CAPITULO SETE

Miriam foi convencida a ir com a desculpa de que eu não tinha carteira de motorista, e que seria conveniente que outra pessoa habilitada para dirigir nos acompanhasse. Na verdade, eu tinha a habilitação, embora não possuísse carro, mas era melhor agir como se não tivesse.
Naquele momento em que o fim de tarde se transformava em noite, nosso carro, que deixava atrás de si o portão da propriedade dos V., singrava a estradinha poeirenta e sem saída que era o único caminho em que um carro poderia transitar.
Quem falou primeiro, quebrando o silêncio pesado, foi Gustavo.
-O que é aquilo? O que foi que aconteceu ali?
Tivemos de parar o carro. A caminhonete da propriedade estava parada no meio da estrada. O poste que sustentava os fios que elétricos que, dali a um longo caminho, estariam alimentando a casa, estava atravessado sobre o capô. Mais adiante, os fios arrebentados. Provavelmente a companhia de luz ainda não sabia do acidente, pois aquelas bandas eram praticamente desprovidas, naquele tempo, de usuários de eletricidade.
Os cacos do pára-brisa estavam espalhados sobre o chão, refletindo a luz dos faróis.
-Você tem a lanterna, Toni. Vai lá e verifica se tem algum sinal de Juca.
Olhei para ele e percebei que estávamos ambos com medo. Não me atrevi a olhar para Miriam. Maldisse a minha ideia de apanhar a lanterna.
Caminhei até lá a passo lento. À luz que eu projetava, o carro parecia vazio.
Tremendo e com o coração acelerado, com medo de encontrar o que quer que fosse, fiquei na frente da porta do motorista e iluminei lá dentro.
Vazio. Não havia ninguém.
No entanto, uma coisa chamou minha atenção.
Sobre o banco e os painéis, eu percebi haverem gotas de um líquido verde escuro, uma espécie de limo repugnante, que eu não ousei tocar.

E era muito semelhante, em cor e consistência, ao material do rosto do monstro que me visitara na última noite. Será que ele tinha ficado na piscina a noite inteira, depois de nosso encontro?

