coragem, enquanto os outros empalideciam e viravam os rostos. E falei.
-Por favor… os filhos dele não têm culpa… e nem eu… essa vingança não vai ajudar ninguém.
Morgana, cujo nome agora era conhecido, ou o que quer que falasse através dela, virou para Miriam, indiferente às minhas palavras.
-Ela primeiro…
Miriam gritou e correu dali, a razão lhe abandonara. Morgana caiu no chão com um baque surdo. Maria agachou-se junto dela.
-Filha! – gritou o Sr. V., fazendo menção de correr atrás.
-Fica aí! Eu tô armado! Eu vou!
Corri atrás de Miriam chamando por ela, seguindo às cegas o som de seus passos. Cheguei às escadas da casa e subi, tropeçando e caindo pelo menos duas vezes. No pavimento superior, onde ficavam os quartos, não havia luz nenhuma. E eu estava sozinho, no escuro e no silêncio. As trevas pareciam tomar forma ante meus olhos. Formas de rostos medonhos e zombeteiros.
-Miriam! Cadê você?
Ouvi uma batida num quarto, corri até lá e encontrei uma porta trancada por dentro. Chamei, gritei, chutei a porta. Como resposta, veio uma outra batida. Um som pastoso, como o de um abacate se espatifando contra uma parede.
Num ato impensado, encostei o cano à fechadura e disparei.
A porta se abriu e lá estava o quarto, debilmente iluminado por uma lanterna caída. Aos pés de sua cama, estava Miriam, os olhos esbugalhados e o sangue se espalhando de seu crânio esfacelado contra o chão.
Atrás, a janela estava aberta, e uma silhueta se emoldurava contra ela. A figura de um homem com chapéu, do qual emanava um cheiro de ódio, podridão, sangue, gatos mortos e conhecimentos proibidos. Ouvi sua risada, e ele ergueu as mãos que haviam acabado de matar Miriam em minha direção.
Caminhava devagar, como um velho, e eu descobri que não conseguia me mexer. Eu dizia para minhas pernas correrem, mal elas pareciam dois blocos de gelo do ártico. Senti as mãos frias e úmidas tocando meu pescoço. Consegui vencer parcialmente aquela paralisia que não tinha nada de natural e apontei a arma para aquele rosto coberto de sombras.
Ele recuou. O que quer que houvesse me aprisionado parecia ter diminuído a força. Eu sabia agora que conseguiria feri-lo. Não havia porque poupar a chance.
Um clique foi a única resposta que a arma deu. É claro! Eu gastara minha única carga na porta!
A coisa riu de novo e voltou a se aproximar de mim, desta vez mais rápido. Desesperado, segurei a espingarda pelo cano e a usei como uma clava, girando com força e atingindo-lhe a cabeça.
Eu estava preparado para arrebentar o cabo e não ver efeito algum, mas não para o que aconteceu em seguida. A cabeça da coisa descolou-se do corpo, estatelou na parede e foi cair diante de luz da lanterna, enquanto o corpo tropeçava e caía, e o ectoplasma nauseabundo que a cobria começava a escorrer pelo chão e revelar, no seu interior, um crânio sem vida.
Dei às costas e fugi. Rolei pela escada em minha pressa, e a arma ficou para trás. Levantei-me mancando e chorando. Caminhei até a luz da vela, na sala de estar.
-Sr. V…. perdão… Miriam morreu… eu não fui rápido…
Estaquei. À beira da porta, a bondosa Maria estava morta, com a garganta cortada.