CAPITULO SEIS

Acordei com o sol já alto. Estivera sonhando um sonho mau.
Algo indefinido, como se visto numa TV mal sintonizada. Vi um conjunto de ossos humanos no fundo de uma água esverdeada. E, então, os ossos começaram a sangrar.
Aí eu acordei e cambaleei para o banheiro, foi quando eu notei que estávamos sem eletricidade alguma. A água do chuveiro saiu gelada.
Encontrei a família comendo na cozinha, e nenhum sinal de Maria.
-Bom dia.
-Bom dia – respondeu o Sr. V., o único a me dirigir à palavra – obrigado por lavar e guardar as louças, Antônio.
Nada disse. Até porque eu só lembrava de tê-las ensaboado até o momento em que…
-Vocês perceberam que estamos sem luz? – disse Miriam.
-Eu notei – respondi.
-E o Juca, que não vem! Ele devia ter dito que ia passar a noite no povoado!
E retirou-se da mesa. Estava ainda mais irritável do que de costume. Os dois irmãos permaneceram em sua letargia habitual, até que Gustavo tomou a iniciativa:
-Estou indo pra água.
-Me espera! – gritou Miriam.
Eu os ouvi correndo para fora e, em seguida, uma interjeição desarticulada de horror e asco, seguida de um:
-Que nojo!!
-Como isso foi acontecer?! – foi a resposta do irmão.
De pronto pensei na imagem de mim mesmo, vomitando no pátio, e a lembrança daquela coisa sem rosto me assaltou de súbito. Corri atrás dos dois, pensando em alguma explicação para dar sobre o que eu imaginava que seria uma mancha nojenta no pátio.
Mas não precisei falar nada. A marca fora lavada, provavelmente por Helena.
Os dois irmãos contemplavam a piscina lado a lado, de onde eu estava, só podia ver que a água estava escura, e sentir o fedor que emanava dali. Quando me aproximei mais, Miriam se afastou, com lágrimas nos olhos, murmurando:
-Coitadinhos…
Aproximei-me ainda mais. Gustavo tinha os olhos fixos, mais intrigados do que com repulsa. A água estava pardacenta e um odor de carniça se evolava dali. E eram visíveis pequenas criaturas boiando sobre ela. Sete cadáveres de gatos, já com moscas e larvas pegando sua parte do banquete, jaziam sobre a água.
Poder-se-ia admitir, com certa imaginação, que um gato, por um acaso raro, caísse na água e se afogasse. Mas imaginar o mesmo de sete animais adultos era demais. E isso também não explicava a cor da água.
Lado a lado com Gustavo, contemplávamos aquele lago escuro de horror. Nenhum de nós dizia palavra, era o tipo de coisa mórbida e inexplicável da qual desviar o olhar era impossível. Ficamos assim por um minuto inteiro.
Foi quando, muito vagamente, pareceu que se captava um sutil movimento de alguma coisa no fundo daquela sopa de morte e putrefação. Pensei que fosse minha imaginação, mas recebi um cutucão de meu amigo.
-Viu isso? Acho que tem algum bicho vivo aí dentro!
Ele olhou ao redor e encontrou a rede de limpeza da piscina, pegou em sua haste e enfiou no fundo da… não dava mais para chamar de água. Eu queria gritar, dizer que não tinha nada de bom ali dentro, mas não conseguia imaginar como explicar que sabia disso. Claro que ainda estava tentando me convencer de que a visão da abominação noite passada havia sido apenas um sonho!
Ante meus olhos, a haste deu um puxão:
-Peguei! – gritou meu amigo, quase com júbilo – Peguei! Tem alguma coisa lá embaixo! Tá agarrada na rede!
Ele puxava a haste e eu percebi claramente que, o que quer que houvesse lá dentro, estava puxando do outro lado. Algo que fazia Gustavo, naquele jogo surreal, avançar lentamente para a borda, mas ele parecia não se dar conta nem disso e nem do absurdo da situação. Sequer demonstrava surpresa com o fato de, no fundo daquele líquido, haver algo mais forte que ele.
-Me ajuda, cara! Não tá vendo que ele vai morrer?
Mas eu estava paralisado de terror. Não ousava dar um passo naquela direção.
-Ele vai morrer! Atiraram nele! Atiraram nele!
A haste então escapou de suas mãos e mergulhou na escuridão líquida. A força do último puxão fez Gustavo cambalear para frente.
Parece que o que ocorreu a seguir foi em câmera lenta. Eu venci a paralisia, corri, ou saltei, atrás dele e segurei seu braço, com seu corpo já num ângulo de, pelo menos, cinquenta graus com a piscina. Nunca a gravidade pareceu tão forte, e tive que abraçá-lo e me jogar de costas quando firmei seu corpo em pé, pois parecia que ele estava sendo puxado novamente para frente, contrariando todas as leis da física que conheço.
Caí sentado com Gustavo no meu colo e ele me disse apenas, após algum tempo estupefato:
-Deixei cair a rede, mas acho que não tinha nada lá.
Levantamo-nos e fomos até a casa. Encontramos Miriam relatando ao pai tudo que tinha visto.