Passei a lanterna pela área em volta, e descobri algo ainda mais terrível.
O poste não havia sido arrancado por uma manobra imprudente e desastrada. Ele estava atravessado de lado no capô, com a parte quebrada bem distante da lataria.
Alguma coisa o arrancara de sua estabilidade. Sua base estava partida. E, do pedaço maior, que estava sobre o capô, veio o motivo de eu voltar correndo para o carro, por pouco não deixando cair a lanterna, o que certamente me levaria ao pânico naquela noite.
Havia duas marcas perto de onde ele se partira. Duas marcas feitas daquele mesmo muco repulsivo. Marcas que, pela distância entre si e pelo desenho que formavam, lembravam o desenho de mãos.
E eu me lembrei da mão daquela coisa perto da piscina, que fora erguida para mim, e gotejava. O que teria acontecido se tivesse me tocado?
Um instante depois, eu estava no carona.
-O que foi, Toni? Por que você tá tão pálido?
Miriam parecia mais apavorada que eu, se tal coisa fosse possível, começou a soluçar:
-É o Juca, não é? Ele tá lá, morto, não tá?!
-Não tem ninguém lá – disse eu – o Juca saiu, ou então alguma coisa levou ele.
-Coisa?! Que coisa?! – berrou Gustavo. Eu berrei de volta.
-Eu não sei! Uma coisa sem rosto, coberta de limo verde, vestida como um homem! Usando chapéu!
Eu estava começando a entrar em pânico, e eles perceberam isto.
-Vamos voltar – murmurou Miriam – não dá pra passar por ali. O pai vai ficar preocupado.
-Primeiro eu quero dar uma olhada no Juca…
-Escuta Gustavo – eu recobrara a calma – eu tô apavorado, mas eu falei sério. Não tem Juca. Ele deve ter se acidentado e… ido embora.
Gustavo hesitou. Deu pra notar que eu estava mentindo. Mas deu meia-volta e entrou na escuridão em direção à casa.
Chegamos ao portão e o atravessamos. Saltamos para a casa tendo como única luz minha lanterna. Atravessamos a porta com Gustavo à frente, gritando:
-Pai! A estrada tá bloqueada! O Juca se acidentou e a gente não achou ele!
Nenhuma resposta. Subitamente, Gustavo caiu.
-Tropecei em alguém!
Iluminei com a lanterna, era Maria, caída e de olhos fechados. Miriam se ajoelhou rapidamente ao lado dela, chamando-a, lembrando-se de seu treinamento de primeiros-socorros. Gustavo saiu correndo e chamando pelo pai, temendo pela vida dele, e totalmente fora de controle. Instintivamente se dirigiu à porta que conduzia ao pátio dos fundos.
-Mano! Espera!
-Não vai lá fora, seu imbecil. Não vai lá fora!
A coisa na piscina. A coisa na piscina iria pegá-lo. Pegá-lo como pegara Juca.
Nesse instante, Maria despertou de sua inconsciência e soltou um grito alto, enlouquecido.
-Eu já volto. Miriam, cuida dela. Vou buscar teu irmão.
Saí no encalço dele e o alcancei ao ar livre. Encontrei-o se aproximando de alguém que estava parado perto daquela superfície líquida e podre, de costas para nós. Estaquei apavorado.
-Gustavo. Não!
-Pai…
E o vulto se virou. À luz da lanterna. E era realmente o Sr. V.
Só que o homem tinha a espingarda nas mãos e um rosto de ódio e terror, e disparou contra o filho.
Gustavo caiu frouxo. Quando o velho percebeu o que fizera, soltou um grito cuja dor eu nunca vou esquecer, mesmo que, daqueles tempos para cá, eu tenha visto muita agonia entre os homens. Largou a espingarda e abraçou o filho caído, chorando alto.
O tiro pegara no ombro, mas Gustavo perdia sangue aos borbotões, e já estava inconsciente. Era difícil dizer se estava vivo, ou por quanto tempo ficaria.
-Ele precisa de ajuda – falei – Vamos levá-lo para dentro.
-Não tem ajuda que adiante agora!!
Largou o corpo do filho. Enquanto eu arrancava um pedaço da camisa e pressionava o ferimento, ele catou a espingarda e a recarregou. Disparou uma vez contra a água podre da piscina.
-Seu merda! Seu filho da puta! Fica debaixo da terra, que é o teu lugar! Velho teimoso! Velho teimoso!
Tive um súbito acesso de raiva. Acho que porque já começava a compreender parte daquela história. Levantei-me e fui até o dono da casa, segurando minha lanterna com as duas mãos, formando um punho pesado, e desferi um soco no ouvido daquele homem. Ele cambaleou, eu puxei a espingarda e, antes que caísse na água, eu o empurrei sobre a pedra do pátio.
Ele se levantou rosnando e correu em minha direção. Apontei-lhe a arma.
-Ainda tem um cartucho aqui! Não chega perto!
-Tu não tem coragem, moleque!
-Eu atiro na tua perna! Juro que atiro, se eu precisar!
-Devolve a minha arma, seu merdinha!
-Não. O senhor estava descontrolado. Ia fazer besteira na certa. Pega o Gustavo e vai na frente, eu acho que ele está vivo. Mas a gente precisa cuidar dele, Deus do Céu!!
O velho se acalmou e voltamos para dentro com o ferido. Lá, encontramos uma vela acesa na sala de estar. Maria estava chorando e Miriam continuava tentando acalmá-la, mas quando viu o irmão carregado, foi a vez dela de chorar.
Gustavo foi colocado num sofá e Miriam começou a tratar dele, soluçando e tremendo.
Nenhuma palavra havia sido dita, quando, emergindo das trevas, surgiu Helena, e eu suspirei de alívio, ao ver que ela estava bem.
-Tudo isso é coisa dela! – gritou o Sr. V.
-Não. Eu não atirei em ninguém.
O velho ficou mudo de espanto. Era a primeira vez que ele ouvia sua voz. Ela caminhou até Miriam, trazia um estojo de primeiros-socorros nas mãos.
-Isto ajuda?
-Sim… obrigado…
Eu disse:
-Agora alguém quer me explicar o que aconteceu aqui?
-Ele saiu de dentro da água – disse Maria – tava todo coberto de lodo verde, mas eu sei que era ele. Caminhou até a porta e bateu, eu fui abrir…
Desatou a chorar novamente e não conseguiu dizer mais nada.
-Alguém tentou entrar – completou o Sr. V. – era um estranho, e eu abri fogo. O desgraçado fugiu.
-Ele não fugiu – disse eu – ele pulou na piscina e está lá até agora, se recuperando, eu tenho certeza. Mas por que ali?
-Porque – disse o velho, com um ar derrotado – foi ali, debaixo do fundo, que o Tião enterrou ele, depois de o Juca abater o peste com um tiro.
-Eu me lembro – disse Helena – e isso deixou meu avô muito irritado.