-Só pode ter sido alguma brincadeira daquela demente da Helena!
-Mas como, pai? Ela não saiu de casa a noite inteira.
-Isso a gente vai ver.
Caminhamos até a cabana de Juca, batemos na porta. Eu era e ainda sou um homem retraído, e, portanto, não dizia nada, mas estava pronto para interferir caso qualquer violência contra minha musa se apresentasse.
Maria abriu e disse-nos que, conforme o hábito, Helena estava trancada no quarto, cuja janela tinha grades, e assim estivera a noite toda, mas o Sr. V. insistiu em verificar. Ela abriu a porta, humildemente, e lá estava aquela que me encantava os sonhos, adormecida sobre a cama. Ela abriu os olhos e sorriu para mim.
Eu sabia. Sabia que ela saíra, me encontrara com ela durante a noite, no meio de um episódio insólito, horrível e belo a um só tempo.
E, no entanto, diante daquele sorriso, eu não a delatei. Se eu fosse falso, poderia dizer que era porque não acreditava que ela pudesse ter sacrificado sete gatos e derramado seu sangue na água, ou porque ela expressava preocupação comigo, ou porque já acreditava que ela não fosse tão louca como fingia ser, e tudo isso poderia ser verdade, pois tudo isso eu pensava. Mas a verdadeira razão, e eu a expresso aqui, era que eu estava perdidamente apaixonado pela estranha misteriosa. De forma quase insana.
A porta se fechou, e eu fiquei a contemplar a madeira que me privara de seu sorriso por um segundo a mais.
Depois, o Sr. V. estava falando:
-Então tem alguém na propriedade. Só pode ser isso. Vamos todos lá para a casa grande, esperar o Juca voltar, lá eu tenho uma arma.
-Eu disse que a gente devia ter um telefone.
-Fica quieto, guri! – resmungou o velho – Isso não ajuda em nada!
-Eu não sou criança há muito tempo, pai, e é uma pena que você não tenha notado. E o meu carro ainda está aqui, eu podia levar todo mundo pra longe e chamarmos a polícia.
-Pensa, Gustavo – disse Miriam – eu, você, o pai, Antônio, a Maria e mais a pobre da Helena, não cabe tudo isso no seu carrinho.
-Além disso – esbravejou o Sr. V. – eu não vou abandonar a casa que eu construí com sangue e suor pra qualquer baderneiro. Vamos, você vem também, Maria.
-Não posso deixar a Helena sozinha.
Houve um breve silêncio, enquanto o pai da família pareceu deliberar nervosamente.
-Traz ela junto. Assim eu posso ficar de olho.
Havia um medo disfarçado, sub-reptício, mas ainda assim medo, naquelas palavras.
Quando a porta se abriu, Helena estava em pé, usando aquele mesmo vestido antiquado. Ela nos acompanhou sem precisar ser convencida. Lá dentro, Maria a conduziu até o segundo andar e ela foi trancada num quarto. A chave ficou à vista de todos. Enquanto isso, o Sr. V. apanhou sua espingarda e a carregou com dois cartuchos, depois se sentou numa poltrona, na sala de estar, todos os outros se reuniram ao redor.
Aquele silêncio tenso se arrastou junto com os minutos lentos, um lanche foi compartilhado entre todos na hora do almoço. E Maria levou um pouco para Helena. A tarde passou com olhos fixos nas janelas e portas. E eu pensava na porta dos fundos, que levava até a maldita e imensa bacia de água imunda e bichos mortos.
Mas ninguém apareceu para perturbar aquela paz vigilante.
Nem Juca.
A luz começava a dar mostras de sumir, quando o Sr. V. chamou seu filho na sala ao lado e falou com ele em segredo. Quando Gustavo voltou, falou apenas comigo.
-Nós estamos sem eletricidade, e isso vai deixar tudo mais perigoso quando anoitecer… se tiver alguém aqui na propriedade. Ele pediu que eu, você e Miriam fôssemos procurar o Juca no povoado… e que deixássemos minha irmã por lá. Ele está com medo por ela.
Pensei no Sr. V., irascível e apavorado, com uma espingarda e na mesma casa que Helena, por quem não parecia ter amor algum, sem nada além de uma velha criada a se colocar entre os dois, e não senti vontade de ir. Mas não podia expor minhas razões.
Uma ideia, porém, me ocorreu, e eu disse:
-Eu vou pegar uma coisa no meu quarto. Já volto, vai chamando a Miriam.
No caminho, apanhei discretamente a chave do quarto de Helena, que estava sobre um móvel qualquer. Talvez Maria tivesse visto, mas não disse nada. Subi as escadas e destranquei a porta dela, torcendo para que ninguém me visse e tentando ser o mais silencioso possível.
Ela me olhou de onde estava, à beira da janela, e pareceu surpresa com meu gesto. Eu coloquei a chave sobre a cama daquele aposento e disse:
-Vou sair. Cuidado.
Dei-lhe as costas, passei no meu quarto e, para forjar a desculpa, apanhei uma lanterna que encontrara no dia de minha chegada em uma gaveta.